E se um dos vírus mais comuns da atualidade acompanhasse a humanidade desde a Pré-História? Uma nova análise de DNA antigo, conduzida por pesquisadores brasileiros, sugere que sim. Cientistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) identificaram fragmentos do papilomavírus humano tipo 16 (HPV16) em múmias preservadas no gelo que viveram há milhares — e até dezenas de milhares — de anos. Não é a quantidade de chuva que muda com o calor extremo, mas sua distribuição; entenda estudo Nem um macaco faria igual: estudo revela como reconhecemos a 'assinatura humana' na arte abstrata O estudo analisou material genético de Ötzi, o Homem de Gelo encontrado nos Alpes e datado de cerca de 5.300 anos atrás, e do chamado Homem de Ust’-Ishim, que viveu na Sibéria há aproximadamente 45 mil anos. A partir de mais de 5,7 bilhões de leituras de sequenciamento genético, a equipe encontrou evidências inequívocas da presença do HPV16, hoje conhecido por sua transmissão sexual via contato com a pele e por estar associado a diferentes tipos de câncer. Os resultados estão disponíveis desde dezembro na plataforma bioRxiv, ainda sem revisão por pares. Segundo o professor Marcelo Briones, do Centro de Bioinformática Médica da Unifesp, a pesquisa buscou responder se vírus associados ao câncer já circulavam entre humanos pré-históricos. “Encontramos fragmentos inequívocos de HPV16 em ambos”, afirmou o pesquisador em entrevista ao site Live Science. Os restos mortais de Ötzi, o Homem de Gelo, foram analisados e revelaram novos segredos sobre o ser humano mumificado mais antigo da Europa AFP Vestígios virais no DNA antigo Para chegar às conclusões, os cientistas aplicaram técnicas avançadas de triagem taxonômica e mapeamento direcionado, comparando os fragmentos encontrados com genomas virais de referência. Entre vários tipos de HPV analisados, o HPV16 se destacou de forma consistente nas duas múmias. No caso de Ötzi, foi possível reconstruir cerca de 94% do genoma viral, com forte semelhança à sublinhagem HPV16A1, atualmente predominante na Europa. Já no indivíduo siberiano, apesar da preservação mais limitada, os fragmentos indicam proximidade com a sublinhagem HPV16A4, associada a populações eurasiáticas antigas. Para Briones, os resultados são coerentes com a história das migrações humanas e com as regiões onde esses indivíduos viveram. A equipe também buscou afastar a hipótese de contaminação moderna. Os fragmentos apresentaram marcas químicas típicas de DNA antigo, como alterações específicas nas extremidades das sequências. “As assinaturas de degradação observadas são compatíveis com moléculas virais preservadas por milhares de anos”, explicou o pesquisador. O que muda na história do HPV A identificação do HPV16 em humanos que viveram há pelo menos 45 mil anos tem impacto direto sobre teorias evolutivas do vírus. Modelos anteriores sugeriam que a principal linhagem oncogênica teria sido introduzida no Homo sapiens a partir do cruzamento com neandertais. Os novos dados, no entanto, indicam que o HPV16 já circulava entre humanos modernos no Paleolítico Superior. “Nossos resultados sugerem que o HPV16 é um companheiro antigo da nossa espécie, provavelmente presente antes mesmo das grandes dispersões humanas para fora da África”, afirma Briones. A hipótese reforça a ideia de uma longa coevolução entre o vírus e seus hospedeiros humanos, em vez de uma aquisição recente entre diferentes grupos humanos. Embora o estudo não permita afirmar se o vírus estava ativo ou causava doenças nesses indivíduos, os autores destacam que análises futuras poderão investigar se o HPV estava integrado ao genoma humano ou presente de forma independente. Por ora, o achado amplia de maneira significativa o horizonte temporal conhecido de um vírus central para a saúde pública contemporânea — e coloca a ciência brasileira no centro dessa descoberta.