Wagner Moura e o 'molho' do cinema brasileiro que o mundo começa a reconhecer

E não é só força da expressão popularizada pelo músico O Kanalha. É um molho que vem do tempo. Tampouco nasce pronto: é apurado. Vai ficando melhor com o tempo, com os acertos, os erros, a insistência e a consistência. E talvez por isso seja tão fácil reconhecer quando aparece na atuação e na ginga do ator baiano Wagner Moura e em tantas obras do cinema brasileiro. Tem coisa que a gente assiste e sabe: isso aqui vai para além da técnica e não veio de um manual, de um molde estrangeiro ou de um algoritmo de sucesso. Veio de vivência, de território. Veio de uma história que precisou existir antes de poder ser contada. Nos últimos dias, celebramos o reconhecimento do filme “O agente secreto” em premiações internacionais. Festejar o longa, Wagner Moura, Kleber Mendonça Filho, Dona Tânia Maria e grande elenco, assim como fizemos com “Ainda estou aqui”, no ano passado, é honrar o cinema brasileiro e seu legado. É homenagear um Brasil que pensa, critica e provoca. Trata-se de reconhecer um cinema que fala de memória num país que insiste em esquecê-la. Aborda valores importantes num mundo que anda relativizando demais o que deveria ser inegociável. Mas quero puxar essa conversa para um pouco além do aplauso. Porque o molho, sozinho, não basta. Ter talento ou técnica não é suficiente. É preciso ter mais do que uma boa história, estética, discurso e profundidade. Se esse molho não fizer parte da receita, ele vira exceção. Vira exotismo. Aquele tempero que impressiona, mas não se repete. Aquela “jabuticaba” que encanta, mas não muda o cardápio. E aí entramos num ponto que costuma incomodar: o molho da diversidade como parte da receita não deveria ser tratado como enfeite. Precisa ser parte da estrutura. Quando falamos de cinema, e do mercado de trabalho como um todo, não se trata somente de quem está na frente das câmeras ou em cima do palco, segurando o troféu. Estamos também falando de quem decide. De quem julga. De quem está na cozinha escolhendo os ingredientes. De quem escolhe o que tem sabor, o que é relevante, o que merece tempo, microfone e luz. Estamos falando dos júris. Durante muito tempo, festivais e premiações que se dizem globais operaram com um olhar extremamente doméstico, centrado nos Estados Unidos, em narrativas em língua inglesa, em referências que se retroalimentam. O resultado? Não sentiam gosto no molho brasileiro e sua diversidade e de outras muitas narrativas de de cultura não anglo-saxã. O que vimos recentemente, ainda que de forma insuficiente, foi um aumento da diversidade nesses espaços de decisão. Júris mais plurais. E isso muda o sabor do que vemos nas telas e nas premiações. Não é coincidência que, à medida que esses espaços começam a ser tensionados, temos uma chance mais justa de expansão do “bom gosto”. E, ainda assim, as barreiras aparecem. Um prêmio recebido no meio do tapete. A música subindo enquanto o diretor “estrangeiro” fala. São gestos simbólicos. Lembram que o espaço ainda não foi pensado para que essas vozes fiquem confortáveis. Em 2026, já passou da hora de entender uma coisa simples: inclusão não é tendência. É sabor marcante. É caminho sem volta. É o molho que faltava e que a Bahia e o Brasil têm de sobra para temperar o mundo.