Salva-vidas morre após ficar preso no fundo da piscina de parque aquático em SP; bombeiros alertam para riscos

A morte de um profissional treinado para evitar afogamentos reacendeu, nesta semana, o alerta sobre a segurança de sistemas de sucção em piscinas de lazer e parques temáticos. Guilherme da Guerra Domingos, de 24 anos, líder dos salva-vidas do parque aquático Wet’n Wild, em Itupeva, interior de São Paulo, morreu após ficar preso submerso na tarde de terça-feira (13). O jovem havia mergulhado para recuperar a aliança de uma visitante que caiu na atração "Water Bomb". Mais de 4 milhões sem luz: apagão de dezembro em SP deve virar novo argumento contra concessão da Enel Desaparecimento em Bacabal: Menino encontrado não sofreu violência sexual, diz governo do MA De acordo com o boletim de ocorrência registrado pela Polícia Civil, Guilherme foi sugado e ficou preso no fundo da piscina pelo sistema de drenagem do brinquedo. A demora no retorno do jovem à superfície alertou os colegas de trabalho, que precisaram mergulhar para resgatá-lo. Relatos de familiares indicam que a força da sucção era tamanha que foi necessário cortar o uniforme da vítima para liberá-la. O salva-vidas recebeu os primeiros socorros ainda no local por equipes de emergência e foi transferido ao Hospital Municipal Nossa Senhora Aparecida, mas não resistiu. O caso foi registrado como morte suspeita e a Polícia Civil de Itupeva investiga as circunstâncias. Em nota, a administração do Wet'n Wild contestou a versão inicial do registro policial sobre a mecânica do acidente. O parque afirma que a piscina da atração "não possui ralo de fundo", operando com drenos laterais opostos à área de descida dos visitantes. A empresa informou que possui todas as licenças de funcionamento, incluindo o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), válidas. O complexo de lazer permaneceu fechado nesta quarta-feira em luto pelo colaborador. Parque aquático Wet'n Wild, em Itupeva (SP) TV TEM/Reprodução A família de Guilherme, que será sepultado em Bragança Paulista, expressou consternação. "Todo mundo vai para se divertir, não para acontecer uma fatalidade", desabafou Idilaine da Guerra, irmã da vítima, em entrevista à TV TEM, citando que o irmão era conhecido pela alegria e dedicação à família. Em nota, a prefeitura da cidade também informou que o parque está regular quanto à documentação exigida para seu funcionamento. "Esclarecemos ainda que o Habite-se de cada atração foi apresentado e está válido, assim como o AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros), que também se encontra dentro do prazo de validade". SP não tem lei estadual sobre piscinas Atualmente, a segurança em piscinas de prédios e parques de São Paulo é regida pelo que especialistas chamam de uma "colcha de retalhos" normativa. Não existe uma lei estadual única e específica focada na prevenção de acidentes mecânicos em piscinas. O estado ainda opera sob a égide do Código Sanitário de 1978, um texto obsoleto para os padrões atuais de engenharia, focado quase exclusivamente na qualidade química da água, e não nos riscos físicos dos sistemas de bombeamento. Ralo anti-sucção x Ralo linear, contra-indicado pelos especialistas Reprodução Para mitigar o "efeito vácuo", fenômeno responsável por prender cabelos e membros de banhistas nos ralos, a segurança jurídica recai sobre a Lei Federal nº 14.327, sancionada apenas em 2022. É esta norma que impõe a obrigatoriedade de dispositivos anti-aprisionamento, tampas especiais que não bloqueiam o fluxo total da água e botões de emergência visíveis para desligamento imediato das bombas. Contudo, a adaptação de piscinas antigas, comuns em condomínios e clubes, caminha a passos lentos. Em casos de acidentes, a perícia criminal costuma recorrer à norma técnica da ABNT para responsabilizar administradores, verificando a existência de ralos duplos interligados para dividir a pressão. Enquanto