Quedas de luz frequentes em bairros da Zona Norte causam prejuízos a moradores e comerciantes

Moradores e comerciantes de regiões da Tijuca, do Rio Comprido e do Cachambi, na Zona Norte do Rio, afirmam que desde meados de dezembro estão sofrendo com quedas de energia frequentes, com períodos em que chegam a ultrapassar 10 horas sem luz. Por conta disso, lojistas relatam prejuízos nas vendas e quem vive nos bairros conta que está passando diversas dificuldades na rotina às escuras. A Light, concessionária que atua no fornecimento de eletricidade para o município do Rio, informou que reparos já estão sendo feitos nos locais e garante que os apagões foram resolvidos com a instalação de geradores. — Estou levantando ainda (o valor total de prejuízo), mas, por alto, eu perdi quase R$ 90 mil com venda e material, contando com os equipamentos também. Já queimei o ar-condicionado e a câmara fria. À noite, a gente não está aqui para desligar, ficou uma fase (de luz) só e os equipamentos trifásicos queimam todos. No sábado, ficou o dia inteiro sem luz e eu não consegui trabalhar. Tive que jogar bastante mercadoria fora porque eu trabalho com peixe — contou Paulo Ferreira, gerente do Peixeiro, peixaria e restaurante na Rua Mariz e Barros, na Tijuca. De acordo com o comerciante de 50 anos, desde 19 de dezembro a rua sofre com quedas de energia constantes, com intervalos de um a dois dias entre uma e outra. A conta de luz do Peixeiro beira os R$ 23 mil: — Eu tenho 50 funcionários e o pessoal, no calor, não consegue ficar dentro da loja. A clientela não vem. No domingo, a casa estava cheia na hora do almoço, mas faltou luz e o pessoal foi tudo embora. Eu já perdi mais de 100kg de mercadoria. Na segunda, montamos o bufê todo, deu meio-dia, faltou luz. Conta de luz do restaurante de Paulo Ferreira ultrapassa R$ 23 mil Guito Moreto Na tentativa de evitar mais prejuízos, Ferreira contratou geradores por duas vezes, com o valor total dos aluguéis ultrapassando os R$ 10 mil: — No domingo, contratei 12 horas de gerador por R$ 6,5 mil e, na segunda, com as câmaras frias desligadas, contratei outro por R$ 4 mil, porque a mercadoria é congelada. Funcionários da Light trabalham em reparos na Rua Mariz e Barros, na Tijuca Guito Moreto / Agência O Globo Prédios residenciais da Rua Mariz e Barros também sofrem com a queda de energia. Na calçada em frente à peixaria, há um prédio de seis andares, em que o advogado Marcelo Fittipaldi mora há 11 anos. Assim como Paulo, ele afirma que desde meados de dezembro a rua sofre com faltas de luz sucessivas, que ocorrem fases. O tijucano relata que, e alguns momentos, a ausência de eletricidade dura minutos, mas, em outros, já chegou a ultrapassar sete horas. — Por exemplo, o lado de cá (oposto ao apartamento dele) está sem luz e o meu apartamento está com luz. Aí tem dias que inverte, tem dias que só o elevador está sem energia, varia muito. A minha mãe é cadeirante e "fica de castigo", a gente não consegue descer com ela sem elevador. E, quando volta o elevador, a gente fica com medo de botá-la lá dentro — contou o advogado. Rio Comprido, Cachambi e Pilares Cabeleireiro de um salão localizado na Rua Menezes Vieira, no Cachambi, Carlos Alexandre já perdeu as contas de quantas vezes precisou dispensar clientes por conta da falta de energia: — Dependendo do horário em que a luz falte e do horário em que a luz chegue, a gente não consegue fazer nada e nem atender, tem que fechar o salão. Não funciona a internet, não tem como marcar cliente. E o secador, a prancha, essas coisas não podem ser usadas. Ou seja, é prejuízo. O profissional da beleza, de 44 anos, afirma que as quedas de luz ocorrem desde dezembro e que algumas luzes do salão foram queimadas com a constante queda e retomada de energia. Segundo ele, já foram mais de 6h sem luz no estabelecimento. Salão de beleza teve algumas luzes do teto queimadas pela frequente queda de energia no Cachambi Guito Moreto Para piorar a sua situação, o cabeleireiro enfrenta falta de luzem dose dupla, no trabalho e em casa. Carlos mora na Rua Aristides Lobo, no Rio Comprido, local próximo à região da Tijuca sem luz. Ele vende marmitas fitness como renda complementar e, com a falta de eletricidade constante em casa, estima um prejuízo total entre R$ 900 e mil reais, contando com carnes, legumes e mantimentos jogados fora. Élvimar Fernandes, esteticista de 68 anos do mesmo salão, também vê de perto a falta de energia para além do local de ofício: sua filha, moradora da Rua Gandavo, em Pilares, buscou um hotel para dormir com o marido e os filhos na última terça-feira por conta do forte calor durante a noite. Moradores de um prédio na região, eles passaram a madrugada inteira sem luz. — Faltou (luz na casa da filha) às 21h e só voltou às 5 da manhã. Ela teve que dormir num hotel com as crianças, em Bonsucesso — contou Élvimar. Light fala em sobrecarga Em nota, a Light informou que "as interrupções registradas na Rua Mariz e Barros, na Tijuca, foram causadas pela sobrecarga provocada por um aumento irregular de carga de energia por parte de um restaurante, sem autorização da concessionária. Essa situação impactou a rede elétrica que atende a região". Ainda segundo a companhia, foram identificadas irregularidade e já foram iniciadas as medidas necessárias para a regularização da carga, garantindo a estabilidade do fornecimento e evitando novas ocorrências na região da Tijuca. Em entrevista ao GLOBO, o vice-presidente de operações da Light, Vinicius Roriz, afirma que em 2023 a empresa identificou a obsolescência dos cabos de alta tensão instalados na subestação do Cachambi, que atende os oito bairros da região — Méier, Cachambi, Todos os Santos, Maria da Graça, Del Castilho, Engenho de Dentro, Jacarezinho e Benfica. O problema, diz ele, tem semelhanças com o que provocou uma crise energética na Ilha do Governador no ano passado. — São cabos muito antigos, que já deveriam ter sido substituídos há muito tempo. Fizemos um mapeamento de tudo que era crítico na área de concessão e iniciamos a obra — afirma Roriz. Enquanto a modernização está em curso, diz ele, foi estabelecido um plano de contingência para suprir o abastecimento local em caso de falha dos cabos atualmente instalados. Foi o que precisou ser acionado entre a noite da última segunda-feira e a madrugada de terça-feira. Desde então — e até o fim das obras no Cachambi, em maio — geradores dão suporte à operação da subestação. — De fato, ainda tem risco de ter desligamento, e a gente entra com a contingência. O que queremos é que essa entrada da contingência ocorra de forma rápida para gerar menos transtorno possível à população — admite Roriz. — Vai ser um transtorno temporário, mas para um benefício permanente — completa.