O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) será o único chefe de Estado do Mercosul a não participar, neste sábado, em Assunção, da cerimônia de assinatura do Acordo de Associação entre o bloco sul-americano e a União Europeia, que encerra mais de duas décadas de negociações. O Brasil será representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, enquanto os demais países do Mercosul enviarão seus presidentes. A ausência ocorre um dia depois de Lula ter recebido, no Rio de Janeiro, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em um encontro simbólico para antecipar politicamente o desfecho do acordo e reforçar o protagonismo brasileiro na negociação. Ao lado da dirigente europeia, o presidente classificou o processo como resultado de “mais de 25 anos de sofrimento e tentativa” e destacou o alcance do tratado. — Amanhã, em Assunção, faremos história ao criar uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de pessoas e um PIB de mais de US$ 22 trilhões — afirmou Lula, na sexta-feira. Em Assunção, a cerimônia reunirá os presidentes do Paraguai, Santiago Peña, anfitrião do evento; da Argentina, Javier Milei; do Uruguai, Yamandú Orsi; e da Bolívia, Rodrigo Paz. Pela União Europeia, estarão Ursula von der Leyen e o presidente do Conselho Europeu, Antonio Costa. O presidente do Panamá, José Raúl Mulino, participa como convidado. A assinatura formal do acordo será feita pelos ministros das Relações Exteriores do Mercosul e pelo comissário europeu de Comércio e Segurança Econômica, Maroš Šefčovič, com os chefes de Estado atuando como testemunhas de honra. A União Europeia manteve, em 2025, a posição de segundo maior parceiro comercial do Brasil, respondendo por 14,3% das exportações brasileiras e 17,9% das importações, segundo dados compilados pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). O intercâmbio de bens entre as duas economias somou cerca de US$ 100 bilhões, em um histórico marcado por relativo equilíbrio da balança comercial ao longo das últimas duas décadas. Brasil tem participação pequena no comércio com os europeus Entre janeiro e outubro de 2025, o Brasil representou 1,47% das exportações e 1,54% das importações extra-bloco da União Europeia, enquanto, em 2024, o país ocupou a 10ª posição entre os principais parceiros comerciais do bloco europeu. Para o Cebri, o mercado brasileiro é visto como uma oportunidade relevante para a diversificação das fontes de suprimento da UE, hoje concentradas principalmente em China e Estados Unidos. A pauta exportadora brasileira para a União Europeia permanece concentrada em produtos agrícolas e alimentos, que responderam por 42,9% das vendas em 2025, com destaque para café (14,4%) e ração animal (8,3%). Também tiveram peso relevante o petróleo bruto (19,7%) e minerais e metais (15,5%). Já as exportações europeias ao Brasil são mais diversificadas, lideradas por máquinas e equipamentos (36,8%), fármacos e produtos químicos (26,1%) e veículos e suas partes (7,9%). Dentro do bloco europeu, os Países Baixos, a Espanha e a Alemanha foram os principais destinos das exportações brasileiras em 2025, enquanto Alemanha, França e Itália lideraram as vendas ao mercado brasileiro, reforçando a centralidade das grandes economias europeias no comércio bilateral. O levantamento do Cebri também destaca a dimensão econômica e estratégica do Acordo Mercosul–União Europeia, negociado desde 1999. Caso plenamente implementado, o tratado reunirá um mercado de mais de 700 milhões de pessoas e um PIB em paridade de poder de compra superior a US$ 36 trilhões, patamar comparável ao de outros grandes blocos globais. Para o embaixador Roberto Jaguaribe, conselheiro da entidade, o acordo assume um significado que vai além da dimensão comercial. — Trata-se de um marco de grande relevância para as duas regiões, em um momento de incertezas e mudanças no cenário global, que realçam seu valor político, econômico e jurídico — diz. — A magnitude da nova área de livre comércio, a convergência de valores fundamentais e a perspectiva de revitalização de um eixo de dinamismo econômico ampliam o alcance do acordo.