Aline Midlej: "Os encontros que não mudam nossas vidas, mas mudam"

Eu espero que, neste 2026, você passe longe de um policial da imigração americana, menos ainda perto de algo parecido com a guarda revolucionária do Irã, onde quem resiste, neste momento, à opressão, pode ser executado como método de pedagogia. E não precisamos ir longe estando numa sociedade onde brigas de trânsito podem acabar com uma arma em punho e as pessoas ainda morrem pelo que representam numa cultura colonialista. Mas resista nos desejos de encontrar quem pode te mudar e melhorar. Concordo com Vinícius Moraes que “a vida é a arte do encontro”, mas há muito desencontro pela vida que devemos comemorar e aqueles que acontecem e precisamos viver e reviver com mais atenção. Eu tive alguns em 2025 que me ensinaram isso. o quanto podemos e devemos viver. Mas eu começo pelo ano de 2021. A fotografia contava um dia no Rio de Janeiro, no auge da Pandemia de Covid. A legenda: o avião do trabalhador. Dentro do ônibus, vários trabalhadores essenciais de máscaras disputando espaços para sobreviver, também, à invisibilidade. O registro havia sido feito de dentro do veículo, por um desses brasileiros fundamentais para que o país não parasse durante uma emergência que matou 700 mil de nós. Oficialmente. Vejo a imagem num perfil aleatório da internet. Tocada, conto essa história numa coluna que fazia na época. Busco o autor das imagens no Instagram, e encontro Yan Carpinejar. Surpreso com meu interesse, me conta sua história de batalhas, divide o sonho de um dia ser fotógrafo profissional, e me autoriza a usar a imagem e agradece a publicidade inesperada. Corta para 2025. Estou no camarim me preparando para participar do Que História é essa Porchat e quem era o fotógrafo oficial? Naquela altura já era mais conhecido como Yanzito pelos corredores dos estúdios Globo. Nos abraçamos longamente, num silêncio suspirado, que oxigenou uma compreensão mútua do valor daquilo. Me vi abraçada, também, a uma esperança virtuosa, em que nos tornamos otimistas profissionais por alguns segundos e a vida, simplesmente, faz mais sentido pelo simples interesse no outro. Porque deu certo pra ele e isso preenche de sentidos. Selecionar uma imagem Poucos meses depois, uma emergência inesperada num domingo de tempestade. Busco uma pessoa de confiança que possa me ajudar num deslocamento mais longo com minha filha de dois anos. Lembro de João, o jovem taxista carinhoso com quem havia cruzado dias antes numa corrida trivial do dia-dia. Guardei o contato dele num pedaço de papel, que se mantinha intacto no mesmo lugar da bolsa. João chega num carro diferente, mais sofisticado. Brinco dizendo que ele melhorou de vida desde a última vez. Ele ri sem jeito e me fala: “esse é o carro do meu pai, que também é taxista. Consegui pegar emprestado porque é domingo, ele está descansando. Meu táxi quebrou, já estou há dias sem trabalhar. E esse dinheiro de hoje vai salvar o restante do mês! Você foi enviada”. Fato é que João também havia sido enviado. Muitas vezes, anestesiados pelas urgências que criamos, o valor dos encontros escorre na correria ansiosa. Mas é neles que pode estar a razão de devermos seguir. Contar um com os outros, apostando numa atenção carinhosa com quem cruzamos pelas esquinas cheias de novas possibilidades. Como já disse e tatuei na minha pele: o sentido só precisa de atenção. E às vezes é sobre os encontros em que recebemos um NÃO. Ali pode estar o SIM que precisamos. Num evento recente, reencontrei uma pessoa que participou de um recrutamento de estágio no extinto IBOPE no qual não fui selecionada, bem no início da carreira. Na época, ouvi dela que aquele trabalho limitaria muito minhas capacidades. Claro que traduzi como uma bela negativa, educada. Mas quando nos vimos nessa segunda ocasião, vinte anos depois, ela me abraçou e falou: não te disse!? Olha onde você está. Falamos brevemente, emocionadas. Ela me relembrou de tudo e ainda dividiu que estava realizando um sonho pessoal de escrever seu primeiro livro. Gostaria muito que essa coluna chegasse até essa recrutadora visionária, pois foi tão rápido que não consegui gravar seu nome, e seria tão bom manter contato. Seu rosto, por sua vez, está gravado. É lembrança boa de que o acaso quem constrói somos nós, pois sempre pode ser muito mais do que isso. Foi também em 2025 que li o livro A Arte dos Encontros, de Priya Parker. A especialista em relações humanas defende que a grande questão é como levar as pessoas a se conectarem e se deixarem mudar pela experiência do encontro com outro. Seja quem for. Que as transformações desejadas em 2025 passem por interações de mais inteireza. Mais em Globo Condé Nast Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Brasil. Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!