'Jogo político': temor de aliança PT e Bacellar leva Paes a buscar Lula no Planalto e jurar lealdade na eleição

Bom dia, boa tarde, boa noite, a depender da hora em que você abriu esse e-mail. Sou o editor de Política e Brasil do GLOBO e nessa newsletter você encontra análises, bastidores e conteúdos relevantes do noticiário político. Depois de passar o segundo semestre irritando a esquerda com acenos à direita e de ver nascer a ameaça de uma candidatura do PT ao governo do Rio, o prefeito Eduardo Paes (PSD) desembarcou em Brasília para um encontro a sós com o presidente Lula na última terça-feira. Em pauta, a necessidade de desarmar a percepção crescente no Palácio do Planalto de que será traído pelo aliado nos 92 municípios fluminenses durante a campanha. Na conversa fora da agenda depois de meses distantes, Paes avisou a Lula que deixará a prefeitura em 20 de março para disputar a eleição para o Palácio Guanabara. Também jurou lealdade ao petista e se comprometeu a apoiar a deputada Benedita da Silva ao Senado — um recuo nas pretensões do grupo político do prefeito, que imaginava ser possível uma chapa com o apoio do PT, sem ter ninguém do partido como candidato. Desde o segundo semestre do ano passado, o trio Gleisi Hoffmann (ministra das Relações Institucionais), Lindbergh Farias (líder do PT na Câmara) e André Ceciliano (secretário de Assuntos Parlamentares) vem insuflando o ambiente no Planalto contra os flertes escancarados de Paes com o bolsonarismo. Foram três os episódios considerados desleais: em setembro, o prefeito manifestou apoio ao pastor Silas Malafaia, aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro, após a PF torná-lo investigado. “Mexeu com Silas, mexeu comigo”, disse em um culto religioso. Dois meses depois, foi a vez de dizer, em evento na Baixada Fluminense, que caminharia nas eleições com o PL do deputado Altineu Cortes. A gota d’água do mal estar deu-se em dezembro, quando Eduardo Cavaliere, vice de Paes, chamou de ‘lero-lero’ a visão do PT e Lula para a área da segurança em entrevista ao GLOBO após a operação policial que matou 121 pessoas no Complexo do Alemão. Até então, os movimentos de Paes nunca haviam gerado consequências no PT — no máximo, críticas de pouca repercussão de figuras como o presidente da Embratur, Marcelo Freixo, e do ex-ministro José Dirceu. A viagem às pressas de Paes ao Planalto na terça-feira ganhou urgência após André Ceciliano ensaiar uma candidatura ao mandato-tampão que será aberto no Rio caso o governador Cláudio Castro (PL) renuncie em abril e seja candidato ao Senado. Pela lei, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio será obrigado a convocar uma eleição indireta na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) — disputa que poderia colocar Ceciliano, ex-presidente da Casa, na cadeira de governador interino a meses da eleição tornando-o comandante da máquina estadual durante a campanha ou até mesmo forte postulante ao cargo de maneira definitiva. O projeto de poder petista na Alerj à revelia de Paes ganhou força nos últimos dias porque o deputado Rodrigo Bacellar (União Brasil) — presidente afastado após operação da Polícia Federal — vem se articulando nos bastidores para beneficiar Ceciliano. Com o movimento, o parlamentar busca impedir dois rivais de controlar a Casa que deixou de comandar no ano passado. Bacellar não quer que Nicola Miccione, chefe da Casa Civil sem ambições políticas, vire governador como desejavam Cláudio Castro e Paes; e também refuta qualquer hipótese de ver na cadeira o deputado estadual Douglas Ruas (PL), filho do prefeito de São Gonçalo Capitão Nelson e afilhado político do deputado Altineu Cortes (PL). Ruas é hoje o nome preferido do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, para ser o seu palanque no Rio. