Encaminhar reels pelo direct para aqueles não habituados. Essa é a mais nova tática para cônjuges criticarem hábitos e ideias dos parceiros com palavras de terceiros, de compartilhar risos e desgraças à distância, e evangelizar pecadores de forma menos invasiva do que entregar panfletos porta-a-porta num sábado de manhã. E foi assim que um amigo escolheu a cruzada da premissa de que cafés só devem ser tomados sem açúcar, e de preferência com técnicas ajustadíssimas de aquecimento da água e escolha dos grãos — ele embarcou na jornada barista assim como os cristãos de outra época fizeram para defender Jerusalém dos muçulmanos: com fervor e fé. Por isso que, quase diariamente, acordo com um vídeo que ele enviou para meu inbox , ora me ensinando a importância de comprar café em grãos e não moído, por outras para me ensinar por que devo enxaguar o coador de papel antes de passar o café, ou — o mais recorrente deles — por que o açúcar estraga o real gosto da bebida negra. O ímpeto do meu amigo é muito mais humor do que imposição, pois já reclamei de sua frescura cafezeira num churrasco de amigos, expondo-o em sua finesse gastronômica compulsória, agora, ele o faz questão de me irritar toda manhã. Todavia, ainda assim esse caso é ilustrativo para meu ponto: hoje existe uma ideia de que há sempre um jeito mais certo para se fazer algo, à revelia da forma que as pessoas geralmente fazem. E assim, tal como na crônica do café, já recebi vídeos de médicos instando-me a tomar água com sal integral, pois essa seria a forma correta de se tomar água; outros dizendo que homens sérios deveriam sempre andar com roupas bem alinhadas, principalmente as barras das calças; que, se repararmos bem, é bem provável que a crescente dos casos de câncer está relacionada diretamente ao glúten; e que se descobriu, após várias pesquisas inovadoras que nunca são mostradas, que o grande problema do homem moderno está na testosterona abaixo dos 1000 ng/dL. Obviamente que, depois de exporem verdades absolutas em um minuto e trinta de vídeo, ensinando como devemos nos vestir, nos relacionar, tomar café e água corretamente, no rodapé do vídeo vem um link de um curso urgente de R$ 49,90 que promete revolucionar nossas vidas. E eis a febre comum nas redes: quase todos viraram especialistas sobre como os outros devem viver, pensar, comer, vestir e rezar; todos têm um segredo revolucionário que é capaz de refazer a vida de terceiros. Todavia, como sempre digo, todo revolucionário esconde um ditador, e nem sempre um ditador terá um país para ser seu pote de Lego, às vezes ele só tem a vida de sua esposa e filhos, às vezes ele só tem a vida de seus seguidores para mandar e desmandar. Isso quer dizer que todo mundo que posta um vídeo expondo formas mais corretas de comer, se portar e pensar são microditadores? Claro que não né, larga de ser extremista. Recentemente comprei um livro porque um crítico literário insistiu que era o melhor livro que ele leu na última década, e que todos deveriam ler; deixei-me levar, fui fraco. Mas os ditadores de Instagram são perceptíveis, pois revelam uma mentalidade de controle típica dos ditadores de Estados: impõem suas visões como únicas, não aceitam dissidências e, quando alguns ousados não acatam seus mandos, eles logo tentam relegá-los aos gulags do cancelamento digital e da difamação moral, não raro insuflando seus militantes a caçá-los nas redes. Foi assim que uma influenciadora catolicíssima, a mais católica de todas, talvez a mais virtuosa já nascida depois de Nossa Senhora, afirmou com aquela veemência retórica que faria Stálin pedir calma à moça, que “gordos não passam credibilidade” simplesmente por serem gordos, pois, desenvolve a super-católica, o gordo demonstra um claro descontrole e fraqueza de vontade, e, por consequência, intemperança; o que, conclui-se por óbvio, mais cedo ou mais tarde, se tornará hipocrisia. Quando falamos de credibilidade falamos, antes de tudo, de veracidade de atos com relação a promessas e disposições de vida, e que um gordo tem um destempero — salvo situações específicas de doenças — isso é um fato; mas no campo das virtudes, a petulância, ou se quiserem, a soberba, é tão ou mais grave que a gula. Ao que consta Lúcifer não sofria de obesidade, mas de soberba incurável, aquele desejo de ser como Deus, um anseio de perfeição incurável que o levou a pensar possuir o poder de ser julgador de imperfeições universais (todos os gordos não passam credibilidade). O risco de se julgar assim, é se esquecer que ser magra, bem vestida e bonita passa credibilidade estética, mas não necessariamente ética e moral. Aliás, muitos santos diriam que a obsessão pela pureza externa costuma ocultar a corrupção interior; a Bíblia, em São Mateus 23, 27, chama isso de “sepulcro caiado”. Os ditadores de Instagram são perceptíveis | Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil No fim, os microditadores assumem um papel de senhores absolutos de verdades seletas, vomitando sentenças e dogmas com entonações e glitter de edição; assumem um impulso pedagógico coercitivo travestido de cuidado, impondo sem espaço para dissidência uma forma correta de se viver que se confunde, de forma visceral, com a forma que o promotor diz viver a própria vida. E aqui está o grande problema: o microditador confunde seu relativo sucesso, seu ajuste psicológico, nutricional, moral etc., com um imperativo universal e indistinguível. Pressupõe que só há uma forma correta de se viver, e que é seguindo o mestre, que acatando suas normas, PDFs e conselhos alcançaremos a iluminação. No fim, nos transformamos em uma espécie de Frankenstein, feitos de pedaços de verdades dos outros. O café que tomamos não é mais como queremos, pois nos ajustamos à forma correta que os outros ditaram; a roupa que vestimos não é mais a que queremos, mas as que um influenciador — que jamais me viu na vida — disse que eu devo usar; além de gordo sem crédito na praça, logo passo a ser um gordo que emagrece para agradar o destempero de uma mulher que passa o dia todo julgando as imperfeições morais do mundo. No fim, a minha autonomia se foi, agora eu sou um amontoado de outros que tomaram conta de meus hábitos, estética e até mesmo de minhas jantas. O mundo tá chato pra cacete; e não sou incólume a isso, pois apesar de resistir, hoje eu só tomo café arábico sem açúcar — meu avô, lavrador e bruto do mato, muito provavelmente está balançando negativamente a cabeça no céu. Recentemente, mandei ajustar a barra da minha calça e até emagreci, mas não por causa da moça perfeita, mas por um motivo mais digno: quero ver meu filho crescer e ter muitos netos quebrando a minha casa — além disso meu médico afirmou categoricamente que a disposição para o coito melhora em 70% ou mais. Mas não sou de todo frouxo, pois, em forma de resistência aos microditadores, mês passado ganhei dois quilos após um final de ano na casa da minha sogra em Minas Gerais — ganhei dois quilos de descredibilidade, diriam —, e tomei café extraforte com rapadura durante uma semana. E fui além, acredito que desde o jovem chinês, na Praça da Paz Celestial em 1989, não se via um enfrentamento a ditadores como eu fiz ontem: eu comi dois — não um, mas dois — pães na chapa com margarina com um selo na tampa: “alto em gordura saturada”. Leia também: "Os tentáculos do Master" , reportagem publicada na Edição 305 da Revista Oeste O post Os microditadores de Instagram apareceu primeiro em Revista Oeste .