'Pode não ser o último episódio, mas se a República Islâmica permanecer como está, é uma bomba-relógio', diz analista iraniana

Embora os atuais protestos no Irã venham sendo tratados como o maior desafio interno ao regime dos aiatolás em anos, a professora iraniana Sara Bazoobandi aponta as manifestações como o episódio mais recente de um movimento de insatisfação mais longo e com raízes profundas no país. Em entrevista ao GLOBO, a doutora em Economia Política do Oriente Médio pela Universidade de Exeter, no Reino Unido, e pesquisadora não-residente do Centro de Análise de Conflitos e Gestão de Crises da Universidade de Kiel, na Alemanha, afirmou que a insatisfação doméstica é uma ameaça real à Revolução Islâmica, mas que a expertise de repressão do regime teocrático — enfraquecido pelos golpes desferidos por EUA e Israel no ano passado — ainda é uma barreira para a população civil. Leia a entrevista: Guga Chacra: Regime do Irã enfraquecido, mas não em colapso 'É como um filme de guerra': Hospital no Irã registra mais de 400 feridos com tiros nos olhos em meio a repressão a protestos O regime iraniano corre risco real de cair com os protestos? O regime corre risco de ser deposto, mas talvez não imediatamente. Quando eu falo com iranianos que estão nas ruas agora, e estiveram nas ruas em 2019, eles me dizem que todo mundo está contando os dias desde aquele levante, e que já percorreram um longo caminho. Tem sido uma longa batalha. Esse pode não ser o último episódio, mas se a República Islâmica permanecer como está, com todas as suas estratégias domésticas e internacionais, certamente é uma bomba-relógio prestes a explodir. Quando isso vai acontecer? Não faço ideia. O que torna o regime iraniano tão resistente a contestações internas e por que é tão difícil vermos deserções entre forças de segurança e no governo? Initial plugin text Violência e morte. Se você analisar o histórico do regime, não há um único meio violento que eles [líderes iranianos] não tenham explorado. Eles atiraram nos olhos de pessoas, torturaram, prenderam, executaram, estupraram, mataram, fizeram de tudo. Enquanto estiverem dispostos a usar todos esses meios indefinidamente e sem limites, provavelmente permanecerão no poder. Foi assim que Bashar al-Assad e seu pai se mantiveram no poder na Síria por muito tempo. Qual foi o impacto dos ataques americanos e israelenses no ano passado sobre o regime? É possível dizer que eles enfraqueceram o Irã internamente e externamente? O impacto da guerra entre Israel, EUA e Irã em junho foi realmente imenso. Muitas das pessoas que estão nas ruas protestando contra o governo agora, acreditaram na época dos ataques que eles iriam derrubar o regime. Os bombardeios expuseram a fragilidade do regime: Embora se mantenha "poderoso" frente a civis desarmados, regime é extremamente fraco contra potências globais. Portanto, esse episódio realmente destacou a fragilidade do regime e encorajou os dissidentes iranianos a irem às ruas desta vez. Galerias Relacionadas Alguns analistas argumentam que o nível da repressão é uma tentativa de um regime enfraquecido demonstrar força. Você concorda com essa linha de raciocínio? Sim, eu concordo totalmente. Eu acredito que o regime é consciente de suas fragilidades e que está a par de que perdeu completamente sua legitimidade. Entretanto, o regime tem 14 anos de experiência na Síria. Bashar al-Assad controlou metade do país e incendiou a outra metade. A República Islâmica está disposta a matar até o último manifestante, o último iraniano que se oponha a ela dentro e fora do Irã. E enquanto estiver disposta a fazer isso, derrubá-la sem qualquer tipo de poder externo será muito difícil. Sara Bazoobandi, pesquisadora não-residente do Centro de Análise de Conflitos e Gestão de Crises da Universidade de Kiel, na Alemanha Divulgação O presidente dos EUA, Donald Trump, está ameaçando tomar medidas contra o Irã. Existe alguma possibilidade real de ele impor uma mudança de regime ou reformas? É muito difícil entender o que Trump realmente pretende fazer. Ele é um mestre em dar sinais contraditórios. O que posso dizer é que não consigo prever se haverá alguma ação militar aprovada pelo governo dos EUA nos próximos dias, algo que muitas pessoas começaram a especular. Por outro lado, Trump parece muito determinado a pressionar o governo iraniano, e parece estar funcionando. Em uma entrevista recente concedida pelo ministro das Relações Exteriores da República Islâmica, ele basicamente afirmou que não haverá execuções. É um sinal do impacto real e rápido da estratégia de Trump. O que vem depois disso não está claro. Os EUA têm algum plano para algum grupo específico dentro da oposição iraniana ou estão abertos a todas as possibilidades? Eu realmente não sei. Qual seria o impacto para o Irã se os EUA lançassem uma operação similar a que ocorreu na Venezuela contra Nicolás Maduro, mas tendo o aiatolá Ali Khamenei como alvo? Para ser honesta, [o cenário] Maduro é o meu maior pesadelo, pessoalmente, porque mesmo que ele tenha sido capturado e a operação que levou à captura seja impressionante ao extremo, qual foi o impacto para os venezuelanos comuns? Qual foi o impacto para a economia ou para o sistema político da Venezuela? Isso levou ou está levando o país para uma democracia? Tudo isso ainda está para ser visto, mas se os EUA fizerem no Irã o mesmo que na Venezuela e levarem o Líder Supremo, o presidente ou mesmo alguns líderes da Guarda Revolucionária, se o sistema permanecer intacto, isso não vai ser uma vitória para o povo do Irã. Por que o Irã vive a maior onda de protestos desde 2022? Por que alguns rivais regionais do Irã, como a Arábia Saudita, temem uma ação contra o Irã neste momento? Eles fizeram o mesmo da última vez. Os cataris salvaram o governo iraniano em junho, intermediaram o fim da crise entre Teerã e Washington. Há várias razões para isso, mas se você perguntar a cidadãos iranianos comuns porque os sauditas, os emiratis e os cataris estão intermediando para manter a República Islâmica no Irã, eles dirão que é porque não querem ver um Irã próspero e livre. Se você perguntar aos próprios formuladores de políticas no Golfo, eles dirão: "Não precisamos de mais crises, não precisamos de mais desestabilização". Acontece que o que está completamente ausente em tudo isso é a atuação do povo iraniano. Foram eles que iniciaram esta revolta, e são eles que querem ver a República Islâmica desaparecer. Infelizmente, parece que chegaram a mais um beco sem saída, e a decisão final está fora de seu alcance. Alguma facção da oposição ou ramo do governo tem capacidade para assumir o poder após um possível colapso e mudar a estrutura do regime? Sim. Há uma luta interna pelo poder há muito tempo, ao longo dos últimos anos. As partes têm capacidade para assumir o poder político, mas nenhuma das pessoas do atual governo inspira confiança nos manifestantes, e nenhuma delas parece disposta a promover mudanças ou reformas significativas. Se alguém de dentro do sistema assumisse o poder, teríamos uma República Islâmica 2.0. Seria a mesma coisa de sempre, apenas com um grupo de pessoas ligeiramente diferente, e não é isso que os manifestantes querem.