Uma descarga elétrica por minuto: entenda por que o número de raios disparou em São Paulo este ano

As duas primeiras semanas do ano foram marcadas pelos clarões constantes no céu durante as tardes chuvosas que atingem quase diariamente a Região Metropolitana de São Paulo neste verão. Se os temporais em janeiro são historicamente recorrentes, os raios e trovões atuais estão fora da curva na capital paulista, como atestam dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Temporal: carros são arrastados para dentro de córrego durante chuva em São Paulo e bombeiros buscam desaparecidos 'Justissa' e 'Guera': crianças usam placas virtuais em protesto contra restrição no chat de Roblox Números do Laboratório de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Inpe levantados para O GLOBO mostram um crescimento de 250% nos raios entre os dias 1º e 14 de janeiro na comparação com o mesmo período de 2025. Foram 4.729 descargas elétricas este ano, contra 1.344 episódios computados no recorte anterior. O aumento também é observado nas descargas nas nuvens — quando a energia é descarregada dentro da própria nuvem ou de uma nuvem para a outra, mas não chega a ir em direção ao solo. Neste caso, houve 13.253 registros, ante 3.520 nas duas primeiras semanas de 2025. Somando os dois tipos de fenômeno, é como se, em média, São Paulo fosse palco de 54 descargas elétricas por hora, ou praticamente uma por minuto. Temperaturas elevadas A onda de calor que atinge a Grande São Paulo é o principal motivo para a alta, alertam especialistas. No dia 25, em pleno Natal, a cidade de São Paulo registrou a maior temperatura para o mês de dezembro de sua história, com 35,9 ºC. O recorde anterior para o mês — 35,6 °C — havia sido alcançado quase três décadas antes, em 3 de dezembro de 1998, no Mirante de Santana, a principal estação do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) na capital. Os termômetros seguem alcançando marcas elevadas em 2026. Osmar Pinto Jr., pesquisador do Inpe, explica que as estatísticas para o início do ano dão o tom do que se deve esperar para a temporada de chuvas: — A ocorrência grande de raios é esperada (nessa época), mas esse aumento expressivo mostra algo diferente pelas temperaturas recordes. No Sudeste, o período de maior ocorrência (de raios) é o verão, do final de dezembro a março. Janeiro em São Paulo é um dos meses mais propícios para descargas elétricas porque reúne todas as condições ideais para a formação da nuvem chamada de cúmulo-nimbo, acrescenta Mateus Nunes, meteorologista da Tempo OK. Ele conta que, dentro desse tipo de formação, o ar quente e úmido próximo à superfície sobe rapidamente, enquanto correntes descendentes trazem ar mais frio de níveis elevados da atmosfera. Esse intenso movimento vertical faz com que gotículas de água, cristais de gelo e pedras de granizo colidam repetidamente. Nesses encontros, ocorre a separação de cargas elétricas, concentrando a carga positiva no topo da nuvem e as cargas negativas na parte inferior. — O resultado é um enorme “campo elétrico” dentro da nuvem e entre a nuvem e o solo. Quando a diferença de carga se torna grande demais para ser sustentada pelo ar, ocorre a descarga elétrica: o raio. Em dias de temperaturas muito elevadas e sem a atuação bem definida de um corredor de umidade, por exemplo, a superfície fica muito exposta aos raios solares, e a temperatura sobe mais rápido, fornecendo mais energia para a formação de nuvens carregadas. Tempestades elétricas podem causar mais de mil raios em pouquíssimas horas, o que aumenta o risco de danos causados por esse tipo de fenômeno — frisa Nunes. Esse período do ano deve inspirar mais cuidados não só na capital, mas em todo o estado. Entre dezembro de 2022 e março de 2023, três pessoas morreram após serem atingidas por raios em solo paulista, conforme dados da Defesa Civil. Os mesmos trimestres dos dois anos seguintes registraram um óbito cada, enquanto o recorte atual não teve, até o momento, casos do gênero. ‘Risco ainda maior’ Durante a formação de mau tempo é recomendado que as pessoas saiam de áreas abertas e procurem proteção em locais fechados, preferencialmente sob uma laje, orienta o tenente Maxwel Souza, diretor de comunicação da Defesa Civil: — Algumas condições oferecem risco ainda maior, como a faixa da areia em área litorânea e grandes descampados no interior do estado. Durante tempestades, além de não ficar em áreas abertas, as pessoas devem sair de sacadas e varandas e se afastar das janelas, além de, preferencialmente, retirarem equipamentos elétricos e eletrônicos das tomadas. No ano passado, pesquisadores do Inpe se debruçaram sobre os dados das tempestades severas que atingem as cidades de São Paulo e Rio e concluíram que esse tipo de fenômeno, acompanhado justamente da alta carga de raios e dos ventos fortes, deve crescer de 20% a 30% até 2034. O aumento de raios na capital paulista é mais um sintoma do agravamento desse tipo de evento. Cientistas detectaram que o fenômeno é impulsionado pela mudança climática global e pela intensidade do El Niño, o superaquecimento das águas do Pacífico. O Brasil é recordista mundial de chuvas fortes com raios e ventos, com cerca de 500 mil ocorrências por ano. Aproximadamente 1% desses episódios, ou 5 mil eventos extremos por ano, são as tempestades de categoria severa. As duas características principais de tempestades dessa classificação são ventos a mais de 70 km/h ou o registro de mil raios ou mais em um único dia. Os dados mostram que a Amazônia é a região campeã de descargas elétricas no país, e São Paulo e Rio não estão entre as áreas mais atingidas por tempestades desse tipo. As cidades foram escolhidas como foco da pesquisa de 2025 por terem grande concentração populacional e serem mais vulneráveis ao impacto de temporais. Reservatórios em baixa As fortes chuvas durante o fim de tarde, no entanto, não foram capazes de melhorar o nível dos reservatórios de água da Grande São Paulo. Ontem, o Sistema Integrado Metropolitano, que reúne os sete mananciais que abastecem a região, marcava 27,74% de reserva hídrica. O índice está abaixo dos 30% ao menos desde outubro do ano passado. As medidas de restrição adotadas pelo governo paulista podem ficar mais rígidas nas próximas semanas se a chuva não atingir as áreas das represas como o projetado. No momento, a Sabesp diminui a pressão do fornecimento de água durante 10 horas diárias, para economizar água. Segundo o governo, as medidas de contenção já levaram à economia de 70,29 bilhões de litros de água, volume equivalente ao consumo de 12,33 milhões de pessoas.