Uma moradora de Miami Beach, na Flórida, afirmou ter sido alvo de intimidação depois que dois policiais foram até sua casa para questioná-la sobre um comentário que fez ao prefeito da cidade em uma publicação no Facebook. O episódio, ocorrido nesta segunda-feira (12), reacendeu o debate sobre os limites entre segurança pública e liberdade de expressão nos Estados Unidos. Sem crime nem acidente: após semanas sem dormir, mãe de quatro filhos chama a polícia em busca de apoio emocional nos EUA Raquel Pacheco, de 51 anos, disse ter ficado surpresa ao receber a visita de detetives após comentar uma postagem do prefeito Steven Meiner. Na publicação, Meiner — que é judeu — descrevia Miami Beach como um “refúgio seguro para todos”, em contraste com outras cidades americanas. Pacheco, ex-candidata a cargos públicos locais e crítica recorrente do prefeito, respondeu com um texto duro, questionando suas posições políticas e acrescentando emojis irônicos. No comentário, ela acusava o prefeito de hipocrisia ao se declarar defensor de uma cidade inclusiva, citando posições anteriores dele sobre o conflito no Oriente Médio, a tentativa de barrar um filme pró-Palestina e a falta de apoio à comunidade LGBTQ. Meiner, que é judeu, disse que Miami Beach era uma área segura, comparando-a à cidade de Nova York, que ele acusou de "remover intencionalmente proteções contra grupos específicos, incluindo a promoção de boicotes a empresas israelenses/judaicas" Reprodução/Facebook Visita policial e reação da moradora Segundo Pacheco, os policiais disseram que estavam ali apenas “para conversar” e avaliar se o comentário poderia gerar reações de terceiros. Ela gravou o encontro, que durou menos de três minutos, e compartilhou o vídeo nas redes sociais. Ao ser questionada se seria acusada, ouviu que não. Ainda assim, afirmou ao Miami Herald que sentiu medo e classificou a abordagem como abuso de poder. “Isso é liberdade de expressão. Isto é a América”, disse aos agentes. Os policiais a aconselharam a evitar publicações semelhantes, alegando que o conteúdo poderia “incitar algo”. Pacheco recusou-se a responder perguntas sem um advogado e afirmou depois que sua liberdade de expressão “morreu na porta de casa”, em declarações à CBS News. A advogada Miriam Haskell, do Community Justice Project, passou a representá-la e classificou a ação como uma “tática de intimidação” contra uma manifestação protegida pela Primeira Emenda da Constituição dos EUA, segundo o Miami Herald. Para ela, a justificativa de “ameaça imediata” não ficou clara, já que os policiais teriam se concentrado mais nas possíveis reações ao comentário do que em qualquer risco concreto. Em nota ao Miami Herald, o porta-voz da polícia de Miami Beach, Christopher Bess, afirmou que a visita ocorreu “por excesso de cautela”, diante de preocupações nacionais com o antissemitismo, e que se tratou de um “encontro consensual” para garantir a segurança do prefeito e da comunidade. Após a conversa, a polícia decidiu não levar adiante nenhuma investigação criminal. O prefeito Steven Meiner disse ao The Washington Post que o caso é um “assunto policial” e declarou apoiar o direito de opiniões divergentes, embora tenha afirmado que a linguagem usada justificaria uma verificação de segurança. O gabinete do prefeito não comentou além disso. Veterana do Exército dos EUA, Pacheco afirmou nas redes sociais que ficou “com o coração partido” com o ocorrido. “Se podem mandar a polícia à minha porta por algo que eu disse, podem fazer o mesmo com você”, escreveu, em referência ao episódio, segundo a CBS News.