Por muito tempo, nos ensinaram que a cultura acontece fora de casa — nos museus, nas ruas, nos grandes eventos. Mas a vida me ensinou o contrário. A cultura nasce no íntimo. No gesto cotidiano, no tempo lento, naquilo que se repete sem alarde. A Varanda Chermoula, meu restaurante em Itaquera, São Paulo, surge exatamente desse entendimento: a casa como território cultural vivo. Sempre acreditei que cozinhar, cultivar, receber e compartilhar não são apenas ações domésticas, mas práticas sociais profundas. A antropologia da alimentação me ajudou a nomear algo que eu já sentia no corpo: a comida organiza relações, constrói memória e produz pertencimento. É na casa que aprendemos a sentir o mundo — e é ali que a cultura se transmite, muitas vezes sem palavras. A Varanda Chermoula nasce do espaço doméstico, especialmente da varanda, esse lugar de passagem entre dentro e fora, entre o privado e o coletivo. A varanda é limiar. É onde a casa respira, onde o tempo desacelera, onde o encontro acontece sem pressa. Transformar esse espaço em projeto é, para mim, um gesto político e afetivo. Chef Aline Chermoula Acervo Pessoal Na antropologia, a casa é compreendida como um espaço de produção simbólica. Claude Lévi-Strauss já apontava que as estruturas familiares não organizam apenas o parentesco, mas também valores, saberes e formas de existir. É dentro da casa que esses sistemas ganham corpo: nos cheiros da cozinha, nos rituais cotidianos, na mesa posta sem ocasião especial. O afeto, nesse contexto, não é apenas emoção — é prática cultural. A sociologia da vida cotidiana, especialmente em autores como Michel de Certeau, nos convida a olhar para os gestos simples como formas de resistência. Cozinhar em casa, receber pessoas, sentar para comer juntos são atos que desafiam a lógica da aceleração, do consumo imediato e da desconexão. São maneiras de afirmar o cuidado, a presença e a escuta como valores centrais. A Chermoula, que dá nome ao projeto, não é apenas uma referência culinária. É uma filosofia. Um tempero que carrega mistura, travessia e tempo. Assim como ele, meu trabalho se constrói por camadas: memória, ancestralidade, pesquisa e cotidiano. As receitas que nascem na Varanda Chermoula dialogam com tradições afro-diaspóricas, mediterrâneas e brasileiras — não como reprodução fiel, mas como escuta viva. A tradição aqui não é estática; ela se move, se adapta, respira. A memória, nesse território, não está guardada em arquivos formais. Ela vive nos sabores, nos modos de fazer, nos gestos aprendidos observando. A antropologia da alimentação reconhece a cozinha como um dos principais espaços de socialização. É ali que aprendemos sobre tempo, espera, partilha e afeto. Cada prato carrega histórias de migração, de escassez, de celebração e de amor. Varanda Chermoula Acervo Pessoal A Varanda Chermoula se propõe como um arquivo vivo. Um espaço onde o íntimo não é escondido, mas valorizado. Onde a casa deixa de ser apenas refúgio e se torna linguagem. Onde receber é um ato de cuidado e cozinhar é uma forma de narrar o mundo. Em um tempo em que tudo parece precisar ser performático, público e imediato, escolher o cotidiano como centro é um gesto radical. Acredito profundamente que a cultura se mantém viva quando honramos aquilo que nos sustenta em silêncio: a casa, a memória, o afeto e o tempo compartilhado. Meu espaço é isso: uma forma de existir, de cozinhar e de contar histórias a partir do íntimo. Porque é na casa que a cultura respira. E é na memória que ela encontra continuidade. Para participar é preciso fazer reserva Acervo Pessoal Aqui vai uma receita simples, afetiva e cheia de memória, pensada para acompanhar o artigo e dialogar com a ideia de casa como território cultural ? Bolo de Afeto (daqueles que a casa reconhece pelo cheiro) Bolo de afeto, da chef Aline Chermoula Acervo Pessoal Esse é um bolo que não pede ocasião. Ele nasce do cotidiano, do café passado sem pressa, da cozinha habitada. É receita de casa viva. Ingredientes • 3 ovos • 1 xícara de açúcar • ½ xícara de óleo ou manteiga derretida • 1 xícara de leite • 2 xícaras de farinha de trigo • 1 colher de sopa de fermento em pó • 1 pitada de sal • Opcional: raspas de limão ou laranja, ou 1 colher de chá de canela Modo de preparo • Em uma tigela, bata os ovos com o açúcar até clarear. • Acrescente o óleo (ou manteiga) e o leite, misturando com calma. • Incorpore a farinha aos poucos, junto com a pitada de sal. • Finalize com o fermento, mexendo delicadamente. • Leve ao forno pré-aquecido a 180 °C por cerca de 35 a 40 minutos, até dourar e perfumar a casa inteira. Como servir Sirva ainda morno, com café coado na hora ou chá feito sem pressa. Esse bolo não precisa de cobertura — ele se sustenta na memória. Receita de casa não é sobre precisão. É sobre repetição, cuidado e presença. Serviço - Varanda Chermoula Varanda Chermoula Acervo Pessoal A Recepção na Varanda Chermoula é um serviço gastronômico intimista, realizado em ambiente acolhedor e cuidadosamente pensado para valorizar o tempo, os ingredientes e o encontro. Com menu autoral e sazonal, a experiência acontece exclusivamente mediante reserva, em pequenos grupos, garantindo atenção a cada detalhe. Há opções de almoço ou jantar, com datas abertas conforme disponibilidade da agenda — próximas recepções em 31/01 (jantar), 07/02 (almoço) e 08/03 (almoço). As reservas são feitas exclusivamente via WhatsApp, pelo número (11) 97242-3169. Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Brasil. Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!