Empresas na teia do Master usam terras da União para fabricar R$ 45 bi em créditos de carbono

ANDRÉ BORGES, ADRIANA FERNANDES E LUCAS MARCHESINI BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) Duas empresas que estão no centro da teia financeira do caso Master chegaram a uma valorização que soma mais de R$ 45,5 bilhões baseada em milhões de "créditos de estoques de carbono" que têm origem em uma terra pública, pertencente à União. Logo, jamais poderiam ser a base desses créditos privados. Documentos obtidos pela Folha mostram que a Golden Green e a Global Carbon, ambas controladas por fundos geridos pela Reag, investigada pela Polícia Federal, tiveram reavaliações de ativos bilionárias por meio de auditorias e pareceres que se apoiaram na contabilidade das unidades de estoque de carbono de área conhecida como Fazenda Floresta Amazônica, localizada no município de Apuí (AM), com extensão total de 143,9 milhões de hectares. A questão é que essa terra não pertence a essas empresas, tampouco poderia ser arrendada para uso econômico privado, pois se trata de uma área pública voltada à destinação social, para reforma agrária. A informação foi confirmada à reportagem pelo Incra. "Trata-se de área da União, destinada a Projeto de Assentamento Federal, contendo matrícula e Portaria de Arrecadação dos anos 1980", informou a autarquia. Por isso, afirmou o Incra, qualquer comercialização de ativos de carbono baseados na floresta da região seria um ato irregular. Questionado sobre como avalia o fato de a região lastrear os créditos de carbono das duas empresas, o Incra foi direto. "Os negócios são irregulares e causam danos à União", afirmou, acrescentando que "medidas administrativas e judiciais estão sendo adotadas". O Incra acrescentou que, para evitar negociações sobre a área, abriu um processo administrativo de fiscalização que vetou o cadastro do imóvel no SNCR (Sistema Nacional de Cadastro Rural), além de ter negado a certificação do imóvel no Sigef (Sistema de Gestão Fundiária). Na prática, isso significa que aquele território não está regularizado como propriedade privada para sustentar um direito exclusivo sobre a terra ou sobre seu "estoque" ambiental. Nada disso, porém, impediu que diversas auditorias de renome e consultorias fizessem não apenas a precificação de cada unidade de estoque de carbono, como também passassem a atualizar o valor de seus "ativos", sem qualquer tipo de menção ao litígio que envolve a origem de todo o crédito. As duas empresas argumentam que o inventário de carbono da área foi realizado pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), que estimou haver um estoque total de 168,8 milhões de toneladas de CO₂ naquele território. A partir dessa informação, as empresas partiram para a precificação do valor desse carbono. Esse trabalho contou com a atuação da empresa Ernest Young, que foi contratada em 2020 para analisar a metodologia de cálculo usada pela empresa. A partir dessa análise, ficou decidido, por exemplo, que cada unidade de carbono teria um valor de R$ 129,30. Em 2022, a Golden Green contratou a PwC Auditores Independentes, que analisou as demonstrações financeiras e chancelou um aumento do valor para R$ 149,56. Como o balanço da empresa dizia ter 74,228 milhões de créditos de estoque de carbono, o ativo total foi avaliado em R$ 11,1 bilhões. Em dezembro de 2024, foi a vez de a Crowe se debruçar sobre os papéis e aprovar a atualização de cada ativo para R$ 197,49, um aumento de 32% em dois anos, chegando a um total de R$ 14,6 bilhões. Não há nenhum tipo de alerta ou ressalva nas auditorias sobre qual seria, afinal, a origem efetiva daqueles créditos bilionários, a não ser o aceite de que o modelo contábil estava correto e que o carbono estava lastreado em Créditos de Produto Rural (CPR), papéis que estariam sob os cuidados de um escritório em Londres. A situação se repete no caso da Global Carbon, empresa que nasceu como um armarinho paulista com capital social de apenas R$ 100 em 2020 e passou a valer R$ 31 bilhões em 2024. As duas empresas ergueram seus números bilionários sobre o mesmo solo público. O território é localizado em uma região conhecida por avanço de desmatamento e grilagem de terras. A Golden Green tem como investidor o fundo Jade, e a Global Carbon, o New Jade 2, ambos administrados pela Reag e investigados