Irã anuncia que não haverá execuções 'nem hoje, nem amanhã' enquanto fecha temporariamente espaço aéreo

Em meio à escalada de protestos e à pressão internacional, o governo iraniano sinalizou um recuo pontual na repressão. O ministro das Relações Exteriores do país, Abbas Araghchi, declarou que não há execuções previstas “nem hoje, nem amanhã”, após familiares de Erfan Soltani, de 26 anos — o primeiro manifestante condenado à morte desde o início das mobilizações contra o regime — serem avisados do adiamento da pena. Em entrevista à emissora americana Fox News, Araghchi insistiu que 10 dias de manifestações pacíficas contra as dificuldades econômicas do Irã foram seguidos por três dias de violência orquestrada por Israel, e que a calma já havia sido restabelecida. Contexto: Trump avalia ação militar, cibernética ou econômica ao Irã em meio a protestos que já deixaram ao menos 200 mortos Escalada dos EUA: Trump encoraja manifestantes no Irã a tomar instituições e diz que 'a ajuda está a caminho' "Posso afirmar com certeza que não há nenhum plano para enforcamento", disse Araghchi. Initial plugin text O gesto coincidiu com o fechamento temporário do espaço aéreo do país, autorizado apenas para voos civis internacionais específicos, e ocorreu enquanto Washington dizia acompanhar de perto a situação. Segundo o Flightradar24, um site sueco que rastreia voos ao redor do mundo, o aviso é válido para pouco mais de duas horas de duração. Veja a baixo o aviso emitido: Initial plugin text Ainda de acordo com o Flightradar24, o governo da Alemanha emitiu um alerta às companhias aéreas do país para que evitassem sobrevoar o espaço aéreo iraniano. A orientação, analisa a plataforma, reflete a avaliação de risco crescente na região em meio às restrições impostas por Teerã e ao agravamento das tensões internas e externas. Trump recuou? Mais cedo, presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse nesta quarta-feira que foi informado de que os assassinatos "cessaram" no Irã, após dias de brutal repressão, de acordo com grupos de direitos humanos. A declaração ocorre em meio à onda de protestos que ocorrem há duas semanas no Irã e a violenta repressão promovida pelo governo, que rendeu ameaças do líder americano a Teerã. Durante um evento na Casa Branca, Trump afirmou que lhe foi dito "por uma fonte confiável" que "as mortes no Irã estão cessando, pararam". "E não há planos para executar" os detidos, acrescentou Trump, que havia dito que tal repressão poderia provocar uma reação enérgica de sua parte. O presidente dos EUA disse que ficaria "muito chateado" se a informação se provasse falsa e a repressão violenta continuasse. Perguntado se a ação militar estava descartada, Trump disse que iria "observar" e "ver qual seria o processo". — Mas recebemos uma declaração muito, muito boa de pessoas que estão cientes do que está acontecendo — disse Trump. Os comentários surgem depois de Trump ter instado os iranianos a continuarem os protestos contra o governo do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. O presidente afirmou que "agiria de acordo" após ser informado sobre o número de manifestantes mortos. Ele publicou nas redes sociais que "a ajuda está a caminho" para os que protestam no Irã. Alguns militares americanos e britânicos destacados na maior base dos Estados Unidos no Oriente Médio receberam ordens para deixar o local até a noite desta quarta-feira, em meio a crescente tensão. Em resposta, a República Islâmica disse que, se os EUA atacarem, teria instalações americanas no Oriente Médio como "alvos legítimos". A decisão de retirada da base em al-Udeid, no Catar, indica, portanto, uma medida de "precaução" da Casa Branca frente a escalada de retórica entre os dois países, que já travaram uma guerra de 12 dias em junho do ano passado. A informação foi confirmada pelo Escritório Internacional de Mídia do Catar. Nesta quarta-feira, o comandante da Guarda Revolucionária, Mohammad Pakpour, afirmou que o Irã está preparado para responder "com firmeza" aos Estados Unidos e a Israel, acusando Trump e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, de estarem por trás dos protestos que sacodem a República Islâmica. Nos últimos dias, Trump ameaçou em diversas ocasiões intervir militarmente no Irã e, na terça-feira, em uma tentativa de intensificar a pressão, anunciou tarifas de 25% aos parceiros comerciais da República Islâmica. Trump também havia ameaçado agir "de maneira muito firme" se as autoridades iranianas começassem a executar os manifestantes, depois que o Ministério Público de Teerã afirmou que seriam apresentadas acusações por crimes capitais de "moharebeh" ("guerra contra Deus") contra alguns dos suspeitos detidos nos protestos. No passado, houve casos em que essas acusações levaram à pena de morte. Guga Chacra: Em defesa das iranianas e iranianos Enquanto isso, o balanço de vítimas deixado pela repressão não para de aumentar. Segundo a ONG Iran Human Rights (IHR), sediada na Noruega, as forças de segurança iranianas mataram ao menos 3.428 manifestantes e detiveram mais de 10 mil pessoas. Ainda assim, a entidade advertiu que o número real provavelmente é muito maior. A internet segue cortada em todo o país pelo sétimo dia consecutivo, segundo a organização de cibersegurança NetBlocks, o que dificulta o acesso à informação. Ainda assim, algumas informações acabam vazando. Novos vídeos publicados nas redes sociais e verificados pela AFP mostram dezenas de corpos em um necrotério no sul da capital iraniana. Diante da repressão e do corte das comunicações, parece que a intensidade dos protestos diminuiu drasticamente. O Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), com sede nos Estados Unidos, afirmou que as autoridades estavam empregando "um nível de brutalidade sem precedentes para reprimir os protestos" e que os relatos sobre atividade de protesto na terça-feira se encontravam em "um nível relativamente baixo".