Peritos da Polícia Federal (PF) afirmaram ver com "preocupação" a decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), de encaminhar as provas da última fase da Operação Compliance Zero à Procuradoria Geral da República (PGR). Segundo eles, há "riscos operacionais e técnicos" que podem levar à perda de "vestígios relevantes" para a investigação. "A postergação do envio ou a realização dos exames fora das unidades oficiais de criminalística, sobretudo em relação a dispositivos eletrônicos, pode levar a perda de vestígios relevantes para a persecução penal, ou mesmo à perda de oportunidades técnicas, por vezes irrepetíveis, como a análise de aparelhos ainda ativos ou recentemente desbloqueados", diz uma nota divulgada pela Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF) nesta quinta-feira. Internamente, os peritos também afirmam que a decisão pode levar a questionamentos futuros sobre a validade das provas, uma vez que a sua cadeia de custódia ficaria sob responsabilidade do órgão responsável pela acusação, o Ministério Público Federal. No processo penal, a perícia é vista como uma parte mais neutra encarregada da análise técnico científica das evidências. Eles citaram como exemplo os sistemas Drousys e MyWebDay, que foram periciados inicialmente por equipes técnicas do Ministério Público, e depois foram questionadas pela defesa dos réus. Segundo as investigações, os sistemas eram usados pela Odebrecht para organizar a distribuição de propinas. O procedimento padrão é que a Polícia Federal seja a encarregada de custodiar as provas e fazer a primeira extração dos dados de dispositivos eletrônicos, como celulares e notebooks - de onde costuma vir a maioria das provas. Dias Toffoli, no entanto, inovou ao determinar que a PGR fique responsável por guardar as evidências, mesmo sem um pedido formal do procurador-geral da República, Paulo Gonet. Em balanço divulgado ontem à noite, a Polícia Federal informou que foram apreendidos 39 celulares, 31 computadores e 30 armas durante o cumprimento de mandados. A PF também recolheu R$ 645 mil em dinheiro em espécie e 23 veículos, avaliados em cerca de R$ 16 milhões. Deflagrada nesta quarta-feira, a aperação Compliance Zero tinha como objetivo aprofundar apurações sobre supostas fraudes financeiras atribuídas ao Banco Master. Antes, Dias Toffoli havia determinado que todo o material apreendido na operação fosse "lacrado" e "acautelado" nas dependências do Supremo - o que gerou mais reação por parte da PF. Segundo pessoas com acesso às investigações do caso, isso poderia fazer com que houvesse perda de informações, danos aos equipamentos ou problemas decorrentes de bloqueios, senhas ou degradação dos dados digitais.