Da infância ao poder: a formação emocional de Donald Trump

Tenho acompanhado todas as análises sobre as ações do presidente-imperador, uma vez que os Estados Unidos influenciam nossa moeda, nosso mercado, nosso futuro. Mas não sou especialista em política, apenas uma aventureira na arte de especular sobre a condição humana. Daí que me interessa, mesmo, é imaginar a criança que Donald Trump foi. Informações biográficas falam de um menino “boca suja”, que teria ferido um professor ao jogar um apagador em seu rosto e que jogava bolo nos convidados de suas festas. Em razão da rebeldia, seu pai o tirou do colégio aos 13 anos e o internou em uma escola militar. Isso ainda diz pouco sobre sua infância, por isso divago por conta própria sobre como o pequeno Donald se sentia antes mesmo de ser um mocinho de 13 (ou um bandidinho de 13). Meus devaneios voltam àquele Donald de calça curta, quarto filho de Fred e Mary, que só não foi a rapa do tacho porque veio outro irmão depois. Uma coisa se sabe: o pivetinho queria ser alguém. Horrorizava-se com a ideia de ser mais um (os obcecados em se tornar especiais para todo o universo, curiosamente, não conseguem se tornar especiais nem para dois ou três). “Um dia serei famoso”, profetizou. Qual o caminho mais rápido para se sentir “alguém”? Decidir destinos. Mandar. Nisso está incluída a pulsão para demitir. Basta revê-lo em ação no antigo programa “O aprendiz”. Percebe-se o prazer íntimo com que eliminava os candidatos. Era, já naquela época, o mesmo tirano que hoje saliva ao expulsar imigrantes. Atualmente, com o dedo em riste (o gesto que mimetiza uma arma apontada), justifica seus atos usando uma linguagem de garoto iletrado. É só acompanhar seus pronunciamentos. “Fulano é mau.” “Não foi legal o que ele disse.” “Ele não devia ter feito o que fez.” O nível da argumentação dificilmente se aprofunda. Donaldzinho saiu do colégio cedo demais, coitado. A partir de então, aprendeu somente a olhar feio para os coleguinhas e a dar ordens. Afunda barquinhos, ameaça e captura inimigos, rouba o que é dos outros — adora brincar de ser o dono do planeta. Justiça seja feita: lucra bastante com isso. Alguns idiotas o imitam, mas Donaldzinho não foge à regra dos bagunceiros notórios: ele atrai bajuladores e depois os despreza. Vai fazer 80 anos em junho e continua o mesmo garoto problemático da escola, que seduz meninas para usá-las como troféus e que trata os mais sábios com desrespeito, mantendo o queixinho empinado, crente de que está abafando. A morte não lhe mete medo, criança não pensa em morte. Crescer, sim, lhe exigiria bravura. Trocaria fama por prestígio, mas esse upgrade nem lhe passa pela cabeça. Meninos que ocultam sua insegurança querem ser temidos, não amados.