A Mesa Diretora da Câmara dos Deputados apresentou recurso à decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou uma operação da Polícia Federal (PF) em dezembro sobre a suspeita de direcionamento de emendas parlamentares. Um dos pedidos feitos pela cúpula da Casa é para reverter o afastamento da servidora Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, de suas funções na Casa. Tuca é apontada por deputados como quem operava a distribuição e liberação das emendas no período em que Arthur Lira (PP-AL) presidiu a Câmara. Ela manteve essa atuação também na gestão Hugo Motta (Republicanos-PB), mas foi afastada do cargo por determinação de Dino, que atendeu a um pedido da PF, em 12 de dezembro. O magistrado determinou o afastamento da servidora de "qualquer atividade ou ação atinente a emendas parlamentares, até a conclusão das investigações". A PF apura suspeitas de desvios de emendas parlamentares e realizou buscas e apreensão em uma sala na Câmara ligada à presidência, local onde a servidora atuava — apesar de estar formalmente vinculada à liderança do PP na Casa. O recurso foi apresentado pela Mesa Diretora em dezembro, na semana seguinte à operação deflagrada, segundo três pessoas que acompanham o processo afirmaram ao O GLOBO. O processo corre em sigilo. Segundo uma pessoa que está a par do assunto, a Câmara usa o argumento que Tuca deve voltar ao posto porque que não teriam elementos que justificassem o afastamento dela. Outro argumento é a contestação dos depoimentos de parlamentares que foram usados para embasar a operação. Entre os indícios levantados pela PF estão relatos de parlamentares sobre problemas no encaminhamento das emendas. A PF colheu o depoimento do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) e dos deputados Adriana Ventura (Novo-SP), José Rocha (União-BA) e Glauber Braga (PSOL-RJ). Braga e Rocha são desafetos de parlamentares da cúpula da Câmara. A Mesa Diretora é formada pelo presidente e outros seis deputados, além de quatro suplentes. Procurado, Motta não respondeu. O gabinete de Dino foi procurado para comentar o andamento do pedido, mas não retornou. Procurada, a defesa de Tuca diz que sua cliente "tem décadas de experiência no serviço público" , tendo atuado nos governos Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro, "além de ter passado aproximadamente 10 anos no Senado da República". Acrescenta ainda que sua função na Câmara é puramente técnica e "consiste na mera organização da peça orçamentária". , "Todas as informações apreendidas em seu local de trabalho são públicas e poderiam ser encontradas na Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República. A defesa ressalta que até hoje não teve acesso ao inquérito contra Mariangela Fialek e ressalta serem falsas quaisquer insinuações que lhe atribuam papel que não seja puramente técnico". A operação em dezembro gerou contrariedade entre integrantes da cúpula da Câmara. Sob reserva, líderes falaram em exageros e classificaram como uma tentativa do Supremo em fragilizar o Parlamento. Eles dizem que Tuca é de perfil técnico e cuidava somente de operacionalizar os acordos políticos que eram firmados — sem ter autonomia para deliberar sobre o rateio desses recursos. A ação também levou a uma onda de solidariedade a Tuca nos bastidores, de nomes da esquerda à direita. No mesmo dia em que a operação foi deflagrada, Motta convocou líderes partidários para uma reunião para tratar de encaminhamentos e para dar uma resposta institucional ao ocorrido. Ao final, foi divulgada uma nota de desagravo a Tuca. “A experiência da servidora é reconhecida por todos os órgãos do Poder Legislativo e do Poder Executivo que elaboram e executam o orçamento federal. Inclusive, a atuação da servidora Mariângela Fialek foi fundamental no aprimoramento dos sistemas de rastreabilidade da proposição, indicação e execução de emendas parlamentares”, diz trecho da nota assinada pelo presidente da Câmara. Após a operação da PF, interlocutores do Legislativo e do Judiciário atuaram para tentar distensionar o clima de descontentamento entre a cúpula da Casa e o Supremo com a operação. O próprio Motta telefonou para o presidente do STF, Edson Fachin, e para Dino. Dino é relator das investigações sobre transparência de emendas no Supremo.