O futuro já começou: final Senegal x Marrocos marca transição do futebol africano de promessa para realidade

“Hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa, é de quem quiser, quem vier”. O refrão de “Um novo tempo”, música que embala o clima das festas de fim de ano, escrita por Nelson Motta, Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, é um bom resumo para a mais bem-sucedida Copa Africana de Nações de todos os tempos, que embalou o fim de 2025 e o início de 2026 e terá sua decisão hoje, às 16h, entre Senegal e Marrocos, no estádio Príncipe Moulay Abdellah, em Rabat. Confronto que colocará frente a frente dois ícones de gerações diferentes: Sadio Mané e Hakimi. Um está no seu último jogo de CAN, capitão e herói de um título inédito em 2021, foi ídolo no Liverpool e é um espelho para toda uma nova geração de jovens talentos que despontam em Senegal. O outro é o atual jogador africano do ano, multicampeão pelo PSG, capitão e símbolo do melhor projeto de futebol do continente africano. A festa da africanidade com a bola nos pés se apresentou como uma competição de nível e interesse global. Seja pelo futebol jogado por atletas que estão nas principais ligas do mundo, seja pela infraestrutura, com estádios modernos, gramados em perfeito estado, hotéis cinco estrelas e campos de treinamento para cada seleção, geração de imagens de transmissão para 180 países em 4K HDR e “spider cam” em todos os estádios, ou pelos cerca de 1 milhão de turistas gerados pelo torneio. Marrocos elevou o nível do que se espera de uma CAN e se mostrou um país pronto para receber a Copa do Mundo de 2030 — será sede ao lado de Espanha e Portugal. Além de tudo o que já vimos na atual edição da maior competição de seleções em África, o reino está construindo o estádio Hassan II, que será o maior do mundo, com capacidade para 115 mil espectadores e é o principal concorrente do Santiago Bernabéu para abrigar a final do Mundial. "Nesses novos dias as alegrias serão de todos" A Copa Africana das Nações passou por uma transformação histórica nas últimas edições. Com a crescente globalização do futebol e os jogadores africanos cada vez mais valorizados em grandes ligas, o jogo em África também mudou. Seleções que, antes, eram definidas como “físicas” — narrativa errônea e simplória — hoje são o resultado de diferentes metodologias que envolvem cultura, identidade e projeto de futebol. Pela quarta vez consecutiva, um técnico africano será o comandante da seleção campeã do continente. Walid Regragui, do Marrocos, e Pape Thiaw, de Senegal, são dois exemplos de que, mesmo em tempos de globalização e interação do futebol africano com o resto do mundo e, principalmente, com sua diáspora, reafirmam que África não precisa mais de “salvadores”, o que reforça um movimento que ficou latente na Copa do Mundo de 2022. Pape Thiaw e Walid Regragui, técnicos de Senegal e Marrocos, respectivamente AFP Do norte ao sul do continente africano, existe uma variedade de escolas e modelos táticos que não se enquadram em padrões por região ou etnia. A CAN mostrou que o futebol de cada país é também uma manifestação de sua cultura, orgulho e identidade. Sudaneses e congoleses-democráticos enfrentando guerras civis em seus países; burquinenses e malineses sob regimes militares autoritários; nigerianos e egípcios em países poderosos e influentes em suas regiões e em toda África: todos têm escolas completamente diferentes entre si. A campanha histórica do Marrocos na semifinal da Copa do Mundo de 2022 e a seleção de Senegal em 2025, dona da maior invencibilidade entre seleções no mundo (26 jogos), atestam uma realidade: África não é o futuro. África é o presente e reivindica o seu direito de olhar nos olhos de qualquer um. Todos nossos sonhos serão verdade O último ato da maior Copa Africana de Nações de todos os tempos coloca os dois maiores expoentes daquilo que África vem se preparando para ser no cenário mundial. Marrocos e Senegal eram, desde o início, os favoritos para disputarem o jogo mais importante do torneio. Entre protagonistas e coadjuvantes de luxo, ambas as seleções têm argumentos dentro das quatro linhas para acreditar que vão levantar a taça e histórias fora dos gramados para fazer da conquista o símbolo da consolidação de algo muito maior que um elenco de 28 jogadores. Marrocos joga o melhor futebol do continente há algum tempo. Engana-se quem vê a seleção do Magrebe como um time defensivo e com dificuldades de assumir o protagonismo das partidas. A campanha no torneio mostra uma seleção dominante, habilidosa e ofensiva: terceiro melhor ataque da competição, com nove gols marcados; segunda maior média de posse de bola e média de chutes por jogo; e top 3 em chances criadas. Os Leões do Atlas têm o artilheiro do campeonato, Brahim Díaz, que, em seus primeiros cinco jogos, anotou cinco gols, sendo decisivo para a caminhada até a final, assim como o “ciclista” El Kaabi, com três gols anotados, sendo dois de bicicleta. O protagonista, Hakimi, voltando de lesão no tornozelo, só apareceu na segunda fase. Mas assumiu seu status de capitão e símbolo da maior geração da história do futebol marroquino. No campo e bola, é líder da equipe em passes progressivos e média de chances criadas por 90 minutos. A taça será a consolidação de um projeto de futebol frutífero. Brahim Díaz, do Real Madrid, e Hakimi, do PSG; estrelas do Marrocos estão em gigantes europeus SEBASTIEN BOZON / AFP Senegal tem o elenco mais estrelado entre as 24 seleções participantes. Jogadores que são presença certa nas melhores ligas da Europa, sendo seis da Premier League. Um time jovem, habilidoso e que é o segundo nos rankings de melhor ataque e defesa do torneio. A grande estrela, Sadio Mané, foi decisivo, marcando três gols e sempre nos momentos mais complicados para os Leões de Teranga. O craque senegalês já anunciou que essa é a sua última dança na CAN e quer coroá-la levando mais uma taça para Dakar e passar o bastão para uma incrível nova geração que tem ânsia e capacidade de fazer história. Senegal de Sadio Mané bateu Egito de Mohamed Salah na semifinal. Os dois foram companheiros no Liverpool SEBASTIEN BOZON / AFP A CAN é o último aviso para aqueles que não entenderam que África se assentará à mesa dos grandes do futebol mundial. Marrocos e Senegal não são surpresa. São realidades, são a África do presente, o futuro que começou. *Marcus Carvalho e Luis Fernando Filho são comentaristas da CAN na Cazé TV e na Band, respectivamente. Ambos fazem parte do Ponta de Lança, um projeto multimídia que analisa e conta histórias do futebol e da cultura do continente africano.