Luísa Sonza desacelera em “Bossa Sempre Nova”, álbum colaborativo com Toquinho e Menescal

A bossa nova nunca foi sobre excesso. Foi sobre gesto, silêncio, intenção. Sobre chegar perto sem invadir. Talvez por isso Chico – a canção do álbum Escândalo Íntimo (2023) que marcou um momento de virada na trajetória de Luísa Sonza – tenha encontrado ali um território tão fértil. Não como ruptura, mas como sinal. Bossa Sempre Nova, álbum que a cantora acaba de lançar nas plataformas digitais ao lado de Roberto Menescal e Toquinho, nasce dessa escuta atenta: menos afirmação, mais convivência. Gravado ao longo de 2025 de forma orgânica, com músicos tocando juntos em estúdio e poucas intervenções posteriores, o disco reúne 14 faixas e se organiza como um projeto triplo. Menescal e Toquinho não aparecem como convidados pontuais, mas como coprodutores, instrumentistas e intérpretes, dividindo a construção do álbum com Luísa. A presença dos dois (pilares vivos da história da bossa nova) não funciona como chancela simbólica: interfere diretamente no som, nas escolhas e no modo como o repertório se apresenta. “Acho que, acima de tudo, foi uma aula”, diz Luísa. “A gente aprende muito. Aprende como a bossa surgiu, como ela é pensada por dentro, e também entende a conexão que a música faz – os encontros que ela provoca.” Para a cantora, trabalhar com artistas de gerações, histórias e origens tão distintas trouxe mais alívio do que tensão. “Tinha coisas na forma de pensar música que eu via muito parecidas com a minha. Isso me deu uma segurança enorme.” Se a proposta de Bossa Sempre Nova é reverência, ela nunca se disfarça de inovação. Os arranjos optam claramente pela fidelidade: violão, pequenas formações, dinâmica controlada, tempo interno respeitado. Clássicos como Águas de Março, Tarde em Itapuã, O Barquinho, Triste e Samba de Verão aparecem sem reconfigurações radicais, ancorados na memória coletiva da canção brasileira. Luísa não tenta ressignificá-los, mas canta porque ama, e isso basta. É na voz, no entanto, que o álbum encontra sua principal fricção. Se a tradição da bossa nova pede uma emissão mais constante e econômica – como se consagrou nas interpretações de Nara Leão, Astrud Gilberto ou na contenção elegante de João Gilberto –, Luísa opera num limite interessante: não rompe o pacto estético do gênero, mas também não abdica de sua identidade vocal. Há vibrato, há corpo, há pequenas variações de timbre que denunciam uma intérprete formada em outros territórios. Luísa Sonza Pam Martins “Eu me sinto muito uma intérprete”, afirma. “Gosto de respeitar a música, seja qual for. A interpretação. E eu vi muito isso neles.” Essa identificação aparece em faixas como Só Tinha de Ser Com Você, ao lado de Toquinho, onde sua voz soa especialmente confortável, e em Você, cantada com Menescal, quando explora um registro mais grave, levemente raspado, que colore a canção sem deslocá-la de seu eixo. O álbum, no entanto, mantém um registro interpretativo bastante uniforme. A unidade estética é clara e intencional. Para alguns ouvintes, pode soar como repetição; para outros, como coerência. Bossa Sempre Nova funciona menos como obra de impacto imediato e mais como atmosfera contínua, dessas que pedem contexto, companhia e tempo. A única inédita do disco, Um Pouco de Mim, ajuda a entender esse lugar. Escrita por Luísa para outro projeto, a canção acabou migrando para o álbum por sugestão do produtor Douglas Moda. “Eu só mandei para o Menescal com uma condição: a capella”, conta. “Eu queria que ele criasse tudo a partir da minha voz.” O resultado é uma faixa que não soa como ruptura, mas como encaixe — um encontro possível entre gerações. Essa lógica de respeito à tradição também orienta a estética visual do projeto. A capa do álbum recria simbolicamente o ambiente onde a bossa nova nasceu: um apartamento, vista para o Rio de Janeiro, referências à arquitetura de Oscar Niemeyer. “Eu quis trazer tradição”, explica Luísa. “A bossa nasceu dentro de um apartamento. Eu estava ali em espírito", brinca. A cadeira inspirada no designer modernista funciona ainda como pista para o próximo disco, em que a artista pretende explorar mais profundamente a arquitetura brasileira como linguagem visual. No contexto da carreira de Luísa Sonza, Bossa Sempre Nova funciona menos como reposicionamento e mais como respiro. Um trabalho específico, consciente, que reafirma sua liberdade artística sem romper com sua identidade. “Eu sempre transitei por muitos ritmos”, diz. “Nunca tinha feito um álbum tão direcionado para um só gênero. Foi novo pra mim – e muito especial.” O disco não tenta provar nada. Tampouco soar definitivo. Seu maior mérito está na curadoria afetiva, no cuidado e na forma como promove encontros reais entre gerações. “Quando existe troca, consenso, acolhimento, é o que faz a música continuar existindo”, resume Luísa. Bossa Sempre Nova não pede aplauso imediato. Pede atenção. E, em tempos tão ruidosos, isso já é muito. Luísa Sonza Pam Martins Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!