Por que a morte de um garçom dói diferente no Rio

O Rio está sempre morrendo de alguma coisa. Morrem prédios, morrem hábitos, morrem bares. Às vezes morrem pessoas que sustentavam tudo isso sem nunca aparecer no retrato oficial da cidade. Aqui, a morte raramente é repentina. Ela vem parcelada: uma porta que fecha, um salão que esvazia, um garçom que deixa de aparecer no turno da noite. Esta coluna é sobre três mortes diferentes. História, cerveja e axé: do samba no Renascença à batidinha no Bar do Momo, um roteiro para aproveitar os encantos do Rio no verão O PF, tal qual a boa política, vive da harmonia: é simples, direto, democrático Há 15 anos, quando a prefeitura começou a carimbar bares como Patrimônio Cultural Carioca, o gesto soou como reconhecimento tardio — bonito no papel, inofensivo na prática. Reconhecimento não paga aluguel. Dos 26 locais inicialmente “tombados”, três deles já morreram, e outros cinco só seguiram existindo porque trocaram de dono, de perfil, receberam investimento. O problema não se explica apenas por má administração ou falta de incentivo público. Há falha também da clientela, que por vezes mais louva do que frequenta — celebra a memória, mas abandona a rotina. O caso mais constrangedor talvez seja o do Bar Luiz: mais de 13 décadas de vida e, ainda assim, deixado à própria sorte. Como uma cidade se acostuma a perder bares centenários como se fossem lojas em crise de shopping? Foi assim com o Cosmopolita. Berço do filé à Oswaldo Aranha. Endereço afetivo de gerações, que faria 100 anos em 2026, mas não chegou lá. O centenário ficou no quase. Faleceu aos 95, depois de um fim de vida arrastado. Não morreu por falta de história. Morreu apesar dela. Como tantos outros, fechou cercado de homenagens póstumas e incapaz de usar, em vida, qualquer uma delas para continuar existindo. Já o Lamas, meu xodó, ainda vive. E não é exatamente que vá morrer. Dessa vez, talvez, a cidade não deixe. Há um acordo tácito de que perder o bar mais antigo do Rio seria um vexame grande demais até para nós. Mas o velho Lamas — o que fazia da madrugada um território natural, e da boemia um hábito cotidiano — ficou para trás. O que existe hoje é um sobrevivente digno, elegante, mas cansado. Como alguém que ainda se arruma bem para sair, mesmo sabendo que já não aguenta mais virar a noite. O risco não é o fechamento abrupto, mas algo mais sutil: a extrema-unção permanente. A impressão de que o lugar vive sempre à espera de uma salvação, de um novo dono, de uma boa alma —que até pode chegar, mas dificilmente preserva o essencial. Paira no ar, entre o alho torrado e a cebola refogada, uma sensação de gurufim permanente. E quem vai hoje quase sempre vai assim: aproveitando o charme, o peso da História e aquele medo discreto de que qualquer noite possa ser, sem aviso, a última daquele Lamas que ainda reconhecemos. Se bares envelhecem, adoecem e morrem aos poucos, são os garçons que tentam manter tudo de pé enquanto dá. O Melo e o Jean morreram nesta semana. Um com mais de 40 anos de Lamas, dentro do salão. O outro, na lanchonete do lado de fora, com “só” metade do tempo de casa. Dois colegas, um cruel simbolismo. Nenhum deles era o meu garçom favorito, nem o mais famoso da história do bar. Talvez por isso fossem tão reais. Sorrisos fáceis, simpatia no ponto, presença tranquila. Do tipo que a gente só entende o tamanho quando não está mais ali. A morte de um garçom dói diferente. Ela não fala do fim de um bar, mas de uma época que não será reposta. Drummond já avisava: as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Tampouco há outro Cosmopolita chegando aos 100, outro Bar Luiz atravessando séculos, outro Melo pronto para atender a próxima mesa sorridente, nem um simpático Jean servindo chope pra mim, mate pra minha filha depois da escola. A bola ainda rola. A cidade ainda funciona. Mas o Maracanã já não é o mesmo — e o drible que fazia tudo parar vai deixando de existir.