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro acredita que Ruas será mais competitivo se estiver na cadeira de governador em outubro. O gesto de Paes na semana foi bem recebido no Planalto. Embora o prefeito tenha “calçado as sandálias da humildade”, avalia um petista relevante da direção nacional, está longe de conquistar uma crença inquestionável na sua fidelidade. Em conversas sobre a eleição, Lula ainda demonstra acreditar no recuo de Flávio Bolsonaro e que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), será o seu oponente em outubro. No PT, portanto, duas desconfianças seguem em aberto: com Tarcísio candidato, apoiado pelo presidente do PSD Gilberto Kassab, qual será a postura de Paes no Rio? E se o governador do Paraná Ratinho Jr. (PSD) se lançar ao Planalto, o prefeito vai se manter leal às promessas que fez a Lula na terça-feira. O PT do Rio já experimentou uma traição que serve de base para não ser enganado novamente. Em 2014, o então presidente da Alerj, Jorge Picciani, criou uma dissidência no MDB fluminense batizada de Aezão que unia a candidatura de Luiz Fernando Pezão (MDB) ao governo à de Aécio Neves (PSDB) à Presidência da República. Na ocasião, Pezão tinha a então presidente Dilma Rousseff como sua candidata oficial. Na semana passada, Paes recebeu Gilberto Kassab para um encontro no Rio. Todos esses cenários foram abordados. O prefeito perdeu duas eleições para governador do Rio (2006 e 2018), e a afinidade com o bolsonarismo no estado, especialmente na Baixada Fluminense e em São Gonçalo, o faz temer ficar vinculado demais a Lula e ao PT. Em 2022, Bolsonaro venceu o petista em 72 cidades, e Castro atropelou Marcelo Freixo no primeiro turno da eleição com mais de 4,9 milhões de votos. Recomendo “Brasil no espelho" Depois de 'Biografia do abismo', Felipe Nunes da Quaest entrega outro livro obrigatório para quem mexe com política e opinião pública. Nunes sacudiu o mercado brasileiro de pesquisas nesta década com duas pegadas: criatividade nas perguntas e capacidade analítica dos resultados. O jornalismo, que bebia basicamente da fonte de Datafolha e Ipec (antigo Ibope) desde os anos 90, passou a ter um mundo de dados novos fundamental para o entendimento do país, tão complexo em suas diversidades. "Brasil no Espelho" tem o mérito de trazer muitas informações diferentes sobre os brasileiros. Foram mais de 10 mil pessoas que abriram suas casas para responder aos questionários. E os resultados mais surpreendentes passam longe da política. Você sabia que 60% dos entrevistados consideram que os pais têm direito de usar a força física quando os filhos passam dos limites? Sabia que 57% das mulheres dizem que "homem que é homem não chora na frentes dos outros"? E que 53% delas também acham que "todo homem tem de saber dirigir"? Sabia que, entre 40% e 44% dos homens, a depender da cor, acham que é justificável cometer o crime de agredir uma mulher que trai? Sabia que 66% dos entrevistados considera que um homem pode ser gay, mas não precisa ser afeminado? "Para a maioria das pessoas não é agradável se olhar no espelho. E foi essa sensação de desconforto que ficou após a leitura de Brasil no Espelho", escreveu o colunista do Valor, Bruno Carazza, em texto do fim do ano passado que elogia o livro, mas que também aponta críticas ao trabalho: "Se há uma crítica a ser feita ao livro, ela se deve a um conflito entre as qualidades do autor em diversas áreas. Além de ter criado a Quaest, que tem se destacado entre os institutos de pesquisa por usar técnicas estatísticas inovadoras, Felipe Nunes é um professor reconhecido internacionalmente por suas pesquisas acadêmicas, um analista político com faro apurado na leitura dos cenários eleitorais e, além de tudo, um comunicador brilhante. Um pacote de tantas características positivas faz dele um profissional único no mercado. No entanto, o livro é o resultado de uma combinação desproporcional desses atributos. Em muitas passagens, em nome da clareza (méritos do Felipe comunicador) o autor faz generalizações que talvez não passariam no crivo do Felipe acadêmico. Em outros pontos, diferenças percentuais classificadas como significativas em um determinado aspecto são subestimadas em outras dimensões - incoerências praticadas pelo Felipe analista político que certamente incomodariam o Felipe estatístico da Quaest."