O Banco Central decretou, nesta quinta-feira (15), a liquidação extrajudicial da gestora Reag. A instituição foi alvo de uma operação da Polícia Federal na última quarta (14) e é considerada peça central para entender a suposta fraude envolvendo o Banco Master, mas também já havia sido implicada em investigações que apuram as relações da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis, em 2025. Antes de aparecer no noticiário pelas suspeitas de envolvimento em atividades ilícitas, a gestora ficou conhecida por uma ascensão meteórica e mais acelerada do que o comum na Faria Lima, e dava nome a um dos mais icônicos cinemas de rua de São Paulo, o Belas Artes, na região da Avenida Paulista. O contrato de naming rights com o cinema foi encerrado em dezembro, de forma antecipada (o acordo era de cinco anos) após as investigações criminais contra a Reag. A Reag foi fundada em 2012 por João Carlos Mansur, e em poucos anos ela virou uma das maiores gestoras independentes de recursos. O crescimento acelerado da empresa, diferentemente de suas concorrentes, sempre chamou a atenção dos seus pares. O negócio cresceu sobretudo com a aquisição de mandatos de fundos exclusivos, que famílias ricas usam para administrar seu dinheiro. Esses fundos só tem um cotista. Ela também comprou diversas gestoras. Até julho do ano passado, a Reag era a maior gestora independente do país, com R$ 341,5 bilhões sob gestão, segundo ranking mensal da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). São recursos de pessoas físicas e jurídicas, fundos de pensão e investidores institucionais que aplicaram em mais de 500 fundos de investimento oferecidos em sua plataforma. A gestora também ficou conhecida no mundo do futebol. A Reeve, companhia que como sócio João Carlos Mansur, fundador da Reag, é uma das principais administradoras da SAF da Portuguesa. O projeto prometeu R$ 1 bilhão de investimentos no clube ao longo de 20 anos, que incluem a reforma do Estádio do Canindé, a reestruturação da dívida e reposicionamento da Lusa no futebol brasileiro. A ligação com o esporte não parou por aí, porque Mansur também participou da negociação da SAF do Juventus da Mooca, clube tradicional da capital paulista. O acordo, também liderado pela Reag, envolvia R$ 480 milhões em aportes e previa a modernização do Estádio Conde Rodolfo Crespi, no bairro da Mooca. O empresário também participou do conselho do Palmeiras e foi gestor de finanças do estádio do Corinthians. Operação Carbono Oculto Mas em agosto de 2025, a Reag foi alvo da Operação Carbono Oculto, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP), Polícia Federal e Receita Federal. Segundo as investigações, 11 fundos ligados à gestora teriam sido usados para adquirir e ocultar bens como imóveis, veículos e até usinas de álcool, dentro de um esquema bilionário de lavagem de dinheiro do PCC. Segundo o MP-SP, entre 2020 e 2024, as empresas formuladoras de combustível ligadas ao PCC importaram R$ 10 bilhões em nafta, hidrocarbonetos e diesel. Formuladoras de combustível são empresas autorizadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) a misturar hidrocarbonetos e outros componentes para produzir gasolina e óleo diesel. Os valores que os postos recebiam em dinheiro ou cartão eram destinados ao PCC, totalizando R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, que chegavam ao sistema financeiro por meio de fintechs. As fintechs recebia tanto os valores das máquinas de pagamento em cartão como dinheiro em espécie, que somaram, somente entre 2022 e 2023, mais de R$ 61 milhões, em 10 mil depósitos. Posteriormente, esse dinheiro que já estava em contas bancárias era reinvestido em negócios e propriedades por meio de fundos de investimentos. Segundo a Receita, ao menos 40 fundos de investimentos, de multimercado e imobiliários, eram controlados pelo PCC. O patrimônio gerido pela organização chega a R$ 30 bilhões. Ao menos 11 desses fundos eram geridos pela Reag. Os fundos chegaram a comprar um terminal portuário, quatro usinas produtoras de álcool – e planejavam adquirir mais duas —, além de 1.600 caminhões para transporte de combustíveis e mais de 100 imóveis. Mansur foi um dos alvos da operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal nesta quarta-feira (14), que investiga um suposto esquema de fraudes do Banco Master. Parte das suspeitas envolvendo o Master foi identificada pelo BC e encaminhada para investigadores. Um dos fatos que chamou atenção foi uma sequência de transações relâmpagos feitas por uma rede de fundos de investimento administrados pela gestora de recursos Reag DTVM a partir de um empréstimo de R$ 459 milhões da instituição financeira de Daniel Vorcaro. Uma das operações consideradas suspeitas teve rentabilidade de 10.502.205,65% em 2024. Formado em ciências contábeis, Mansur possui MBA em gestão financeira e administração de empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Em seu perfil profissional no LinkedIn, Mansur afirma ter mais de 35 anos de experiência nas áreas de auditoria, controladoria, gestão financeira, desenvolvimento de negócio e análise de investimentos e gestão empresarial.