isso, um projeto de lei que tornaria obrigatória a modernização de sugadores e aumentaria o rigor da fiscalização está parado na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) desde setembro do ano passado. Sequência de tragédias O incidente em Itupeva ocorreu pouco mais de duas semanas depois de outra fatalidade envolvendo sistemas de aspiração de água em piscinas. No dia 26 de dezembro, Anna Clara Soares de Britto, de 11 anos, morreu afogada em Campinas enquanto passava as férias na casa dos avós. A menina teve os cabelos sugados pelo filtro da piscina residencial enquanto brincava com uma amiga, quando mergulhou e não retornou. Anna Clara permaneceu submersa por cerca de 15 minutos até que a situação fosse percebida por uma adulto. Apesar de 18 minutos de manobras de reanimação, a criança não sobreviveu. Anna Clara foi atendida pelo Samu, mas não resistiu Reprodução Em nota, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) afirmou que o caso é investigado pela Delegacia da Infância e Juventude (DIJU) de Campinas. A adolescente que estava com Anna Clara já foi ouvida e laudos periciais foram requisitados pela investigação. Especialistas apontam que o chamado "efeito vácuo" em ralos mal protegidos ou antigos é a principal causa de aprisionamento submerso. Segundo a Capitã Karol Burunsizian, do Corpo de Bombeiros de São Paulo, a força gerada pelas bombas pode ser fatal se não houver dispositivos de segurança. — A gente pede para as pessoas sempre tomarem o maior cuidado possível em relação a esses equipamentos, verificar como está a abertura desse ralo e se tem a grade de proteção. Evite nadar sozinho e mergulhar para chegar perto do ralo, principalmente as crianças, que costumam fazer brincadeiras de ficar jogando coisas no fundo e buscar. Antes de começar o lazer, do lado de fora mesmo, verifique onde está o ralo, o lado da piscina, e evite brincar nas proximidades desse local — alerta a capitã. A morte de Anna Clara foi registrada dez dias após a Câmara Municipal de Campinas aprovar, em definitivo, o Projeto de Lei que proíbe o funcionamento de motores de sucção e obriga a instalação de dispositivos de segurança em piscinas de uso coletivo. A proposta foi batizada de “Lei Manuela”, em referência a Manuela Cotrin Carósio, outra jovem menina que morreu aos 9 anos após ter o cabelo preso no motor de sucção de uma piscina de um resort de luxo em Campinas, permanecendo submersa por sete minutos. — Em relação às meninas, às mulheres, é necessário um cuidado extra. É importante evitar nadar com cabelo solto próximo desses locais, principalmente quem tem o cabelo mais comprido. Se o ralo ou duto de sucção não tiver uma grade de proteção mais fechadinha, um espaço maior para passagem de objetos, é um alerta claro pois o cabelo também pode entrar e ser sugado, provocando acidentes como esses — afirmou Karol Burunsizian, capitã do Corpo de Bombeiros. Após a morte de Manuela, o deputado estadual Rogério Nogueira apresentou mais um projeto na Alesp sobre o tema. O texto proíbe o funcionamento de motores de sucção em piscinas de uso coletivo, durante o período em que estiverem abertas ao público. A proposta também obriga a instalação de dispositivos de proteção, sistemas de alívio e desligamento automático. Balanço de afogamentos no Litoral de São Paulo Além dos acidentes em piscinas, o litoral paulista registrou um fim de semana de alta demanda para os guarda-vidas. Segundo balanço do Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar), entre os dias 9 e 11 de janeiro, foram contabilizados oito óbitos por afogamento nas praias do estado. Ao todo, 234 pessoas foram salvas de situações de risco no mar e mais de 65 mil ações de prevenção (como orientações a banhistas) foram realizadas. Guarujá concentrou o maior número de ocorrências graves no período, com 52 chamados de afogamento e três mortes, seguida por São Sebastião, que registrou 38 incidentes e 48 resgates.