Nick Reiner, acusado do assassinato dos pais, esteve sob curatela de saúde mental durante 1 ano

Nick Reiner, que foi acusado do assassinato de seus pais, Rob Reiner e Michele Singer Reiner, foi colocado sob uma curatela de saúde mental por um período de um ano em 2020, segundo duas pessoas com conhecimento do acordo legal. Quem é Nick Reiner: filho suspeito de matar Rob Reiner tem histórico de dependência química e 17 internações Filhos de Rob e Michelle Reiner divulgam comunicado sobre assassinato dos pais: 'perda horrível e devastadora' Um funcionário do Tribunal Superior de Los Angeles afirmou que a curatela terminou em 2021. Steven Baer, um fiduciário licenciado que foi nomeado curador de Reiner, disse que a doença mental “é uma epidemia amplamente mal compreendida, e esta é uma tragédia horrível”. Ambos se recusaram a fornecer mais detalhes sobre o acordo, citando confidencialidade. A revelação da curatela destaca a gravidade dos desafios de saúde mental enfrentados por Reiner nos últimos anos, questões que provavelmente serão centrais para sua defesa legal. Rob Reiner, diretor de filmes como "Conta comigo" e "A princesa prometida", e sua esposa foram encontrados esfaqueados até a morte em sua casa em Los Angeles no dia 14 de dezembro. Caso Nick Reiner seja condenado por duas acusações de homicídio em primeiro grau, ele poderá ser sentenciado à prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional ou à pena de morte. Ele está sendo representado por um defensor público e ainda não apresentou declaração de culpa ou inocência. Reiner, de 32 anos, tem uma doença mental grave e havia enfrentado dificuldades nas semanas anteriores à sua prisão devido a uma mudança em sua medicação, disseram ao The New York Times duas outras pessoas familiarizadas com sua saúde, sob condição de anonimato para discutir informações médicas sensíveis. Uma dessas pessoas afirmou que ele foi diagnosticado, em diferentes momentos, com esquizofrenia e transtorno esquizoafetivo. Hollywood: Quem era Rob Reiner, diretor encontrado morto com esposa A medicação que Reiner vinha tomando era eficaz, disse a outra pessoa, mas os efeitos colaterais o levaram a trocar para um novo medicamento cerca de um mês antes de seus pais serem mortos. O gabinete do defensor público do Condado de Los Angeles se recusou a comentar, assim como um representante do gabinete do promotor distrital. O fato de Reiner — que havia lutado contra a dependência de drogas desde a adolescência — ter estado sob curatela indica que um juiz determinou que ele apresentava uma “incapacidade grave”, o que significa que ele não conseguia prover suas necessidades pessoais básicas de alimentação, vestuário ou abrigo em razão de um transtorno de saúde mental. “É preciso um quadro bastante severo para que alguém seja colocado sob uma curatela de saúde mental na Califórnia”, disse Lee Blumen, advogado com experiência nesse tipo de caso. “De todas as pessoas que entram nesse sistema, um grupo muito pequeno acaba efetivamente colocado sob curatela.” Polícia investiga mortes do diretor de cinema Rob Reiner e de sua mulher como 'aparente homicídio' AFP Reiner foi submetido ao que é conhecido como curatela LPS, com base em uma lei de 1967 — a Lei Lanterman-Petris-Short — que estabeleceu um novo processo para tratamento psiquiátrico involuntário na Califórnia. Esse sistema é distinto daquele comumente usado para assumir decisões médicas e financeiras de pessoas com demência ou deficiência de desenvolvimento; esse outro sistema recebeu grande atenção pública por ter sido utilizado para controlar os assuntos da cantora pop Britney Spears. As curatelas LPS geralmente têm origem em uma internação psiquiátrica involuntária e são iniciadas por um médico. No Condado de Los Angeles, autoridades do Escritório do Guardião Público avaliam então se a curatela é justificada e apresentam o caso a um juiz. O sistema permite que um curador profissional ou uma pessoa próxima ao paciente, como um familiar, tome decisões sobre o tratamento médico, incluindo medicações psiquiátricas. A curatela tem duração de um ano, após o qual o curador pode tentar renová-la. Não está claro por que a curatela de Reiner não durou além de um ano. O Departamento de Saúde Mental do condado, que supervisiona o escritório do guardião público, recusou-se a comentar ou fornecer qualquer documentação dos processos legais, citando a confidencialidade do paciente. Uso de heroína e cocaína Reiner lutava havia muito tempo contra a dependência de drogas e falou sobre isso publicamente, tendo coescrito em 2016 um filme dirigido por seu pai e vagamente baseado na experiência da família com seu uso de heroína e cocaína. Ele passou por tratamento