O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebe nesta sexta-feira, no Rio de Janeiro, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa. O encontro antecede a assinatura do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, prevista para ocorrer neste sábado, em Assunção, no Paraguai. Para o Palácio do Planalto, a reunião em território brasileiro tem peso político central. É ali que Lula pretende garantir a chamada “foto da vitória” de um entendimento negociado ao longo de mais de duas décadas. Na avaliação de auxiliares do presidente, a agenda no Rio sintetiza o esforço político que permitiu destravar um acordo discutido por mais de 20 anos e reforça o papel do Brasil como principal articulador entre o Mercosul e a União Europeia na reta final do processo. Ao assegurar a imagem ao lado dos principais líderes europeus antes da assinatura formal, Lula busca consolidar o crédito político da negociação sem se expor às tensões do encontro em Assunção. Ao receber os dois principais representantes da União Europeia no Brasil, o presidente se coloca no centro da etapa final do processo e, ao mesmo tempo, evita deslocar-se até a capital paraguaia, onde será representado pelo chanceler Mauro Vieira. O Paraguai havia solicitado que o evento fosse de alto nível, mas Lula, segundo interlocutores, deve aproveitar a reunião no Rio e não comparecer a Assunção. Até o momento, de acordo com pessoas a par das tratativas, não há uma lista fechada de presidentes do bloco sul-americano que confirmaram presença na cerimônia. Há, no entanto, expectativa de participação do presidente argentino Javier Milei, desafeto político de Lula. Segundo interlocutores do governo, a passagem de Ursula von der Leyen e António Costa pelo Brasil não foi um gesto protocolar improvisado nem uma decisão de última hora. A visita integra um roteiro previamente articulado entre os governos e resulta de uma costura política iniciada ainda no fim do ano passado, durante a cúpula de presidentes do Mercosul, realizada em Foz do Iguaçu (PR). Naquele momento, o ambiente na União Europeia era marcado por incertezas quanto à viabilidade de aprovação do acordo, especialmente em razão de resistências internas ligadas ao setor agrícola. O impasse começou a ser destravado após um telefonema de Lula à primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, país-chave nas negociações. Na conversa, Meloni afirmou precisar de tempo para resolver questões domésticas relacionadas ao orçamento agrícola europeu e aos interesses do setor no país. De acordo com o relato feito ao presidente brasileiro, Roma não teria condições de avançar antes do dia 20 de dezembro, o que empurrou a decisão para as primeiras semanas de janeiro — como acabou ocorrendo. Com a sinalização positiva europeia consolidada, abriu-se caminho para a etapa final do processo. Paralelamente, a diplomacia brasileira já havia alinhado com o Paraguai que, superada a fase europeia, o encaminhamento natural seria a realização de uma reunião ministerial para a assinatura do acordo. Isso porque, no caso da União Europeia, os signatários formais são os ministros, e não os chefes de Estado. Pelo lado europeu, a assinatura cabe ao comissário de Comércio, Maroš Šefčovič; no Mercosul, o ato é atribuição dos chanceleres. Posteriormente, o governo paraguaio decidiu elevar o encontro para o nível presidencial. Nesse intervalo, após a sinalização definitiva de Bruxelas na semana passada, Ursula von der Leyen e António Costa consultaram o governo brasileiro sobre a logística da viagem à América do Sul. A agenda previa deslocamento a Assunção, e surgiu a possibilidade de uma parada no Brasil. Como Lula já tinha compromissos no Rio de Janeiro, o Planalto se ofereceu para viabilizar o encontro na cidade. Segundo auxiliares do presidente, foi essa sequência de movimentos — a confirmação europeia, a decisão paraguaia de elevar o nível da reunião e a articulação para a passagem pelo Brasil — que estruturou a agenda desta semana. A consulta aos demais presidentes do Mercosul e as confirmações de presença em Assunção ocorreram posteriormente, dentro desse arranjo já estabelecido. Após o encontro no Rio, está prevista uma breve declaração à imprensa. Em seguida, os líderes europeus seguem para a capital paraguaia, onde os ministros do Mercosul e da União Europeia devem formalizar a assinatura do acordo. Lula chegou a trabalhar para concentrar o protagonismo da assinatura do acordo durante a cúpula de Foz do Iguaçu, quando o Brasil exercia papel central na articulação política do entendimento. A estratégia, no entanto, não se concretizou porque a aprovação final pelo Conselho Europeu ocorreu apenas dias depois, fora do calendário da reunião, o que acabou deslocando a etapa decisiva para o período em que a presidência do Mercosul passou ao Paraguai, responsável por sediar o ato formal de assinatura. A entrada em vigor do tratado ocorrerá em etapas. A parte estritamente comercial depende apenas da aprovação do Parlamento Europeu, por maioria simples. No Mercosul, a vigência ocorrerá à medida que os parlamentos nacionais ratificarem o texto. Já o pilar político do acordo, que abrange temas como democracia, multilateralismo e cooperação institucional, precisará ser submetido aos legislativos dos 27 países da União Europeia. Em linhas gerais, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia estabelece a criação de uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, com a redução gradual de tarifas sobre bens industriais, agrícolas e serviços, além de regras comuns em áreas como compras governamentais, propriedade intelectual, comércio sustentável e compromissos ambientais. Para o Brasil, o entendimento amplia o acesso de produtos agrícolas e industriais ao mercado europeu, ao mesmo tempo em que impõe exigências em temas sensíveis, como desmatamento e padrões ambientais. Segundo interlocutores do governo, Lula ainda pretende conversar nos próximos dias com o presidente francês Emmanuel Macron, já que a França segue como um dos principais focos de oposição ao acordo, sobretudo por pressões de seu setor agrícola.