Após mais de duas décadas de negociações, a União Europeia e o Mercosul assinaram, no Paraguai, o acordo comercial que pretende integrar mercados, reduzir tarifas, e ampliar o fluxo de bens e investimentos entre a América do Sul e a zona do euro. O tratado vai facilitar o trânsito de mercadorias e serviços entre os 27 Estados-membros da UE e os países do bloco econômico sul-americano. Essa negociação começou a ser negociado em 1999, mas só alcançou um entendimento entre as partes em 2019. Desde então, a parceria formal vem sendo costurada política e juridicamente, apesar das resistências principalmente por parte de agricultores franceses, que temem perder mercado para os produtos do Mercosul. Em números, o acordo vai criar um mercado comum que abrange cerca de 720 milhões de pessoas e representará um Produto Interno Bruto (PIB) de mais de 22,4 trilhões de dólares (cerca de R$ 118 trilhões). Segundo o Ministério das Relações Exteriores (MRE), o tratado deverá injetar, em cerca de dez anos, R$ 37 bilhões na economia brasileira. A implementação, no entanto, requer aprovação do Parlamento Europeu e dos congressos dos quatro países sul-americanos. Por conta disso, o processo é mais complicado do que parece. Líderes do Mercosul e da UE participam da assinatura do acordo histórico. AFP Vão assinar dois documentos Os envolvidos vão assinar, na verdade, dois documentos: O Acordo Comercial Provisório (ITA, na sigla em inglês), que abrange apenas o comércio; e o Acordo de Parceria UE-Mercosul (EMPA), que engloba a cooperação política e setorial, além de comércio e investimentos. Para o ITA, esse processo deverá ser mera formalidade, ao menos para os deputados de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai; mas precisará de tempo. Em Brasília, por exemplo, o Planalto deverá enviar um projeto de lei, que será submetido a comissões específicas antes de ir ao plenário da Câmara e do Senado para receber a aprovação final e ser ratificado pelo presidente da República. De acordo com o vice-presidente, Geraldo Alckmin, isso deverá acontecer no segundo semestre de 2026. Na Europa, no entanto, o trâmite poderá enfrentar obstáculos, principalmente por parte dos eurodeputados de países como França, Hungria e Polônia, mesmo que seja necessário apenas votos de uma maioria simples dos parlamentares. Esse instrumento não precisa passar pelos parlamentos nacionais de cada um dos países da União Europeia e já proporciona uma redução nas tarifas entre ambos os blocos. Mas as discussões podem ainda durar meses até que haja um consenso. De acordo com a agência de notícias Reuters, a votação final deverá ocorrer até maio. Se o ITA for aprovado, o acordo Mercosul-UE começa a vigorar na prática. Caminho bem mais longo Acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul é aprovado depois de 26 anos de negociação Reprodução/TV Globo Para que o tratado completo previsto no EMPA seja concretizado, a rota será bem mais longa. Esse instrumento só será efetivado permanentemente após a aprovação por todos os parlamentos nacionais dos 27 Estados-membros da União Europeia, além das quatro nações do Mercosul. Em alguns países, como a Bélgica, o acordo também terá que ser votado por parlamentos regionais. Nesse caso, as dúvidas sobre quando e se o EMPA entrará em vigor aumentam. Para se ter uma ideia, um acordo de livre-comércio entre União Europeia e Canadá, assinado em 2016 e que entrou em vigor com um instrumento provisório similar no ano seguinte, ainda espera a aprovação pelos parlamentares nacionais de dez membros do bloco europeu. Mas o acordo provisório ainda poderá enfrentar outros obstáculos, mais especificamente no território legal. Um grupo de 145 deputados afirma que os termos do ITA precisam ser submetidos a um parecer do Tribunal de Justiça da União Europeia antes de o projeto ir a plenário. O Parlamento Europeu votará na próxima semana a resolução para que esse pedido de análise do tratado seja enviado ao tribunal. Se aprovado, o processo pode atrasar até mesmo a efetivação do instrumento provisório do acordo. Os opositores criticam o chamado "mecanismo de compensação", que permitiria, por exemplo, que países do Mercosul exigissem alterações ao acordo caso políticas da UE afetem suas exportações e pedem que o acordo comercial não entre em vigor antes da ratificação completa por todos os países da UE. Apoio da maior economia da Europa Na Alemanha, terceira maior economia do mundo e o país mais rico da Europa, o acordo vem sendo defendido praticamente sem ressalvas pelo governo do chanceler federal Friedrich Merz. Segundo ele, o tratado é um "marco na política comercial europeia e um importante sinal da nosssa soberania estratégica e capacidade de ação". Já o ministro das Finanças alemão, Lars Klingbeil, utilizou os avanços no acordo com o Mercosul para criticar a política de sobretaxas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. "Enquanto outros se fecham e seguem uma política comercial cada vez mais agressiva, nós apostamos em novas parcerias". Segundo um estudo do instituto Ifo, encomendado pela Iniciativa Nova Economia Social de Mercado (Initiative Neue Soziale Marktwirtschaft), o tratado econômico com os países sul-americanos deve gerar um incremento de 4,1% nas exportações alemãs e um aumento de até 0,5% do PIB na Alemanha. Veja quais são os países envolvidos no Acordo UE-Mercosul. Arte/g1