Botar o bloco na rua dá um trabalho danado. Sabem bem disso os idealizadores dos 462 desfiles autorizados pela Prefeitura do Rio que se espalham pela cidade a partir de hoje — e pelos próximos 36 dias. No primeiro fim de semana, quatro cortejos oficiais abrem os trabalhos, dois deles neste sábado: Está Chegando a Hora (Pedra de Guaratiba) e Folia do Sapê (Honório Gurgel). Os foliões do festejo extraoficial já estão fazendo a festa desde o início do mês, e pelo menos outros dez deles devem dar o ar da graça até amanhã em uma esquina perto de você. Para a turma devidamente regulamentada pela Riotur, no entanto, é longo o caminho até a explosão de alegria no carnaval carioca. O trabalho de produção, em alguns casos, começa ali por abril ou maio do ano anterior. Cheiro de fumaça, funcionários de máscara e lojas ainda fechadas: como está o Shopping Tijuca duas semanas após o incêndio Onze minutos após o primeiro alerta: Imagens mostram demora de evacuação e o combate ao incêndio no shopping Tijuca R$ 330 mil para megabloco É preciso cumprir exigências de órgãos públicos — há promotores que contratam despachantes —, afinar instrumentos para ensaios e desfiles, definir a quantidade de seguranças e “cordeiros” (aqueles que mantêm músicos afastados do público, delimitando o espaço com uma corda), entre outras tarefas. Além da burocracia, desde que o samba é samba há a necessidade de levantar dinheiro. Muito, em certos casos: segundo Pedro Ernesto Marinho, presidente do Cordão da Bola Preta, o desfile do tradicional megabloco custa R$ 330 mil. Galerias Relacionadas Mais de 60% dessa despesa paga os três trios elétricos usados para fazer o som chegar à multidão. Outros R$ 100 mil vão garantir necessidades como a contratação de 200 “cordeiros”, além dos músicos. No caso do Bola Preta, cada músico leva seu instrumento, mas outras agremiações contam com equipamentos próprios. Os recursos para o desfile do bloco centenário, fundado em 1918, vêm de shows, de receita da quadra e de patrocinadores. — A realidade é que as formas de levantar recursos também mudaram. No passado, uma das principais fontes era a venda de camisas. Chegamos a vender dez mil. Hoje, quando chegamos a 400 (R$ 70, cada), a gente já comemora — conta o presidente do Bola. Uma das maneiras de viabilizar a festa é unir forças com outras agremiações, como na hora de dividir a contratação de equipamentos fundamentais. Segundo os especialistas no assunto, o melhor trio elétrico do carnaval é de uma empresa do estado de Sergipe. O veículo vem para o Rio após rodar por várias cidades do Nordeste em micaretas, festejo conhecido, não por acaso, como um carnaval fora de época. Além do som potente, tem estrutura de camarim climatizado com sofá e geladeira com lanches. — Como desfilamos no corredor Preta Gil (voltado para os megablocos, no Centro) com dias de diferença (o Bola Preta no sábado de carnaval, e o Fervo da Lud na terça-feira seguinte), passamos a usar o mesmo carro, firmando contratos distintos. Os valores saem mais em conta porque os custos para trazê-lo se diluem — explica Pedro Ernesto Marinho. Instrumentos próprios Ao contrário do que acontece com os músicos do Bola Preta, no Carmelitas (que sai em Santa Teresa, dias 13 e 17 de fevereiro) e no Monobloco (22 de fevereiro, no Circuito Preta Gil), os instrumentos pertencem às agremiações. Só para fazer manutenção e reparos, o presidente do Carmelitas calcula que terá uma despesa de R$ 12 mil antes da primeira saída. — A gente deve gastar R$ 120 mil nos desfiles. Algo que limita os custos é o fato de usarmos um carro de som pequeno, afinal um trio elétrico não cabe nas ruas do bairro. Como os músicos desfilam no chão, isso exige uma boa estrutura de segurança. Pagamos de 120 a 140 “cordeiros”, e a diária para os ritmistas profissionais é de R$ 100 — conta o presidente e fundador do Carmelitas, Alvanísio Damasceno, que, diante de dificuldades para cumprir exigências dos órgãos públicos, contratou um despachante pela primeira vez. No Monobloco, a apresentação no Circuito Preta Gil é considerada uma ‘‘formatura” dos alunos das oficinas de percussão oferecidas durante o ano. Mesmo assim, de 250 a 300 pessoas envolvidas na organização são remuneradas pela produção. Essa lista inclui músicos profissionais, que também são requisitados na Banda de Ipanema para não deixar o samba atravessar. O planejamento dos desfiles em Ipanema, nos dias 7 e 15 de fevereiro, exige reuniões que descem a detalhes: os homenageados nos cortejos deste 60º ano de desfiles serão a portelense Tia Surica e o escritor Ruy Castro. — O problema não é a rotina nesses preparativos artísticos, mas a burocracia. A gente se enquadra, mas cumprir as regras torna o desfile mais caro. Carnaval é espontaneidade. Deveria ser como no passado, espontâneo — opina Claudio Pinheiro, organizador da Banda de Ipanema. Este ano, a prefeitura ofereceu subsídios entre R$ 5 mil e R$ 50 mil para os blocos autorizados, desde que filiados a ligas. Um dos calouros da lista, o Mulheres Rodadas (extraoficial até ano passado), associou-se à Nova Liga. Os organizadores do bloco destacam que, além do auxílio em dinheiro, a oficialização, que evita a ocupação de seu trajeto por grupos informais, como aconteceu em 2025, pesou na decisão de pedir licença à prefeitura. Initial plugin text