Faltando um mês para o carnaval, o barracão da Mocidade Independente de Padre Miguel, na Cidade do Samba, na Gamboa, recebeu uma visita inusitada: a de Gustavo Andrade, filho do patrono da escola, Rogério Andrade. Aos 35 anos, Gustavo recebeu do pai — preso no presídio federal de Campo Grande (MS) desde outubro de 2024 — a missão de assumir o comando da agremiação, após a cúpula do jogo do bicho enviar um recado a Rogério exigindo que ele colocasse ordem na escola, especialmente na área financeira. Estratégia de guerra: CV ataca provedores de internet para cortar comunicação de facções rivais e afeta moradores Quase na rua: Criminosos tentam libertar chefe de facção de 'alta periculosidade' forjando alvará de soltura do STJ Gustavo convocou uma reunião com a diretoria da Mocidade na última quarta-feira (14/01). Ironicamente, o encontro ocorreu no mesmo dia em que o Bangu — time que já foi patrocinado por Castor de Andrade, tio de Rogério — quebrou um jejum de quase 24 anos ao vencer o Flamengo por 2 a 1. A presença do filho mais velho de Rogério em uma das salas administrativas mais bem decoradas da Cidade do Samba é considerada uma das mudanças mais significativas na escola nos últimos anos, período marcado por sucessivos reveses. O contraventor Rogério de Andrade Marcio Alves / Agência O Globo No carnaval do ano passado, a verde e branca de Padre Miguel escapou por pouco do rebaixamento. A mensagem da cúpula do bicho — hoje formada por contraventores mais antigos, como Anísio Abraão David, patrono da Beija-Flor, e Aílton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães, da Vila Isabel — teria sido clara: não haveria mais apoio para manter a Mocidade no Grupo Especial apenas por reconhecimento a Castor de Andrade, caso a escola continuasse sem um comando forte. Diante disso, Rogério determinou que o filho assumisse as rédeas da agremiação. Gustavo se reuniu com a vice-presidente do jurídico da escola, a advogada Valéria Stelet; com o diretor de marketing, Bryan Clem; e com outros integrantes da diretoria para anunciar sua liderança e buscar informações detalhadas sobre a administração. Com as prisões do pai — acusado de mandar matar o rival Fernando Iggnácio, em novembro de 2020 — e do então presidente da escola, Flávio da Silva Santos, o Flávio Pepé, Valéria passou a ser responsável pelas decisões administrativas e financeiras da Mocidade. Rogério e Flávio respondem a processos por organização criminosa. Segundo fontes, o atraso no repasse das subvenções da prefeitura às escolas de samba — problema enfrentado por diversas agremiações — teria sido a gota d’água para acelerar a mudança no comando. Em situações como essa, a gestão financeira precisa priorizar áreas consideradas essenciais. Na Mocidade, essa função agora está sob responsabilidade de Gustavo, que não é o primeiro filho de patrono a assumir esse papel. Casos semelhantes são os de Cátia Drumond, filha de Luiz Pacheco Drumond, o Luizinho Drumond, da Imperatriz Leopoldinense, e de Marcelo Kalil, filho de Antônio Petrus Kalil, o Turcão. Luizinho morreu em 2020, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC), e Turcão faleceu em 2019, em decorrência de pneumonia. A prisão do bicheiro Rogério Andrade Márcia Foletto/29/10/2024 Oficialmente, Flávio da Mocidade segue como presidente. A estratégia é manter o nome de Gustavo fora dos holofotes, embora ele seja, na prática, quem comanda a escola. Seu principal aliado será o diretor de marketing, Bryan Clem, enquanto Valéria permanece dedicada às questões jurídicas da agremiação. Atualmente, Gustavo responde a processo por organização criminosa no âmbito da Operação Calígula, do Ministério Público do Rio, que investiga a exploração de jogos de azar envolvendo ele e o pai. Presidente da Mocidade, homem de confiança de Rogério Andrade, diz: 'confundem a nossa vida pessoal com a da escola' Gustavo chegou a ser preso em maio de 2022, mas, ainda naquele ano, obteve no Supremo Tribunal Federal a substituição da prisão preventiva por medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica e o recolhimento domiciliar noturno e nos dias de folga. Estudante de medicina, ele segue, segundo a defesa, focado nos estudos e atualmente cursa residência médica. Quem é o bicheiro de cada escola de samba do carnaval do Rio Procurada, Valéria Stelet afirmou que continua dedicada à Mocidade: — Nada mudou. Talentos da Mocidade se reuniram em prol da agremiação para fazer um carnaval ainda melhor em 2026. Sou advogada da Mocidade e estou há 12 anos na escola. Aliança fiel: UPM no Grupo Especial, ligada a Celsinho da Vila Vintém, aumenta vínculos de Rogério Andrade na elite do carnaval Bryan Clem também reforçou o discurso de união: — Estamos unidos e focados para fazer o melhor carnaval da Mocidade.