Capa do álbum 'Criolo, Amaro & Dino', de Criolo, Amaro Freitas e Dino D'Santiago Vik Muniz ♫ CRÍTICA DE ÁLBUM Título: Criolo, Amaro & Dino Artistas: Amaro Freitas, Criolo e Dino D’Santiago Cotação: ★ ★ ★ ★ ★ ♬ “Ah, na pele e na voz / Os sonhos da alma dançam”, poetizam Amaro Freitas, Criolo e Dino D’Santiago nos versos de “No vento de nós”, música que assinam em parceria com Djodje Almeida, compositor e violonista de Cabo Verde. “No vento de nós” sopra carga tão grande de espiritualidade que a faixa se eleva na intercontinental travessia pelo trio por um Atlântico negro costurado pelos artistas no álbum “Criolo, Amaro & Dino”. Lançado hoje, 15 de janeiro, com 11 temas de autoria do trio e citação de “Passaredo” (Francis Hime e Chico Buarque, 1977) em interlúdio que antecede faixa de discurso ambientalista, o álbum colaborativo dos artistas já sobressai na produção fonográfica de 2026 por essa força espiritual potencializada pela musicalidade sofisticada que brota do encontro entre o pianista pernambucano, o rapper paulistano e o cantor português de ascendência cabo-verdiana. O batuque de Cabo Verde que embasa “Seka” banha a faixa com a africanidade também embutida no toque frenético do piano tocado por Amaro nesse tema que revolve a aridez do solo africano entre ecos ancestrais de vozes de mulheres africanas. O produtor musical Lucas Seiji também colaborou para dar forma a “Seka”, outro ponto alto do repertório inédito, na maior parte composto pelo trio quando entraram em estúdio para dar forma ao álbum originado do single coletivo “Esperança” (2024). O álbum “Criolo, Amaro & Dino” transita em ponte que, partindo de Portugal, liga Cabo Verde a São Paulo e a Pernambuco, terra natal de “Menina do coco de Carité”, faixa introduzida pelo toque percussivo do piano de Amaro e cerzida pelo canto do trio Clarianas e do toque da rabeca de Maciel Salú, mestre do maracatu. Embora gravado entre Lisboa (Portugal), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP), o álbum “Criolo, Amaro & Dino” desconhece fronteiras ao conectar latitudes pela linguagem universal da música. Unidos pela herança da diáspora africana que moveu antepassados para várias partes do mundo, os artistas se irmanam e se reconhecem entre o canto em inglês de “Mama Afrika”, o suingue pop de “Anoitecer” (música composta e produzida somente por Amaro e Criolo), a resistência que move a morna “Fogo lento” e as críticas sociais do rap inserido por Criolo em temas como “E se livros fossem líquidos (Poeta fora da lei Pt II)” e “Amazônia (A-i'ahu)”, faixa onde impera o discurso demolidor feito pelo rapper com o reaproveitamento de versos da música “Chuva ácida” (Criolo, 2006), aquecidos pela consciência de que o planeta Terra arde em chamas. As referências são muitas e as fronteiras musicais caem por terra diante do encontro do trio. Até porque o álbum atravessa continentes no toque livre do jazz do piano de Amaro Freitas, instrumentista já reconhecido fora do Brasil como gênio do instrumento. Faixa produzida por Criolo com Holly, “Hoje eu vi você” encerra álbum pulsante e resiliente que se assenta sobre território universal, conectado pela música e pela força ancestral e espiritual da negritude. Amaro Freitas (à esquerda), Criolo (ao centro) e Dino D’Santiago lançam álbum em que conectam Cabo Verde a Pernambuco e a São Paulo Helder Fruteira / Divulgação