Investigação aponta Tanure como ‘sócio oculto’ do Banco Master: entenda a parceria

A Polícia Federal e o Ministério Público Federal de São Paulo avançam nas investigações sobre a teia de fundos que conectam o empresário Nelson Tanure ao Banco Master, de Daniel Vorcaro. Os dois foram alvos de mandados de busca e apreensão, nesta quarta-feira, no âmbito da segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura a suspeita de fraudes financeiras atribuídas ao Master. Representação da Polícia Federal aponta Tanure “como sócio oculto do Banco Master, exercendo influência por meio de fundos e estruturas societárias complexas”. O trecho é citado na decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a operação na qual Tanure foi um dos alvos, além de representantes do Master e da Reag (gestora de recursos liquidada pelo Banco Central nesta quinta). Em nota, a defesa de Tanure afirmou que ele não teve "qualquer relação de natureza societária com o Banco Master, do qual foi cliente nos últimos anos". "O empresário, que tem décadas de experiência profissional no mercado de valores mobiliários, jamais enfrentou qualquer processo criminal em razão de suposta prática delitiva no contexto das empresas em que é ou foi acionista", diz a nota assinada pelo advogado Pablo Testoni, que completa: "O empresário tem certeza de que no decorrer das apurações promovidas pelo STF restará definitivamente demonstrada a inexistência de qualquer pretensa prática ilícita oriunda dessa relação". Procurada, a assessoria de Vorcaro não quis se pronunciar. Além disso, um relatório técnico da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) apontou uma atuação "coordenada" e "interdependente" entre Nelson Tanure e o Banco Master em uma iniciativa para supostamente inflar o preço das ações da companhia de serviços ambientais Ambipar, que está em recuperação judicial. O relatório concluiu que "houve uma sequência de operações e aportes que demonstraram clara convergência de interesses e estratégias entre esses agentes, com resultados que impactaram significativamente a estrutura acionária e a cotação da companhia (Ambipar) no mercado". Os investigadores citam o caso do fundo Phoenix FIP, que tinha como gestor e administrador a Trustee DTVM, que pertencia ao grupo do Master e tinha como beneficiário final o próprio Tanure. Em março de 2024, o fundo recebeu um aporte de R$ 400 milhões e, um mês depois, venceu o leilão de privatização da Empresa Metropolitana de Águas e Energia de São Paulo (Emae), sucessora da Eletropaulo, vendida pelo governo Tarcísio de Freitas (Rep). Em maio de 2024, o fundo ganhou um novo investimento, desta vez de R$ 1,25 bilhão, na mesma épica em que houve um programa de recompra de ações da Ambipar. Paralelamente, o fundador da Ambipar e os fundos geridos pela Trustee compraram de "forma agressiva" as ações da empresa, cujos papeis saltaram de R$ R$ 13 para R$ 97,35 em curto período de pouco mais de um mês. "As aquisições se mostraram ainda mais suspeitas quando se observou que os fundos envolvidos tinham cotistas e beneficiários finais ligados ao BANCO MASTER e a NELSON TANURE, revelando uma estrutura circular e interligada", diz o relatório da CVM, que foi encaminhado ao Ministério Público Federal de São Paulo. As ações supervalorizadas da Ambipar foram utilizadas por Tanure como garantia para arrematar o leilão da estatal paulista. O MPF afirmou que as compras "agressivas" dos fundos ligados a Nelson Tanure e à Trustee, controlados pelo Master, ocorreram de forma simultânea ao programa de recompra de 20,8 milhões de ações da Ambipar. Segundo a procuradoria, "essa "sobreposição de operações" contribuiu para o "aumento artificial do preço das ações, que valorizaram mais de 700%. Em setembro de 2024, as cotas do fundo ESNA FIP, que detinha exclusivamente ações da Ambipar, foram transferidas do Banco Master para um veículo de Investimento de Tanure, o Ilha de Patmos Fim, a um preço cerca de 40% inferior ao valor de mercado. Essa operação rendeu ao Master uma melhora de seu patrimônio líquido e balanço patrimonial e um retorno financeiro de R$ 296 milhões. "Esses ganhos revelaram que o banco teve papel ativo e beneficiário direto da manipulação, aproveitando a elevação dos preços para reforçar sua posição contábil e financiar outras operações estratégicas. Mais uma vez, operações fraudulentas, para manipular mercado de capitais, foram realizadas para inflar artificialmente o patrimônio do BANCO MASTER", disse o MPF. Essa investigação subiu para o Supremo Tribunal Federal depois de uma decisão do ministro Dias Toffoli a partir da citação de um deputado com foro privilegiado citado no inquérito. Os procuradores afirmaram que as ações da Ambipar que chegaram a R$ 97,35 com "manipulação do mercado" depois caíram para R$ 0,70 - o gerou um "prejuízo real" aos investidores e evidenciou a "artificialidade do patrimônio líquido" do Master.