As medidas cautelares cumpridas pela Polícia Federal (PF) na segunda fase da Operação Compliance Zero na última quarta-feira (14) contra o CEO do Banco Master, Daniel Vorcaro, familiares e suspeitos de integrar o esquema de fraudes na instituição já haviam sido solicitadas pelos investigadores à Justiça em outubro de 2025, um mês antes da megaoperação que prendeu o banqueiro e da liquidação do Master pelo Banco Central. As diligências, porém, não haviam sido autorizadas até ontem. Caso Master: Decisão de Toffoli expõe mal-estar com a Polícia Federal Fogo cruzado: Investigadores da PF rebatem Toffoli sobre 'inércia' em operação do Caso Master A cronologia, confirmada pela equipe do blog com três pessoas a par da investigação, põe em xeque as críticas do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, que acusou a PF de “inércia” e falou em “falta de empenho” por parte da corporação na decisão que autorizou a prisão preventiva do cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, e concedeu mandados de busca e apreensão contra o empresário Nelson Tanure e o investidor João Carlos Mansur, além de parentes do controlador do Master. Além disso, a ordem dos fatores indica que Tanure, sócio de Vorcaro em diversos investimentos, e Mansur, um dos alvos da Operação Carbono Oculto em agosto passado, e Zettel estavam na mira da PF há muito mais tempo do que se tinha conhecimento até agora. Parceiro de Vorcaro: Alvo da PF, fundos de Tanure injetaram R$ 2,5 bilhões no Master Segundo Toffoli, as medidas cautelares foram requeridas ao STF no último dia 6, autorizadas por ele no dia 7, com ordem para que fossem cumpridas em um prazo de 24 horas, a partir da última segunda-feira (12), "diante da gravidade dos fatos e necessidade de aprofundamento da investigação, com fartos indícios de práticas criminosas de todos os envolvidos". “Causa espécie a esse relator não só o descumprimento do prazo por mim estabelecido para cumprimento das medidas cautelares ordenadas, posto que resta claro que outros envolvidos podem estar descaraterizando as provas essenciais ao deslinde da causa, como a falta de empenho no cumprimento da ordem judicial para a qual a Polícia Federal teve vários dias para planejamento e preparação, o que poderá resultar em prejuízo e ineficácia das providências ordenadas”, escreveu o ministro. Master: Contrato milionário da mulher de Alexandre de Moraes previa atuação em órgão federal, mas… Leia também: A ‘prisão domiciliar relâmpago’ de Vorcaro após acareação no STF Como antecipamos no blog, as críticas do magistrado provocaram indignação entre investigadores, que rebateram as acusações alegando que um dos endereços dos alvos só foi conhecido na noite de terça-feira, véspera da operação. Embora o magistrado tenha insinuado que a PF se atropelou no planejamento das diligências, investigadores do caso relataram à equipe da coluna sob reserva que as cautelares cumpridas na última quarta já haviam sido solicitadas à Justiça Federal há três meses, quando o caso ainda não havia sido puxado por Toffoli para o STF. Àquela altura, a PF já investigava a pedido do Ministério Público Federal (MPF) se Tanure era o controlador oculto do Banco Master. Foi no âmbito desta frente de apuração que se deu a solicitação para avançar com diligências sobre os alvos da operação desta quarta. Cronologia: Banco Central alertou Vorcaro sobre 'medidas prudenciais preventivas' um ano antes de liquidação E ainda: Contratos de influenciadores para defender banco de Vorcaro chegavam a R$ 2 milhões O inquérito tramitava em São Paulo, onde o pedido foi protocolado. Mas, a contragosto da PF, a Justiça Federal paulista não decidiu imediatamente sobre as cautelares. Segundo fontes familiarizadas com a investigação, “o caso era complexo” e o juiz responsável pelo caso pediu esclarecimentos antes de decidir sobre as medidas. Em paralelo, corria outra investigação na Justiça Federal de Brasília que deu origem à primeira fase da Compliance Zero, deflagrada em 18 de novembro. Nesta data foram presos Vorcaro e quatro diretores do Master, e o banco foi liquidado pelo BC. Master: O pedido que Vorcaro negou em depoimento sigiloso ao STF E ainda: Perguntas de Toffoli a Vorcaro pedem que dono do Master avalie atuação do BC Tudo mudou quando, no início de dezembro, Toffoli atendeu a um pedido da defesa de Vorcaro para que fosse admitida a competência da Corte no caso em função da citação do deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA), detentor de foro privilegiado, nas investigações. Antes, Toffoli havia colocado o caso sob sigilo na mesma data em que viajou de jatinho para a final da Copa Libertadores em Lima junto com o advogado de um dos investigados. “Depois que o ministro determinou que o inquérito subisse para o Supremo, a PGR se manifestou favorável às cautelares. Toffoli determinou que a operação fosse executada no dia 12, mas tínhamos levantamentos pendentes e ontem solicitamos uma retificação e uma nova busca contra o principal alvo. Com a decisão e os endereços confirmados, cumprimos a ordem do STF hoje”, afirmou um dos investigadores à equipe da coluna. Congresso: CPI do INSS já é recordista absoluta no número de requerimentos Joias sauditas: Gonet inicia 2026 sem decisão sobre denúncia contra Bolsonaro Toffoli fez questão de destacar o horário em que os investigadores da Polícia Federal acionaram o Supremo para solicitar a prisão preventiva de Zettel e diligências de busca e apreensão contra ele e Nelson Tanure. Segundo o ministro, a PF enviou o pedido às 19h13m da última terça-feira (13). A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, se manifestou favoravelmente às solicitações pouco mais de uma hora e meia depois, às 20h49m. Na petição enviada ao Supremo, a Polícia Federal informou Toffoli que o cunhado de Vorcaro viajaria para Dubai de jatinho a partir do Aeroporto Internacional de Guarulhos e que o embarque para o exterior representava uma “oportunidade única” para a “obtenção de elementos que corroborem, ainda mais, sua participação” nos fatos investigados, além de eventuais provas de outros crimes que os investigadores suspeitam que ele tenha cometido. Acareação: Dono do Master se reuniu com diretor do BC no dia em que foi preso Após Fabiano Zettel ser preso preventivamente, a PF apreendeu celulares e outros materiais em posse do empresário, que foi liberado na sequência. No caso de Tanure, abordado no embarque de um voo doméstico no Aeroporto Internacional do Galeão com destino para Curitiba (PR), a Polícia Federal argumentou ser necessário uma busca e apreensão no local em que o empresário fosse encontrado, e não em sua casa. Caso Master: Acareação de Toffoli ajuda plano da defesa para desmontar investigação de fraude Isso porque, considerando a previsão de decolagem do voo, às 7h30m, ele poderia deixar sua residência no Rio antes do horário permitido por lei para cumprimentos de mandados judiciais, 5h da manhã. A operação da última quarta-feira envolveu 40 equipes da Polícia Federal e cumpriu mandados em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, na Bahia e no Rio Grande do Sul.