O primeiro longo ano: Trump 2.0 abraça intervencionismo para impor 'realismo predador' ao mundo

Em seu retorno ao poder, Donald Trump investiu muito mais na redefinição da política externa dos Estados Unidos do que o previsto. Eleito por uma coalizão conservadora com base isolacionista, no primeiro ano do Trump 2.0 o republicano bombardeou o Irã e alvos do Estado Islâmico. Na América Latina, pairou em pleitos na Argentina, Chile, Bolívia e Honduras, questionou decisões do Judiciário brasileiro, atacou embarcações no Caribe e no Pacífico que causaram a morte de ao menos 107 pessoas e, no último dia 3, ordenou a captura cinematográfica do ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores, presos em Nova York, acusados de narcoterrorismo. No Oriente Médio: Mobilização militar dos EUA no Caribe e impossibilidade de derrubar regime forçam recálculo de Trump sobre o Irã No front interno: Aumento da violência em operações anti-imigrantes nos EUA põe táticas do ICE em xeque e expõe falhas em recrutamento O ataque inédito de Washington a um país sul-americano não foi precedido por consultas ao Conselho de Segurança das Nações Unidas ou ao Capitólio. Após comunicar que gerenciaria Caracas de Washington, Trump já ameaçou Cuba, Colômbia, México, Groenlândia e Irã. Ao New York Times, o presidente dos EUA, que na terça-feira completa um ano de seu segundo mandato e acaba de anunciar a retirada do país de 66 organismos internacionais, sintetizou seu desdém pelo multilateralismo: “Não preciso do direito internacional”. Pesquisador-chefe da ONG Centro de Ética e Políticas Públicas, Henry Olsen destacou ao The Guardian o peso das movimentações além-fronteira de Washington: “Não esperava que o Trump 2.0 fosse mais definido pela seara externa do que pela interna. Foi o caso.” Ao GLOBO, Michael Montgomery, catedrático da Universidade de Michigan-Dearborn, destacou o maior protagonismo do secretário de Estado, Marco Rubio, com consequências diretas para a América Latina. Análise: Em tempos de 'Doutrina Donroe', Trump aponta 'big stick' para Maduro e marca política externa para negócios Foi o ex-senador descendente de cubanos, defende Montgomery, quem avançou mais casas no Trump 2.0, com força consolidada após o anúncio, mês passado, da nova Estratégia de Segurança Nacional. Com o corolário Trump à Doutrina Monroe, a da “América para os americanos”, o documento, apelidado de Doutrina Donroe, redireciona a atenção militar e econômica dos EUA para o Hemisfério Ocidental, o que foi posto à prova com sucesso, pela ótica da Casa Branca, na captura de Maduro e Flores. Rubio, que acumula o comando da diplomacia americana com o Conselho de Segurança Nacional, foi central na argumentação, sem provas, de que os ataques na região são respostas ao tráfico de drogas e à imigração ilegal para os EUA, demandas da Justiça americana. A apresentação de um esboço de plano pós-Maduro que prioriza a exploração econômica, com o chavismo no poder, e deixa como coadjuvante a redemocratização da Venezuela, enfatiza o contraste entre o realismo predador trumpista e as custosas ocupações de Iraque e Afeganistão, condenadas pelo movimento Façam os EUA Grandes Novamente (Maga, na sigla em inglês). – Se alguém saiu mais forte no primeiro ano do Trump 2.0, foi Rubio — afirmou o acadêmico. Veja, abaixo, as principais características da política externa do republicano no primeiro ano do segundo mandato. Initial plugin text UM ANO DE TRUMP 2.0 NO MUNDO UNILITERALISMO E ZONAS DE INFLUÊNCIA A política externa do Trump 2.0 abandonou a ordem global cristalizada após o fim da Segunda Guerra Mundial, da qual os EUA foram os principais beneficiários. A maior potência militar do planeta estende o conceito de “America first” para o Hemisfério Ocidental e favorece o estabelecimento de zonas de influência globais, com China e Rússia menos pressionadas em suas vizinhanças. Multiplicam-se riscos de conflitos sem mediação da ONU. DOUTRINA DONROE Washington busca impedir potências rivais de controlar “ativos estratégicos”, “infraestrutura crítica” e “militar” nas Américas, em recado à China. Os planejamentos militar e econômico para a região foram reestruturados e a formulação posta em prática, com ataques no Caribe, no Pacífico e à Venezuela, com legalidade contestada internamente e no direito internacional. A queda de Maduro e o controle do país por coerção, com a manutenção do comando chavista, explicitou o método encontrado para justificar a intervenção