O Banco Central (BC) decretou ontem a liquidação extrajudicial da Reag Trust, uma das maiores gestoras independentes de recursos do país. A decisão foi anunciada um dia depois de a Polícia Federal deflagrar a segunda fase da Operação Compliance Zero, que teve João Carlos Mansur, fundador da Reag, entre os alvos de busca e apreensão. Caso Master: entenda a teia de fraudes com fundos de investimento exposta pela PF Liquidação da Reag: como ficam os investidores com recursos nos fundos de investimento da gestora? Esta etapa da investigação concentra as atenções nas relações entre o Banco Master e a gestora e reúne indícios de um amplo esquema de fraude financeira que se alimentava de uma complexa teia de fundos de investimento. A decisão do BC aponta violações relevantes a normas que regem o funcionamento das instituições do Sistema Financeiro Nacional (SFN). Ficam indisponíveis os bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição, para preservar recursos para eventual ressarcimento de credores. Tanure: ‘Não fui nem sou controlador do Master’, diz empresário que entrou no alvo da investigação da PF Na Faria Lima, a decisão do BC não causou surpresa. A situação da gestora era considerada insustentável. Terminou ontem, com uma queda dramática marcada por contornos policiais, a história da ascensão meteórica da Reag no coração financeiro de São Paulo, a partir da aquisição de fundos exclusivos (usados por grupos fechados para investimentos de alto valor). Como tudo começou? A empresa foi fundada em 2012 por João Carlos Mansur, empresário que foi alvo de busca e apreensão na quarta-feira na segunda fase da Operação Compliance Zero. Em pouco tempo já se destacava com a gestão de grande volume de dinheiro, com ligações com o futebol e até com o cinema. Em janeiro de 2025, a Reag estreou na Bolsa. No lugar de lançar ações no mercado, ela comprou uma empresa que já estava listada. Ela chegou a dar nome a um dos mais icônicos cinemas de rua de São Paulo, o Belas Artes, na região da Avenida Paulista. O contrato de naming rights com o cinema foi encerrado em dezembro, de forma antecipada (o acordo era de cinco anos) após as investigações policiais em torno da Reag. Quando o cenário começou a mudar? Não foi a primeira vez que a PF bateu à porta da Reag. Em agosto, foi deflagrada a Operação Carbono Oculto, que investiga os laços econômicos do Primeiro Comando da Capital (PCC) na economia, principalmente no setor de combustíveis. Investigações apontaram que 11 fundos ligados à gestora teriam sido usados para adquirir bens como imóveis, veículos e até usinas de álcool dentro de um esquema de lavagem de dinheiro. A empresa nega envolvimento. Veja como: Banco Master concedia empréstimos que não eram pagos e geravam receita apenas no papel, aponta investigação Em setembro, a Reag passa por uma reestruturação, que leva à saída de João Carlos Mansur do controle do grupo e do cargo de CEO em uma tentativa de recuperar a imagem Em outubro, a Reag decide fechar capital e sair da Bolsa, o que livra a empresa das regras de transparência e prestações de contas exigidas de empresas abertas Em novembro, é deflagrada a primeira fase da Operação Compliance Zero, que trata das fraudes no Banco Master. O dono do banco, Daniel Vorcaro, é preso e liberado 11 dias depois. A etapa inicial concentrou atenções na venda de carteiras de crédito falsas pelo Master ao BRB, banco público de Brasília. Caso Master: Entenda a teia de fraudes com fundos de investimento exposta pela PF Em dezembro, relatórios do Banco Central e do Ministério Público Federal apontam conexões financeiras entre o Master e os fundos ligados à Reag, com operações que inflaram artificialmente os resultados do banco Em 14 de janeiro, é deflagrada a segunda fase da Operação Compliance Zero, que mira os laços entre Master e fundos da Reag A investigação mostra que empresas pegavam empréstimos no Master e reaplicavam os recursos em fundos da Reag. O dinheiro era movimentado em operações sucessivas entre diversos fundos, sobrevalorizando artificialmente ativos e promovendo rentabilidade ao final muito superior ao verificado em qualquer parâmetro de mercado. 10 milhões por cento Em uma das transações investigadas, revelada pelo GLOBO, isso resultou em valorização de 10.502.205%, um percentual que não encontra respaldo em qualquer parâmetro de mercado. No fim, os recursos voltavam ao Master por meio da compra de CDBs. Um percentual de valorização dessa magnitude é não só indício de possível uso da estrutura para lavagem de dinheiro como violação da norma de contabilidade de “valor justo”. Isso por si só já seria suficiente para dar lugar a uma punição. A ideia do valor justo é que, se não há preço definido em Bolsa ou em transações frequentes no mercado, a técnica deve buscar chegar a um valor para os títulos que tenha alguma lógica de mercado. Segundo pessoas a par do caso Reag, a gestora foi alertada pelas autoridades de procedimentos irregulares ao menos desde 2023. E, salvo alguns ajustes, seguiu de forma recorrente incorrendo em irregularidades na gestão de ao menos parte dos 625 fundos sob administração. Procurada para comentar o assunto, a Reag não respondeu até o fechamento desta reportagem. A defesa de Daniel Vorcaro nega qualquer irregularidade e afirma que, até a data da liquidação extrajudicial, ele atuou de forma ativa para preservar a instituição e proteger credores e investidores, tendo realizado sucessivos aportes de capital para reforçar a posição financeira do banco. Initial plugin text