DOUGLAS GAVRAS FOLHAPRESS Após uma espera de mais de 25 anos, o Mercosul e a União Europeia devem finalmente assinar, neste sábado (17), um acordo para criar uma grande zona de comércio, buscando uma alternativa de comércio aos Estados Unidos e à China. A união, que conta com mais de 720 milhões de consumidores, também é fonte de preocupações entre agricultores europeus e empresários do Brasil e Argentina. As negociações começaram em 1999, e ele foi aprovado pela Comissão Europeia no último dia 9 . A assinatura está prevista para ocorrer em uma cerimônia no início da tarde, no teatro José Asunción Flores, em Assunção, no Paraguai (que detém a presidência rotativa do bloco). Segundo os organizadores, na cerimônia estarão presentes o anfitrião, Santiago Peña, o presidente uruguaio, Yamandú Orsi, e o argentino Javier Milei. O presidente Lula (PT) não é esperado no Paraguai e seu encontro com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, assim como o presidente do Conselho Europeu, António Costa, ocorreu um dia antes, no Brasil. O representante do governo brasileiro será o chanceler Mauro Vieira. O evento foi planejado inicialmente como um encontro dos chanceleres dos países, e os chefes de Estado foram convidados de última hora. Embora tenha trabalhado pelo avanço do tratado, Lula será o único dos quatro presidentes que não estará na cerimônia. Após o longo processo, o Conselho da União Europeia aprovou, em 9 de janeiro de 2026, o acordo comercial com o Mercosul, um mês após Von der Leyen cancelar sua viagem ao Brasil para assinar o documento, devido à demora na aprovação pelos europeus. O Conselho Europeu afirmou em comunicado que este é um "marco importante" na longa relação da UE com os países envolvidos no Mercosul no acordo, que "reflete o compromisso da União Europeia de estabelecer parcerias ao redor do mundo para diversificar o comércio". Ainda é preciso buscar a aprovação pelos parlamentos dos países do Mercosul e pelo Parlamento Europeu, onde a batalha será mais complexa. Em 2024, o volume de transações entre a UE e o Mercosul atingiu € 111 bilhões (R$ 693,4 bilhões). As exportações europeias incluem máquinas, produtos químicos e equipamentos de transporte, enquanto as do Mercosul são principalmente produtos agrícolas, minerais, celulose e papel. O tratado reduzirá tarifas em mais de 90% do comércio bilateral, beneficiando a exportação de produtos europeus como automóveis e vinhos, enquanto permitirá que carne, açúcar e soja sul-americanos entrem na Europa. Apesar disso, a assinatura não é um consenso. Empresários sul-americanos, sobretudo na combalida manufatura argentina, temem impacto na indústria, em segmentos como o automotivo, de calçados e de móveis. Do outro lado, enquanto os embaixadores europeus aprovavam o pacto em Bruxelas, agricultores franceses protestavam em Paris com tratores, aumentando a crise do primeiro-ministro, Sébastian Lecornu. A oposição na França quer usar essa aprovação, vista negativamente na França, para derrubar o governo e pressionar Emmanuel Macron. Partidos de ultraesquerda e ultradireita já apresentaram moções de censura contra Lecornu. Os agricultores europeus temem que os produtos sul-americanos, que são mais competitivos devido a normas de produção menos rigorosas, possam inundar seus mercados. Para mitigar essa resistência, a Comissão Europeia criou cláusulas que garantem proteção a setores como carne e aves, limitando a entrada de produtos sul-americanos sem tarifas e intervindo em caso de instabilidade do mercado. O acordo também teve sua importância geopolítica aumentada recentemente, após a série de tarifas impostas pelo governo de Donald Trump a diferentes países e as críticas da Casa Branca ao multilateralismo. Embora esteja suspensa do Mercosul, a Venezuela também ganhou espaço no noticiário internacional, após a ação dos Estados Unidos que culminou na prisão de Nicolás Maduro e a posse de Delcy Rodríguez como líder interina do país. Do lado europeu, a preocupação também aumentou com as ameaças de Trump à Groenlândia, que pertence à Dinamarca e à UE.