aos eleitores americanos. Sai a construção da democracia, bandeira neoconservadora, entram a exploração do petróleo e demais riquezas em benefício dos americanos e o combate à entrada de drogas e imigrantes em situação irregular nos EUA. Assume-se a posição de xerife das Américas, com adversários locais, como Cuba e Nicarágua, e países com a presença do narcotráfico, entre eles México e Colômbia, como alvos prioritários. Pesquisa: Quase um ano depois, percepção de ameaças sob Trump 2.0 impulsiona 'China first' BRASIL E TARIFAÇOS Brasília penou para estabelecer diálogo com a diplomacia pouco convencional do Trump 2.0 e levar a discussão dos tarifaços para a realidade econômica, com o superávit americano na balança comercial. Para driblar a tentativa de interferência de Washington em decisões do Supremo Tribunal Federal que puniram o ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, e as que miram a regulamentação das big tech americanas, foram centrais as movimentações de ministros e empresários dos dois países. Para se reverter a penalização, que chegou a 50%, também ajudou o encontro “com química” entre os presidentes Trump e Lula na Assembleia-Geral da ONU. Mas o ataque à Venezuela e o dar de ombros ao multilateralismo, que incluiu o boicote à COP30, sediada em Belém, foram condenados pelo Brasil, que só tem a perder em um mundo regido pela lei do mais forte. Entrevista: Improviso de golpe dos EUA na Venezuela cria enormes desafios, diz embaixador Thomas Shannon EUROPA E OTAN Apresentada como “continente em decadência” na Estratégia de Segurança Nacional, a Europa termina o primeiro ano do Trump 2.0 com outra dor de cabeça — a obsessão de Washington em anexar a Groenlândia, território associado à Dinamarca, membro da Otan, rico em minerais e terras raras. Escanteada pelo republicano nas negociações sobre a invasão russa da Ucrânia, que completará quatro anos em fevereiro, coagida em diminuir a dependência militar dos EUA, a União Europeia teve como ponto positivo o avanço, após 25 anos, do Tratado de Livre Comércio com o Mercosul, respiro ao unilateralismo trumpista. UCRÂNIA E RÚSSIA As negociações entre Kiev e Moscou intermediadas por Washington tiveram como efeito prático o reposicionamento de Vladimir Putin no tabuleiro global. O russo foi recebido com tapete vermelho no Alasca e o plano de paz elaborado pelo Trump 2.0 favorece os invasores, com perda territorial da Ucrânia, indefinição sobre a segurança do país após o cessar-fogo e desatenção aos 20 mil menores capturados pela Rússia. Humilhado publicamente por Trump em reunião na Casa Branca, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelesnky, quer debate direto com Putin sobre temas delicados, entre eles a administração da usina nuclear de Zaporíjia. ORIENTE MÉDIO Maior tento diplomático do Trump 2.0, que lhe fez demandar o Prêmio Nobel da Paz, o cessar-fogo em Gaza foi assinado em outubro do ano passado após a devastação do enclave. Desde o ataque do Hamas, que deixou quase matou 1.200 pessoas e sequestrou 251 em outubro de 2023, mais de 71 mil palestinos padeceram na investida israelense. Milhares ainda passam fome. O governo Trump conseguiu, após o ataque de Israel a líderes do Hamas no Catar, agilizar a troca de reféns, prisioneiros e restos mortais, diminuir a intensidade do conflito e aumentar a ajuda humanitária. Mas não houve avanço para uma paz duradoura. Em junho, Washington ajudou Israel na guerra do aliado com o Irã e bombardeou o país, em ataque celebrado pela Casa Branca como cirúrgico, com a alegada destruição do aparato nuclear do rival. Trump ameaça intervir novamente para apoiar os manifestantes antigoverno. 'Patético', 'insólito' e 'ridículo': Noruegueses criticam María Corina por entregar Nobel da Paz a Trump CHINA Maior competidor do Trump 2.0, Pequim enfrentou o tarifaço sem baixar a cabeça e aproveitou o vácuo global do “America first” para aprovar tratados de livre comércio e defender a globalização, apresentando-se como parceira confiável em oposição à imprevisibilidade de Washington. Os EUA disputam com a China os avanços em tecnologias de ponta, como a inteligência artificial, mas, com a lupa posicionada para o controle do mercado de petróleo, oferecem ao rival a liderança na transformação energética, crucial para a América Latina. O ataque à Venezuela abriu precedente perigoso para eventual invasão chinesa a Taiwan, estratégica por sua dominação na fabricação de semicondutores avançados.