Depois de mais de duas décadas de negociações, a União Europeia e o Mercosul formalizaram um acordo de livre comércio, neste sábado, 17, que promete reconfigurar o cenário para o agro brasileiro. O tratado, que ainda depende de aprovação parlamentar nos países envolvidos, pode facilitar o acesso de produtos do Brasil ao bloco europeu, o segundo maior destino das exportações do agronegócio nacional. + Leia mais notícias de Agronegócio em Oeste O pacto prevê que 77% dos itens agropecuários exportados pelo Mercosul para a União Europeia ficarão isentos de tarifas de importação. Isso inclui café, frutas, peixes, crustáceos e óleos vegetais, que terão as taxas reduzidas gradualmente em prazos de quatro a dez anos, conforme o tipo de produto. Impacto para o agro brasileiro Carne bovina, um dos produtos em que o agro brasileiro é referência | Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil Para o Brasil, que figura entre os maiores exportadores mundiais de alimentos, o acordo deve trazer mudanças. A União Europeia já é o segundo maior mercado para o agronegócio brasileiro, atrás apenas da China. O continente fica à frente dos Estados Unidos. Assim, tratado ganha relevância adicional, porque as exportações brasileiras para os EUA caíram em 2025, depois do aumento de tarifas pelo presidente Donald Trump. O documento prevê a eliminação de tarifas de importação para 77% dos produtos agrícolas que o bloco europeu compra do Mercosul. Itens como café, frutas, peixes, crustáceos e óleos vegetais terão as tarifas gradualmente reduzidas a zero, com prazos que variam de quatro a dez anos, conforme o produto. https://www.youtube.com/watch?v=bsGVFSzGcFc Produtos considerados sensíveis pelos europeus, como carnes bovina e de frango, contarão com cotas de exportação. O setor de carnes é um dos pontos de maior tensão: pecuaristas da França e da Polônia, líderes europeus na produção de carne bovina e de frango, temem perder mercado para países sul-americanos, especialmente o Brasil, maior exportador global desses produtos. Atualmente, a carne bovina brasileira entra na UE por meio da cota Hilton, com 10 mil toneladas anuais de cortes nobres e taxa de 20%. Caso o tratado avance, essa taxa será eliminada. Outros cortes pagam 12,8% mais € 221,10 por 100 kg, mas uma nova cota conjunta de exportação de 99 mil toneladas anuais, com tarifa de 7,5%, será criada para o Mercosul. Café, soja e a dinâmica das tarifas O agronegócio brasileiro responde por quase um quarto do PIB do país | Foto: Divulgação/Ministério das Comunicações No segmento do café, o solúvel pode se beneficiar. Hoje, o café em grão já entra na Europa sem tarifa, mas o solúvel paga 9% e o torrado e moído, 7,5%. O acordo prevê zerar essas tarifas em quatro anos. Já para a soja, principal produto agrícola exportado para a União Europeia, não haverá mudanças, pois o grão e o farelo já contam com tarifa zero. Leia também: "O otimismo dos analistas com o Brasil" , reportagem de Carlo Cauti publicada na Edição 305 da Revista Oeste Produtores brasileiros manifestaram preocupação com as salvaguardas europeias aprovadas em dezembro. Elas permitem suspender benefícios tarifários do acordo caso algum segmento do agro local seja prejudicado. As salvaguardas não integram o texto do tratado, mas compõem regulamento interno da União Europeia. Caso as importações de um produto sensível aumentem 5% na média de três anos, poderá ocorrer a abertura de uma investigação para eventual suspensão dos benefícios. O tempo dessas apurações também caiu: de seis para três meses, ou de quatro para dois, em casos mais sensíveis. Reação europeia e próximos passos Do lado europeu, o impacto das tarifas impostas pelos EUA reforçou o apoio de países como Alemanha e Espanha ao acordo. Apesar disso, França, Áustria, Hungria, Irlanda e Polônia lideraram a oposição. Na votação, 21 países apoiaram o tratado e a Bélgica se absteve, com a decisão final recaindo sobre a Itália, cujo posicionamento foi instável nos últimos meses. Para viabilizar o acordo, a União Europeia também prometeu reduzir tarifas de fertilizantes, diminuindo custos para seus produtores. O livre comércio poderá beneficiar setores industriais europeus e permitir ao bloco diminuir a dependência da China em minerais, além de impulsionar exportações de veículos, máquinas, produtos químicos, queijos e vinhos para o Mercosul. Leia também: "A grande fuga dos dólares do Brasil" , reportagem de Carlo Cauti publicada na Edição 304 da Revista Oeste A França, mesmo derrotada, sinalizou a possibilidade de adotar medidas unilaterais caso considere que haja ameaças ao setor agrícola nacional. O acordo, discutido desde 1999, esteve paralisado entre 2019 e 2024, foi retomado a pedido da Comissão Europeia e finalmente anunciado ao final de 2024. A data marcou o início das aprovações nacionais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou a importância do tratado. "É um acordo que envolve praticamente 722 milhões de habitantes e US$ 22 trilhões de Produto Interno Bruto (PIB)", disse o brasileiro. "É uma coisa extremamente importante, possivelmente seja o maior acordo comercial do mundo." O post Entenda como agro brasileiro se beneficia de acordo entre UE e Mercosul apareceu primeiro em Revista Oeste .