'Dei bobeira', diz delegada presa por suspeita de elo com o PCC após atuar como advogada em audiência de custódia

A delegada Layla Ayub, presa nesta sexta-feira (16) por suspeitas de integrar a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), disse a corregedores que "deu bobeira" ao atuar como advogada de um integrante de facção dias após a posse no cargo público. Layla participou no dia 28 de dezembro de uma audiência de custódia de presos no Pará. Além disso, ela era namorada de um homem chamado Jardel Neto Pereira da Cruz, conhecido como Dedel, que já havia sido condenado por pertencer à facção criminosa e estava em liberdade condicional. Layla foi interrogada durante cinco horas por delegados da Corregedoria da Polícia, a quem relatou a "bobeira", segundo informações obtidas pelo Estadão. Investigadores disseram ao jornal que a delegada está "raivosa" com o ex-marido, que é delegado no Pará. As primeiras informações sobre o suposto elo da mulher com o crime organizado chegaram às autoridades de forma anônima. No entanto, ela acredita que o ex-companheiro teria impulsionado as denúncias ao transmitir dados sobre a atuação dela em defesa de faccionados. Leia mais: Delegada de SP presa advogou para namorado ligado ao PCC e pediu para Google apagar menções criminosas sobre ele Durante o interrogatório, Layla disse que já havia pedido o cancelamento de sua matrícula na OAB, o que ainda não teria sido oficializado. Ela reconheceu que, mesmo assim, foi à audiência de custódia. — Dei bobeira — disse. Layla atuava como advogada no Pará, mas estava morando em São Paulo. De acordo com investigações do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), ela não só tinha clientes faccionados como visitava muitos presos integrantes do PCC em Marabá, no Pará, ainda que não tivesse procuração para representar esses detentos, e isso foi um dos fatores que chamou a atenção dos promotores. A outra suspeita em relação a ela foi o relacionamento com Dedel, que era um dos líderes do PCC na Região Norte. Ele estava em liberdade condicional e não podia deixar a comarca de Marabá, mas saiu da cidade para morar em São Paulo com Layla. O GLOBO tenta encontrar as defesas. Layla era policial militar do Espírito Santo, depois se casou com um delegado e se mudou para o Pará. Lá, tirou o registro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e começou a atuar como advogada criminal. Ela conheceu Jardel quando ainda estava casada. O secretário de Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, afirmou que a investigação social não falhou porque, na época em que ela prestou e foi aprovada no concurso, “não havia nenhum apontamento contra ela”. Ele ponderou que ela ainda estava em estágio probatório, na Academia da Polícia Civil, e que as investigações seguiram durante esse período, quando foram descobertas as relações dela. — Eu não queria estar aqui nesse momento, eu queria estar com mais um aluno na academia porque a gente está precisando de delegado, mas a pessoa está num estágio probatório de três anos, e por três anos pode ser investigado. Na primeira investigação, não tinha nenhum apontamento — falou. Jardel chegou a acompanhar Layla durante sua posse como delegada, no dia 19 de dezembro, no Palácio dos Bandeirantes. Na ocasião, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) participou da posse de 524 novos delegados da Polícia Civil. Ainda de acordo com as investigações do MP-SP, Layla e Jardel estavam planejando adquirir uma padaria na Zona Leste de São Paulo, que poderia ser usada para lavagem de capitais. O casal foi preso temporariamente na manhã desta sexta-feira em uma pensão onde viviam no Jardim Bonfiglioli, Zona Oeste da capital. A prisão tem prazo de 30 dias, e nesse prazo o MP poderá pedir para a Justiça a renovação da prisão.