Na decisão em que autorizou a segunda fase da Operação Compliance Zero, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli mencionou por mais de uma vez que o suposto esquema em investigação se aproveitou sistematicamente de "vulnerabilidades do mercado de capitais e do sistema de regulação e fiscalização”. Ele menciona o uso de “fundos de investimento para circulação de ativos sem liquidez, artificialmente precificados, e reiteradas operações entre partes relacionadas — muitas delas sob controle direto ou indireto de indivíduos ligados por vínculos societários, familiares ou funcionais”. Embora seja comum no mercado a figura de fundos com um único ou poucos cotistas, a prática vastamente disseminada no âmbito da Reag e sua utilização como veículos de uma série de operações suspeitas, por alguns anos, alertam para problemas de brechas regulatórias e de capacidade limitada de fiscalização, ainda que isso não esteja explícito no despacho do ministro. Parte dos questionamentos que têm sido feitos ao Banco Central nos últimos meses é se ele não teria deixado o Master correr solto por muito tempo, com seu insustentável modelo de emissão de CDBs com taxas acima do mercado. É uma discussão válida. Mas a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que tem a função de fiscalização dos fundos de investimentos, também tem que ser chamada para a conversa, para discutir não só suas dificuldades operacionais, mas as regras que aplica. A autarquia, que deverá ser presidida por Otto Lobo (cuja indicação foi contra a vontade do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e está envolta em polêmica) não pode ser vista como um órgão fragilizado. Além disso, ainda que legislações não impeçam más intenções e ações, reforçar regras de conduta, conflito de interesse, contabilização de ativos e a própria relação entre fundos de investimentos parece ser necessário. Em especial diante de uma crescente sofisticação tecnológica dos mercados financeiros e de capitais e dos indícios de uso crescente desses instrumentos pelo crime organizado. Depois de ficar em uma posição muito estranha no caso Master, principalmente pelo constrangimento que gerou ao convocar uma acareação entre o diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino, e o dono do Master, Daniel Vorcaro, Toffoli parece ter encontrado um rumo mais coerente com o tamanho do problema ao viabilizar a segunda fase da operação Compliance Zero. E, ao citar as vulnerabilidades do mercado e da regulação, dá ao tema um peso ainda maior.