A abertura de um procedimento no Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar se houve vazamento de dados sigilosos de ministros e de seus familiares por parte da Receita Federal e do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) dividiu integrantes da Corte entre apoio e cautela e despertou críticas de representantes do Fisco, que defendem a atuação do órgão. O procedimento, de acordo com interlocutores do STF, já foi aberto pelo ministro Alexandre de Moraes e tem por objetivo esclarecer se houve acesso irregular a informações fiscais e bancárias de ministros, identificar quem realizou as consultas aos sistemas, em que datas e sob que justificativas formais. Todos as consultas deixam registro, o que, em tese, pode facilitar a identificação no caso de alguma irregularidade. Um ministro ouvido pelo GLOBO diz que a medida adotada por Moraes é "legítima" tendo em vista a suspeita de acesso irregular a dados de autoridades, o que consiste, caso seja comprovado, em uma violação das atribuições dos órgãos responsáveis. Para outro ministro da Corte, porém, é preciso ter "cautela" com o assunto e evitar que o Coaf e a Receita tenham a atuação questionada sem que antes se tenha indícios concretos de que eventuais ilícitos envolvendo informações sensíveis de integrantes do Supremo ocorreram. De outro lado, integrantes da Receita Federal manifestaram ao GLOBO desconforto com as medidas e apontam para um "filme repetido" envolvendo a atuação do Coaf. Para esses funcionários do Fisco, a medida tomada pelo STF é irregular uma vez que atropela os procedimentos que normalmente são aplicados a qualquer cidadão — que seria prestar uma queixa e aguardar a autoridade competente apurar se houve ou não vazamento. Os membros da Receita dizem que o trabalho do órgão é técnico e temem que a apuração no STF esteja sendo usada para uma razão de interesse privado. Ainda falam em "reprise" ao relembrar que em 2019 a atuação do órgão passou ser questionada pela Corte. Na época, Moraes determinou a suspensão de uma série de investigações fiscais da Receita que atingiam ministros da Corte e outras autoridades, citando “indícios de desvio de finalidade” no direcionamento das apurações, e afastou temporariamente dois servidores por suspeita de quebra indevida de sigilo. A abertura do inquérito ocorre em meio aos desdobramentos de reportagem que menciona contrato do Banco Master com o escritório da mulher de Moraes, Viviane Barci. Em dezembro, a coluna de Malu Gaspar revelou que, ao longo de três anos, o contrato totalizaria R$ 131,3 milhões. Antes, o colunista Lauro Jardim havia informado que o contrato de prestação de serviço havia sido apreendido em operação da Polícia Federal (PF).