População em situação de rua cresce até 187 vezes nas capitais brasileiras em pouco mais de uma década

O número de pessoas em situação de rua disparou em todas as capitais brasileiras em pouco mais de uma década. Em São Paulo, que concentra a maior fatia dessa população, o contingente cresceu 26 vezes entre 2012 e 2025. No Rio, segundo colocado, o aumento foi ainda mais expressivo, multiplicando por 187 a quantidade de cidadãos vivendo ao relento pelas vias cariocas. 'Dor que não desejo para ninguém': mãe de crianças desaparecidas em Bacabal desabafa após quase duas semanas de buscas Desacato, embriaguez e lesão corporal: irmã de Ricardo Nunes é presa após ser identificada pelo Smart Sampa Os dados são do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/Polos-UFMG). A entidade utilizou como base do cálculo o Cadastro Único de Programas Sociais (CadÚnico), responsável por reunir beneficiários de políticas como o Bolsa Família. O levantamento mais recente, com números relativos a dezembro do ano passado, indica que, em todo o Brasil, houve um salto de 11% no tamanho da população em situação de rua na comparação com 2024. A variação percentual representa cerca de 38 mil pessoas a mais nessa condição em apenas 12 meses, passando de 327 mil para 365 mil. A região com maior concentração é o Sudeste, com 222.311 pessoas nas ruas, o equivalente a 61% do total. Em seguida, aparecem o Nordeste, com 54.801 (15%), e o Sul, com 45.430 (12%). Já o Centro-Oeste (22.036) e o Sul (21.244) respondem por cerca de 6% cada. Registros aperfeiçoados Embora haja um aumento concreto na população em situação de rua, André Luiz Freitas, coordenador do observatório, pontua que o aperfeiçoamento dos registros no sistema permitiram que a consolidação dos dados se aproximasse mais da realidade. Ao utilizar o CadÚnico como base, explica o pesquisador, a subnotificação também é reduzida: — Em 2012, aproximadamente 10% dos municípios brasileiros alimentavam o CadÚnico com a população em situação de rua. Hoje, são 60%. Tem ficado cada vez mais difícil maquiar os dados. O principal fator para o crescimento, na avaliação de especialistas, é a falta de políticas públicas estruturantes voltadas à garantia de moradia, trabalho e educação. Freitas afirma que, por historicamente não existirem medidas suficientes, o problema se arrasta há mais de um século e contribuiu para que a maioria das pessoas em situação de rua seja negra: — Mesmo depois da abolição da escravização, essa população sempre teve negado o acesso a terras, moradia, trabalho e educação, além de sofrer estigmatização e criminalização de seus corpos e existências. Isso deveria ser considerado inclusive como uma perspectiva de reparação. Outro motivo para o fenômeno é a precarização das condições de vida, agravada pela pandemia de Covid-19. Embora tenha havido um recuo no início da crise sanitária, o tamanho da população em situação de rua acelerou ainda mais nos anos seguintes. Emergências climáticas, como a ocorrida no Rio Grande do Sul em 2024, e os deslocamentos de migrantes para o Brasil também contribuíram para o aumento dos índices. De acordo com o coordenador, o impacto é especialmente visível em Boa Vista, capital de Roraima, que hoje apresenta a maior proporção de pessoas em situação de rua em relação ao número de habitantes. Isso se deve, segundo ele, principalmente à chegada de venezuelanos. — A gente tem visto, não somente aqui, um aumento nos deslocamentos forçados. Em Boa Vista, já se percebia uma situação gravíssima em 2023 no que diz respeito à sobreposição de várias violências e violações de direitos envolvendo populações em situação de rua, povos originários, comunidades quilombolas, migrantes e refugiados — enumera Freitas. Falta comida A cidade de São Paulo ocupa a primeira posição do ranking desde o início da série histórica, iniciada em 2012, quando as estatísticas apontavam para 3.842 pessoas em situação de rua. Em 2025, o número ultrapassou pela primeira vez a marca dos cem mil, chegando a 101.461. Articulador da Associação Rede Rua, que trabalha no acolhimento e apoio a esses grupos na capital paulista, Alderon Costa relata que o aumento progressivo foi sentido principalmente nos anos seguintes à pandemia, quando as campanhas passaram a não alcançar todos os necessitados. No cotidiano, o impacto mais visível, segundo Costa, é na distribuição de alimentos. Muitas vezes, as ações precisam ser encerradas sem que todos tenham sido atendidos. — Não há comida para dar conta de toda a população que está indo aos projetos. É um contingente que aumenta a cada dia. A gente não consegue atender todo mundo, e isso nos machuca muito — lamenta. Já o Rio registra uma característica que se opõe à de outros locais. Enquanto a tendência nos últimos anos foi de um espalhamento do fenômeno por mais cidades, a capital fluminense permanece concentrando cerca de 70% das 23.431 pessoas sem abrigo. Em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais e terceira colocada no ranking, eram 15.474 indivíduos em situação de rua em 2025 — aproximadamente seis vezes mais do que em 2012. Samuel Rodrigues, membro da coordenação do Movimento Nacional da População de Rua, também atribui o aumento à ausência de políticas públicas e aos efeitos da pandemia. Ele destaca ainda a situação de egressos do sistema prisional sem assistência adequada, a migração oriunda de outras regiões do Brasil e a chegada de imigrantes de países da América do Sul, como Bolívia e Venezuela. — Algo específico aqui é que muitos vêm procurar tratamento de saúde, às vezes trazidos por ambulâncias das prefeituras, e acabam ficando. O mesmo ocorre com jovens do interior que vêm buscar trabalho na capital e também permanecem — explica Rodrigues. *Estagiária sob supervisão de Luã Marinatto