para dependência química cerca de 18 vezes na adolescência, circulando por instituições residenciais em todo o país e, às vezes, enfrentando situação de rua em meio a conflitos com os pais sobre retornar à reabilitação. Ele já fez alusões a questões mais amplas de saúde comportamental, dizendo em uma entrevista ao lado do pai que “era mais do que drogas — na verdade, sempre foi mais do que isso”. No entanto, ele e sua família não falaram publicamente sobre seu diagnóstico psiquiátrico ou tratamento. A esquizofrenia é um transtorno cerebral grave caracterizado por pensamento anormal, frequentemente envolvendo delírios, paranoia ou alucinações. O transtorno esquizoafetivo combina sintomas de esquizofrenia com episódios de humor, que podem ser maníacos ou depressivos. Ambos os transtornos geralmente são tratados com uma combinação de medicamentos e terapia. A maioria dos medicamentos antipsicóticos atua bloqueando receptores do neurotransmissor dopamina, que afeta funções como motivação, recompensa, humor, atenção e sono. Na maioria dos pacientes, eles podem reduzir sintomas como alucinações e paranoia a um nível controlável. No entanto, esses medicamentos têm efeitos colaterais graves, incluindo ganho de peso, o que contribui para altas taxas de doenças cardíacas e morte precoce entre pessoas com transtornos psicóticos. Muitos pacientes interrompem o uso dos medicamentos, afirmando que eles os deixam lentos e desmotivados. Pesquisadores descobriram que até metade dos pacientes não toma antipsicóticos conforme prescrito, o que frequentemente leva a recaídas e hospitalizações. Prisão em Los Angeles De modo geral, qualquer troca de medicação para um transtorno como a esquizofrenia deve ser feita ao longo de várias semanas, disse o Dr. Demian Rose, professor de psiquiatria e ciências comportamentais da Universidade da Califórnia, em San Francisco. Uma transição lenta, conhecida como cross taper, ajuda a garantir que o novo medicamento seja eficaz e que o anterior não seja retirado rapidamente demais, afirmou ele, acrescentando que a interrupção de um antipsicótico após uso prolongado pode induzir sintomas de abstinência, como insônia, agitação e inquietação. Reiner está detido no Complexo Correcional Twin Towers, uma prisão do condado no centro de Los Angeles. Quando seu advogado anterior, Alan Jackson, deixou o caso na semana passada por razões que não divulgou, ele disse a repórteres que, “de acordo com a lei da Califórnia, Nick Reiner não é culpado de homicídio”. Os comentários indicaram que Jackson pode ter estado preparando uma defesa centrada em saúde mental. Não está claro se o atual advogado de Reiner, um defensor público, adotará uma abordagem semelhante. Considerando as questões de saúde mental envolvidas, a defesa de Reiner terá de avaliar se ele é capaz de compreender os procedimentos judiciais ou de ajudar em sua própria defesa. Questionar sua capacidade processual iniciaria um processo que envolve exames médicos e culmina em uma decisão de um juiz ou júri. Podem ser necessários meses ou anos de tratamento médico e procedimentos judiciais para que um réu seja considerado apto a responder a um julgamento. Nathan J. Hochman, promotor distrital do Condado de Los Angeles, disse a repórteres neste mês que estava confiante de que um júri acabaria condenando Reiner pelos “assassinatos brutais de seus pais”. Se Reiner for considerado apto, ele poderá tentar provar no julgamento que não é culpado por motivo de insanidade. Nesses casos, a defesa precisa convencer o júri de que os problemas de saúde mental tornaram o réu incapaz de compreender suas ações passadas e de distinguir o certo do errado. No entanto, absolvições desse tipo são raras, disse John Kip Cornwell, professor de direito da Universidade Seton Hall e especialista em casos criminais envolvendo questões de saúde mental. Segundo ele, é difícil provar que alguém, mesmo vivenciando psicose e paranoia, não tinha qualquer compreensão de que matar uma pessoa era errado. Além disso, os jurados podem relutar em deixar crimes violentos sem punição. “Os jurados querem, instintivamente, que a justiça seja feita”, disse Cornwell, “e ficam desconfortáveis em permitir que alguém seja considerado ‘não culpado’ quando uma vítima inocente foi morta”. Se os jurados chegarem a um veredicto de não culpado por motivo de insanidade, isso significa que decidiram que o réu cometeu um crime, mas não pode ser responsabilizado legalmente por ele. Normalmente, o réu seria internado em um hospital psiquiátrico administrado pelo Estado e, eventualmente, poderia pedir à Justiça sua liberação. Para isso, seria necessário convencer um juiz de que a pessoa não representa perigo para a comunidade.