Morte de filho de Chimamanda Adichie chama atenção para sistema de saúde da Nigéria; família acusa hospital de negligência

A recente morte do filho de um ano e nove meses da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, por uma suposta negligência, colocou em xeque o sistema de saúde do país mais populoso do continente africano. Nkanu Nnamdi, um de seus gêmeos, faleceu em 7 de janeiro após "uma breve doença" no Euracare Multispecialist Hospital, em Lagos. Caso em investigação: Família de Chimamanda Ngozi Adichie acusa hospital de negligência por morte de filho de 1 ano e 9 meses 'Sobre heróis e tumbas': Clássico de Ernesto Sabato revela obsessão do autor por retratar a si mesmo de forma transparente e consciente Ele havia sido levado ao local para exames diagnósticos, incluindo uma ressonância magnética, com a previsão de viajar posteriormente aos Estados Unidos para receber cuidados especializados, informou a família. Segundo um parente, Adichie e seu marido, o médico Ivara Esege, tentaram ter filhos durante oito anos. A família da escritora nigeriana e ícone do feminismo acusou o hospital de "negligência médica grave". A cunhada de Adichie, a médica e professora Anthea Esege Nwandu, disse que foi informada que a criança recebeu uma superdose de propofol para ser sedada e submetida a exames de ressonância magnética. Ela acusa o anestesista de ter sido "criminalmente negligente" e de não ter seguido o protocolo médico adequado. Ateu e anticlerical: Javier Cercas lança livro sobre Papa Francisco e explica por que escrever série policial talvez o tenha livrado da cadeia O bebê sofreu uma parada cardíaca quando o anestesista o levava no ombro, desconectado do ventilador, explicou a cunhada da escritora à emissora de televisão local TVC. Acrescentou, ainda, que o diretor médico do hospital lhe disse que "parece ter sido uma overdose de propofol". "Isto é um chamado de atenção (...) para que nós, a opinião pública (...) exijamos responsabilidade, transparência e consequências pela negligência em nosso sistema de saúde", insistiu Nwandu. O que ler em 2026: Confira os lançamentos mais aguardados do ano Notificação judicial Adichie mora nos Estados Unidos, mas estava na Nigéria para as festas de fim de ano. Em uma mensagem de texto à AFP, a porta-voz da família, Omawumi Ogbe, afirma que foi "emitida uma notificação judicial" ao hospital, sem fornecer mais detalhes. O governo do estado de Lagos também ordenou uma investigação sobre o ocorrido. A Euracare não respondeu às perguntas da AFP. Chimamanda tem 48 anos e é uma das mais festejadas ficcionistas da atualidade, cujo sucesso global ajudou a colocar o feminismo na ordem do dia do mercado editorial. É autora de romances como “Meio sol amarelo”, “Americanah” e “A contagem dos sonhos”, lançado no ano passado, além do ensaio “Sejamos todos feministas”. Curiosidade: Isabel Allende mantém tradição de começar a escrever um novo livro em 8 de janeiro; entenda Em entrevista à revista ELA, editada pelo GLOBO, no ano passado, ela afirmou que ser mãe mudou sua visão de mundo. “A maternidade me mostrou um amor que eu não conhecia. Me lembro de olhar para minha filha e me dar conta de que eu era responsável por esse ser humano e não havia nada que eu não faria por ela. Nunca fui ansiosa, mas descobri que a ansiedade está no centro do amor materno, você duvida de si mesma, da sua capacidade de proteger a criança”, disse ela à filósofa Djamila Ribeiro, que conduziu a entrevista. “Ser mãe também me fez ter mais empatia com outras mulheres, julgá-las menos e entender como são complexas as escolhas de uma mãe. Não é saudável uma mulher ficar num relacionamento ruim por causa dos filhos, mas agora entendo como o amor por um filho pode te levar a tomar decisões que não são necessariamente as melhores para você”, completou a escritora, que também é mãe de uma menina nascida em 2016. Desafios da saúde no país O padrão de atendimento médico na Nigéria é alvo de críticas. No mês passado, o sistema de saúde voltou às manchetes do país quando o ex-campeão mundial de boxe dos pesos-pesados Anthony Joshua, um britânico de ascendência nigeriana, saiu de um carro com dores, auxiliado por pedestres e sem ambulância. Nesta semana, o estado de Kano (norte) anunciou ter ordenado uma investigação sobre a morte de uma mulher quatro meses depois que médicos deixarem uma tesoura em seu estômago após uma cirurgia. Apesar das queixas reiteradas de dores abdominais durante várias visitas ao hospital, os médicos apenas lhe administraram analgésicos. A tesoura só foi vista dois dias antes de seu falecimento. Casos de negligência e mau atendimento são recorrentes no país, afetado por um êxodo de médicos e enfermeiros qualificados que deixam a Nigéria em busca de melhores salários. Entre 15 mil e 16 mil médicos nigerianos emigraram entre 2020 e 2024, segundo o ministro da Saúde, Muhammad Ali Pate. A Nigéria tem apenas 55 mil médicos para uma população de 220 milhões de pessoas, informou este ministério em 2024.