O secretário de Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, disse que "vários candidatos estão sendo monitorados" depois da prisão de Layla Lima Ayub por suspeitas de integrar a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Layla tomou posse em 19 de dezembro como delegada da Polícia Civil de São Paulo. Em entrevista coletiva após a deflagração da Operação Serpens, nesta sexta-feira, o secretário não detalhou a apuração para resguardar a continuidade das averiguações. — Quanto às investigações, a gente não pode revelar porque a gente tem vários outros candidatos sendo monitorados. Então a gente não pode dizer como chegou lá, mas sim, destacar a eficiência do Ministério Público e da polícia de ter, a tempo, solucionado o caso e tomado providência, cortando na própria carne — disse ele aos jornalistas. Gonçalves disse que a investigação vai continuar para identificar "todos os clientes" que Layla defendia como advogada. Não há indícios, até o momento, que a organização criminosa tenha financiado ou atuado desde a formação dela. A mulher é investigada pelos crimes de integrar ou participar de organização criminosa e lavagem de capitais. — A hipótese é que ela tenha sido cooptada no curso do contato dela com lideranças da organização em presídios no Pará. Isso se aprofundou a partir de um relacionamento amoroso com uma dessas lideranças — afirmou Carlos Gaya, promotor do Gaeco. Entre as etapas do concurso, Layla passou pela investigação social, fase eliminatória que analisa a vida pregressa do candidato — seus antecedentes, sua conduta social, seu histórico financeiro e mais — para verificar se ele tem a idoneidade moral e a reputação compatíveis com o exercício da função pública. A etapa fica a cargo do setor de inteligência policial do estado. Os responsáveis não identificaram questões que impedissem a participação no concurso de Layla. Só depois da posse a Corregedoria descobriu que ela atuava como advogada de faccionados e era namorada de um homem chamado Jardel Neto Pereira da Cruz, conhecido como Dedel, que já havia sido condenado por pertencer à facção criminosa e estava em liberdade condicional. Osvaldo Nico Gonçalves afirmou que a investigação social não falhou porque, na época em que ela prestou e foi aprovada no concurso, “não havia nenhum apontamento contra ela”. Ele ponderou que ela ainda estava em estágio probatório, na Academia da Polícia Civil, e que as investigações seguiram durante esse período, quando foram descobertas as relações dela. — Eu não queria estar aqui nesse momento, eu queria estar com mais um aluno na academia porque a gente está precisando de delegado, mas a pessoa está num estágio probatório de três anos, e por três anos pode ser investigado. Na primeira investigação, não tinha nenhum apontamento — falou. Em interrogatório, Layla disse a corregedores que "deu bobeira" ao atuar como advogada de um integrante de facção menos de dez dias após a posse no cargo público. Ela participou no dia 28 de dezembro de uma audiência de custódia de presos no Pará. Layla foi interrogada durante cinco horas por delegados da Corregedoria da Polícia, a quem relatou a "bobeira", segundo informações obtidas pelo Estadão. Investigadores disseram ao jornal que a delegada está "raivosa" com o ex-marido, que é delegado no Pará. As primeiras informações sobre o suposto elo da mulher com o crime organizado chegaram às autoridades de forma anônima. No entanto, ela acredita que o ex-companheiro teria impulsionado as denúncias ao transmitir dados sobre a atuação dela em defesa de faccionados. Leia mais: Delegada de SP presa advogou para namorado ligado ao PCC e pediu para Google apagar menções criminosas sobre ele Durante o interrogatório, Layla disse que já havia pedido o cancelamento de sua matrícula na OAB, o que ainda não teria sido oficializado. Ela reconheceu que, mesmo assim, foi à audiência de custódia. — Dei bobeira — disse. Layla atuava como advogada no Pará, mas estava morando em São Paulo. De acordo com investigações do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), ela não só tinha clientes faccionados como visitava muitos presos integrantes do PCC em Marabá, no Pará, ainda que não tivesse procuração para representar esses detentos, e isso foi um dos fatores que chamou a atenção dos promotores. A outra suspeita em relação a ela foi o relacionamento com Dedel, que era um dos líderes do PCC na Região Norte. Ele estava em liberdade condicional e não podia deixar a comarca de Marabá, mas saiu da cidade para morar em São Paulo com Layla. O GLOBO tenta contato com as defesas. Layla era policial militar do Espírito Santo, depois se casou com um delegado e se mudou para o Pará. Lá, tirou o registro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e começou a atuar como advogada criminal. Ela conheceu Jardel quando ainda estava casada. Jardel chegou a acompanhar Layla durante sua posse como delegada, no dia 19 de dezembro, no Palácio dos Bandeirantes. Na ocasião, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) participou da posse de 524 novos delegados da Polícia Civil. Ainda de acordo com as investigações do MP-SP, Layla e Jardel estavam planejando adquirir uma padaria na Zona Leste de São Paulo, que poderia ser usada para lavagem de capitais. O casal foi preso temporariamente na manhã desta sexta-feira em uma pensão onde viviam no Jardim Bonfiglioli, Zona Oeste da capital. A prisão tem prazo de 30 dias, e nesse prazo o MP poderá pedir para a Justiça a renovação da prisão.