Luciana Malavasi fala sobre carreira, processos criativos e os próximos passos no cinema

Luciana Malavasi segue ampliando o alcance do audiovisual brasileiro no cenário internacional. Seu curta-metragem "O Novo Corpo" foi selecionado para o Sitges International Fantastic Film Festival 2025, integrando a mostra competitiva Noves Visions – Petit Format, dedicada a obras experimentais e ousadas do cinema fantástico. A participação ganha contornos ainda mais relevantes por ela ser a única diretora latina escolhida na competição de curtas-metragens, em um festival que soma 58 anos de história e é referência mundial no gênero. Kyra Gracie fala sobre maternidade, defesa pessoal e educação emocional: 'Mulheres autoconfiantes podem ser o que quiserem' Giovanna Antonelli vive policial em novo filme e fala sobre força de suas personagens: 'O público sente verdade' Distante de fórmulas ou estratégias calculadas, o filme nasceu de um processo intuitivo. "O Novo Corpo foi um filme que simplesmente aconteceu, sem muito cálculo, eu deixei a história me conduzir", conta a diretora ao GLOBO. Embora sempre tenha se interessado pelo cinema fantástico, ela explica que essa classificação não foi um ponto de partida consciente. "O filme virou o que ele precisava ser, e eu apenas segui o fluxo", diz. Hoje, Luciana define seu olhar como provocador, guiado pelo desejo de gerar inquietações duradouras: "Eu gosto de me sentir provocada como espectadora, e é isso que busco provocar também em quem assiste aos meus filmes: sensações, inquietações, perguntas." Ambientado em um futuro distópico inquietantemente próximo do presente, "O Novo Corpo" acompanha o encontro entre duas mulheres em uma fazenda isolada. Protagonizado por Ana Costa e Thaia Perez, o curta aposta em uma narrativa sem diálogos e em uma estética sensorial intensa para discutir temas como objetificação, consumo desenfreado, destruição ambiental e exploração animal, conectando essas violências à lógica de domínio sobre corpos e territórios. Para Malavasi, colocar o corpo feminino no centro da narrativa é um gesto inevitavelmente político. "Nossos corpos já são políticos por si só, porque vivemos em um mundo atravessado pelo machismo estrutural", afirma. "Quando coloco o corpo feminino no centro da narrativa, não é apenas como imagem, mas como território de conflito, de resistência e de expressão", destaca. A ausência de diálogos, segundo a roteirista, não foi uma decisão prévia, mas uma consequência natural do processo criativo. "À medida que o filme ia se construindo, os diálogos foram desaparecendo quase naturalmente", relata. "As imagens se tornaram tão potentes que comecei a sentir que as palavras mais atrapalhavam do que ajudavam a experiência sensorial", acrescenta. Luciana Malavasi consolida carreira no cinema e mira novos projetos autorais Divulgação Ela ressalta, no entanto, que cada obra pede uma linguagem própria. No longa "O Que Sobrou do Céu", filmado em agosto de 2025, os diálogos cumprem papel central: "O cinema, para mim, é justamente esse espaço de escuta: entender o que cada filme pede e respeitar sua própria forma de existir." A seleção em Sitges também provocou reflexões sobre a presença latino-americana e feminina no cinema de gênero. "Ao mesmo tempo em que isso soa incrível, também me fez refletir sobre o quanto ainda é difícil para nós, latino-americanos, estarmos presentes em festivais como esse especialmente sendo uma mulher ocupando esse posto de diretora", avalia. Apesar do reconhecimento internacional, Luciana aponta contradições do mercado nacional. "'O Novo Corpo' teve uma estreia mundial incrível em um festival consagrado, como Sitges, e até hoje ainda não tem data de estreia no Brasil", observa. "Isso revela o quanto ainda precisamos ampliar o olhar do mercado brasileiro para o cinema de gênero feito por mulheres", comenta. Luciana Malavasi consolida carreira no cinema e mira novos projetos autorais Divulgação Com uma trajetória que atravessa o jornalismo, o teatro e o cinema, Luciana atua como diretora, roteirista e produtora, funções que se misturam em seu processo criativo. "Eu não consigo separar completamente a diretora da roteirista ou da produtora, elas conversam o tempo todo", esclarece. Para ela, essa multiplicidade fortalece o olhar autoral e ajuda a preservar a essência do projeto. "A essência como cineasta permanece a mesma: escutar o filme, respeitar o que ele pede e proteger o coração da obra", declara. Atualmente imersa na pós-produção de "O Que Sobrou do Céu", seu primeiro longa-metragem, Luciana se vê em um momento de intensa transformação artística. "Realizar um longa mudou muito o meu olhar sobre mim mesma como cineasta", confessa. Para o futuro do cinema brasileiro, especialmente no fantástico, Malavasi deseja mais abertura e investimento. "Eu espero ver mais espaço para narrativas autorais, sobretudo aquelas feitas por mulheres e por olhares que historicamente ficaram à margem", conclui.