desde a Operação Carbono Oculto, que apura a suspeita de lavagem de dinheiro para o PCC. O New Jade 2 está na ponta de uma cadeia de controle de fundos que se inicia no Hans 95, um dos seis apontados como fraudulentos pelo Banco Central, conforme mostrou a Folha. Além de as terras não serem controladas pelas empresas, não há qualquer valor de mercado que possa embasar o preço dos estoques que elas computaram. O crédito de carbono é um certificado emitido por um programa reconhecido no mercado, que está ligado a uma redução comprovada e vendável de emissão. Ocorre que essas empresas detêm unidades de "estoque de carbono", o que não passa de uma estimativa do carbono existente numa área. Isso, por si só, não vira crédito negociável, nem garante comprador ou preço. Em seus próprios documentos, as duas empresas reconhecem que se baseiam em premissas internas, porque não existem transações no mercado. O que se vende hoje, é crédito de carbono, um tipo de ativo que não tem nada a ver com o "crédito de estoque de carbono", que as empresas alegam ter. À Folha, o economista Marco Aurélio Hardt, da empresa Horbia Partners, que assina o laudo mais recente de valorização da Global Carbon, de dezembro de 2024, disse que baseia a valorização dos ativos das empresas no preço de uma cesta de commodities e no balanço financeiro que é entregue pela empresa. "Eu assumo isso como dado. Não fiz cálculo nenhum, eu apenas reproduzi o que está no balanço patrimonial da empresa, que é auditado", disse. "A prova que o ativo existe está na auditoria que foi feita sobre o balanço. Meu laudo é de avaliação econômica." No caso da Golden Green, Hardt admite que fez uma avaliação da valorização da empresa em agosto de 2025, no valor de R$ 14,2 bilhões, mesmo sem ter um balanço auditado por terceiro. "Lamentavelmente, no caso da Golden Green, eu só tenho o balanço, não auditado", comentou. Hardt diz que seu ato não é irregular e que as normas da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) permitem esse tipo de avaliação. A Folha procurou os diretores da Golden Green, mas não houve retorno. A assessoria da Global Carbon declarou que a informação trazida pelo Incra "é correta quanto ao fato de a área ser pública". Segundo a empresa, essa informação só chegou a ela "dois anos depois da originação dos ativos ambientais". "É por essa razão que o desenvolvedor do projeto ambiental, ao tomar conhecimento desse fato, voluntariamente apresentou comunicação de fato relevante ao Incra, em janeiro de 2025, para as mais diversas providências". A Global Carbon diz que "está em fase avançada de tratativas com a diretoria fundiária da autarquia para regularização dos ativos ambientais". A defesa de Daniel Vorcaro informou que o Banco Master e seu controlador não são, nem nunca foram, cotistas, gestores ou administradores dos referidos fundos ou veículos. "A defesa permanece colaborando com as autoridades competentes e reitera confiança de que o esclarecimento dos fatos afastará associações que não refletem a realidade", declarou. A Reag afirmou que as duas "são empresas em fase de preparação, que já possuem ativos ambientais oficialmente registrados, mas que ainda não os transformaram em produto ou receita", porque dependem de etapas técnicas ou regulatórias antes de vender. "As empresas possuem áreas de floresta para gerar crédito de carbono", afirmou a Reag. A Ernst Young afirmou que foi contratada para fazer apenas "um serviço de checagem de metodologia de fórmulas matemáticas, proprietárias da própria BMV (Brasil Mata Viva) e que "foi verificada a fórmula do cálculo e não os valores, nem sua origem". A empresa também declarou que "não houve a contratação de serviços de auditoria". "O produto final tinha como propósito único servir de subsídio à administração da BMV em suas análises e não poderia ser utilizado para qualquer outro fim, tampouco ser divulgado, manuseado ou distribuído em sua totalidade ou em partes", afirmou. A PwC não se manifestou até a publicação desta reportagem. Marcelo Lico, sócio-fundador do Grupo Crowe Macro Brasil, disse que seu trabalho "foi realizado em estrita conformidade com as normas brasileiras e internacionais" e que "em uma auditoria, nosso trabalho é expressar uma opinião sobre as demonstrações contábeis do exercício social, com base em evidências obtidas à época".