Os países do Golfo e aliados dissuadiram o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de atacar o Irã em retaliação à repressão dos protestos, e alertaram-no sobre as “graves repercussões” que isso teria para a região, informou na quinta-feira um alto funcionário saudita. Os esforços diplomáticos da Arábia Saudita, Turquia, Catar, Omã e Egito, segundo pessoas próximas aos governos ouvidas pelo Financial Times, instaram o republicano a agir de forma moderada, sob o alerta de que uma ofensiva militar contra o regime iraniano poderia afetar os países vizinhos — inclusive com aumento dos preços globais do petróleo e do gás. Recuo: Trump diz que execuções no Irã serão interrompidas, sinalizando que ação dos EUA contra República Islâmica está em suspenso Contexto: Trump avalia ação militar, cibernética ou econômica ao Irã em meio a protestos que já deixaram ao menos 200 mortos Segundo uma fonte do governo da Arábia Saudita, em condição de anonimato à agência AFP, os três países do Golfo realizaram “um esforço diplomático de última hora, longo e intenso, para convencer o presidente Trump a dar uma chance ao Irã de mostrar boas intenções”, disse ele, falando sob condição de anonimato. Initial plugin text Canais de interlocução entre Washington e Teerã abriram espaço para que autoridades iranianas transmitissem à Casa Branca garantias de que manifestantes não seriam executados e de que o total de mortos estaria abaixo dos números difundidos no exterior. Desde então, aumenta o otimismo de que esse diálogo — possivelmente facilitado por países como Rússia ou Omã — possa ganhar tração e desembocar em uma nova rodada de negociações nos próximos dias. A Turquia disse se opor “a qualquer operação militar no Irã” e o Catar anunciou na quarta-feira a saída de parte do pessoal da base americana de Al-Udeid, a mais importante do Oriente Médio, devido ao que classificou como “tensões regionais”. No mesmo sentido, a China comunicou na quinta-feira ao Irã ser contra ao “uso da força nas relações internacionais”. A República Islâmica está abalada por manifestações que começaram em 28 de dezembro devido ao aumento do custo de vida e se transformaram em um movimento contra o regime teocrático no poder desde a revolução de 1979. Desde o início dos protestos, o presidente americano tem multiplicado as ameaças de intervenção armada, o que levava muitos a crerem que ele poderia tentar aplicar ao líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, algo semelhante com a operação dos EUA que capturou e depôs o venezuelano Nicolás Maduro. No entanto, na quarta-feira, Trump afirmou que lhe foi dito "por uma fonte confiável" que "as mortes no Irã estão cessando, pararam". "E não há planos para executar" os detidos, acrescentou o magnata, que havia dito que tal repressão poderia provocar uma reação enérgica de sua parte. E disse ainda que ficaria "muito chateado" se a informação se provasse falsa e a repressão violenta continuasse. Perguntado se a ação militar estava descartada, Trump garantiu que iria "observar" e "ver qual seria o processo". — Mas recebemos uma declaração muito, muito boa de pessoas que estão cientes do que está acontecendo — enfatizou Trump. Initial plugin text Agora, a vida "voltou ao normal" em Teerã, segundo um jornalista da AFP na capital iraniana. Há vários dias que não se registam grandes manifestações no país. “A situação se acalmou por enquanto”, disse um funcionário árabe ao Financial Times. “Os EUA estão dando tempo para que as negociações com o Irã aconteçam e para ver como elas se desenrolam a partir daqui.” Organizações de direitos humanos acusam o Irã de realizar uma repressão brutal que teria deixado milhares de mortos, em um país privado de acesso à internet há uma semana. De acordo com o último balanço da ONG Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, pelo menos 3.428 manifestantes morreram desde o início do movimento. As autoridades iranianas não divulgaram nenhum balanço oficial. Vídeos mostram manifestações no Irã apesar de bloqueio da internet A retórica se acirrou nos últimos dias após Trump insinuar, na terça-feira, uma possível iniciativa dos Estados Unidos contra o regime iraniano. Em uma postagem nas redes sociais, escreveu que “a ajuda está a caminho”, no momento em que manifestantes no Irã eram alvo de uma repressão severa por parte das autoridades. Alguns militares americanos e britânicos destacados na maior base dos Estados Unidos no Oriente Médio receberam ordens para deixar o local até a noite de quarta-feira, em meio a crescente tensão. Em resposta, a República Islâmica disse que, se os EUA atacarem, teria instalações americanas no Oriente Médio como "alvos legítimos". A decisão de retirada da base em al-Udeid, no Catar, indica, portanto, uma medida de "precaução" da Casa Branca frente a escalada de retórica entre os dois países, que já travaram uma guerra de 12 dias em junho do ano passado. A informação foi confirmada pelo Escritório Internacional de Mídia do Catar. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abás Araqchi, advertiu, por sua vez, que seu país se defenderá “contra qualquer ameaça estrangeira”, em uma conversa telefônica com seu homólogo saudita, o príncipe Faisal bin Farhan, e pediu “uma condenação internacional de qualquer interferência estrangeira”. Para o chanceler, “reina a calma” no país e as autoridades têm “controle total” da situação. Embora Washington ainda esteja avaliando o impacto e a viabilidade de eventuais ofensivas, o uso da força segue sobre a mesa, segundo uma fonte pelo Financial Times. De acordo com essa pessoa, Trump estaria disposto a agir militarmente e a sustentar que qualquer sinal de distensão por parte de Teerã não passa de uma manobra tática. Ainda assim, o presidente buscaria um desfecho rápido e inequívoco — nos moldes do que, em sua avaliação, teria sido sua intervenção na Venezuela. (Com AFP)