O amor em tempos de red flag: por que achar que podemos evitar o sofrimento pode acabar com nossas relações

Vivemos um momento em que o amor passou a ser tratado como um campo de risco permanente, quase um território que exige mapas, alertas e protocolos de segurança emocional. Antes mesmo que um encontro termine, já estamos mentalmente classificando o outro, circulando seus gestos, suas falas, seus silêncios, como se estivéssemos diante de um dossiê afetivo que precisa ser avaliado com cuidado. As redes sociais ajudaram a popularizar essa lógica, ensinando que praticamente tudo pode ser uma red flag, o jeito de se comunicar, o passado amoroso, a relação com a família, a forma de lidar com conflitos, o tempo de resposta no WhatsApp, como se amar tivesse se tornado um exercício de vigilância contínua. Por trás disso existe uma fantasia muito poderosa, a de que, se formos atentos o suficiente, conseguiremos evitar sofrer. A psicanálise olha para essa promessa com desconfiança, porque o sofrimento não é um erro do amor, é parte estrutural do encontro entre dois sujeitos. Quando duas histórias se tocam, algo sempre se desloca, algo sempre falha, e é justamente nesse atrito que o vínculo se constrói. O problema de transformar o outro em um conjunto de sinais de perigo é que, pouco a pouco, deixamos de escutar quem ele é para escutar apenas aquilo que confirma nossos próprios temores. O encontro vira uma espécie de teste, uma triagem, e não mais um espaço de descoberta. Freud já dizia que não escolhemos por acaso, que nossas escolhas amorosas seguem trilhas abertas na infância, pelas experiências de cuidado, abandono, reconhecimento e frustração que nos marcaram. Cada um de nós carrega um mapa inconsciente do que é amar, e é com esse mapa que entramos em toda relação, mesmo quando fingimos estar agindo de forma totalmente racional. Nesse sentido, muitas red flags funcionam como uma maneira elegante de não olhar para esse mapa. Em vez de perguntar por que algo no outro nos toca tão fundo, por que certa atitude nos desorganiza, por que determinado comportamento desperta tanto medo ou raiva, preferimos rotular o outro como inadequado e seguir adiante, preservando a fantasia de que o problema nunca é nosso. Existe uma sedução grande nesse modo de se relacionar, porque ele dá a sensação de controle. Parece mais seguro descartar alguém ao primeiro sinal de imperfeição do que admitir que nos envolvemos, que criamos expectativa, que ficamos vulneráveis. Mas esse controle cobra um preço alto, porque relações reais são feitas de desencontros, de mal entendidos, de pequenas frustrações e também de reparações, e quando tudo vira ameaça, não sobra espaço para aquilo que é vivo, ambíguo e humano. Revistas Newsletter Isso não significa ignorar limites nem romantizar o que machuca. Há diferenças importantes entre conflito e violência, entre estranhamento e desrespeito, entre desconforto e abuso. O que se perde na cultura das red flags é justamente essa capacidade de distinguir, porque tudo passa a ser lido como sinal de perigo, e aí ninguém passa no teste, já que ninguém é suficientemente inteiro para não ativar nada no outro. Talvez o que esteja por trás desse policiamento seja menos autocuidado e mais medo de vínculo, medo de depender, de precisar, de se deixar afetar. A linguagem das red flags muitas vezes funciona como uma armadura emocional, que protege o sujeito do risco de se implicar de verdade, de ser visto, de perder o controle. No fundo, o amor continua sendo o que sempre foi, um encontro entre duas histórias inconscientes que nunca se encaixam perfeitamente. A questão não é se haverá falhas, mas o que fazemos com elas. Fugimos ao primeiro tropeço ou ficamos para entender o que ele diz sobre nós e sobre o outro, porque talvez o verdadeiro risco não esteja nas pequenas bandeiras vermelhas que aprendemos a caçar, mas na fantasia de que é possível amar sem se expor.