“Quem é que achou que isso poderia dar certo?”, avalia Marcelo Lins sobre Conselho de Paz O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na última quinta-feira (15) a criação do Conselho de Paz de Gaza, para supervisionar o governo de transição que irá controlar o território palestino. Trump convidou diversos chefes de Estado para serem membros, inclusive o presidente Lula, que ainda não respondeu. Além disso, um rascunho do estatuto do conselho, obtido por agências de notícias, prevê o pagamento de US$ 1 bilhão para permanecer como integrante do órgão. Nesta reportagem, você vai ver: O que é o Conselho de Paz de Gaza? Como a Casa Branca diz que irá funcionar? E como fica a ONU? Quem vai presidir o conselho? Quem fará parte do conselho? Quem mais foi convidado por Trump? Por que o convite do Trump é uma saia justa para o Lula? E os palestinos? 1. O que é o Conselho de Paz de Gaza? Trump com o secretário de Estado, Marco Rubio Reuters/Nathan Howard A criação do conselho faz parte da segunda fase do acordo de paz assinado por Israel e o grupo terrorista Hamas em outubro do ano passado. A proposta, divulgada pela Casa Branca no fim de setembro, tem 20 pontos e prevê a Faixa de Gaza como uma zona livre de grupos armados e sob o comando de um governo de transição, formado por um comitê palestino tecnocrático e apolítico que será supervisionado pelo conselho. Como a Casa Branca diz que irá funcionar? Lula é convidado por Trump para integrar 'conselho de paz' em Gaza O conselho, que terá um papel consultivo, vai assessorar o comitê responsável pela administração provisória da Faixa de Gaza, que iniciou seus trabalhos nesta semana, no Cairo, sob o comando do ex-vice-ministro palestino Ali Shaath e de outros 14 membros. Esta entidade "ajudará a apoiar uma governança eficaz e a prestação de serviços de alto nível que promovam a paz, a estabilidade e a prosperidade do povo de Gaza", anunciou a Casa Branca. A proposta, no entando, recebeu críticas de diplomatas e de analistas. "É uma daquelas iniciativas que a gente fica se perguntando: quem é que planejou isso? E quem é que pensou que isso ia dar certo? Muitos analistas, e eu me incluo entre eles, estão absolutamente céticos sobre o que poderá acontecer com esse conselho”, avaliou o apresentador Marcelo Lins, no programa GloboNews Internacional neste domingo (18). E como fica a ONU? De acordo com fontes diplomáticas ouvidas pela Reuters, há uma grande preocupação, principalmente entre os governos europeus, de que o conselho prejudique a ONU. "É uma 'Nações Unidas de Trump' que ignora os princípios fundamentais da Carta da ONU", disse um deles. O rascunho do estatuto do Conselho de Paz faz uma crítica velada às Nações Unidas falando que "um organismo internacional de consolidação da paz mais ágil e eficaz" é necessário e que é preciso "coragem de abandonar abordagens e instituições que falharam com demasiada frequência". Quem vai presidir o Conselho da Paz? Donald Trump será o presidente inaugural. Com amplos poderes, ele terá a palavra final em votações, pode escolher os países que deseja convidar a serem membros e também pode revogar a participação de quem o desagradar. De acordo com o projeto de estatuto do conselho, quem quiser fazer parte do grupo exercerá mandatos de três anos, mas uma taxa bilionária garante a permanência fixa. "Cada Estado-membro cumprirá um mandato de no máximo três anos a partir da data de entrada em vigor desta Carta, renovável pelo presidente. Este mandato de três anos não se aplicará aos Estados-membros que contribuírem com mais de US$ 1 bilhão em dinheiro para o Conselho da Paz no primeiro ano", diz o documento. Quem fará parte do conselho? Em comunicado na sexta-feira (16), a Casa Branca divulgou os nomes dos sete nomeados como membros fundadores do conselho. Os escolhidos por Trump foram: o chefe da diplomacia dos Estados Unidos, Marco Rubio o ex-primeiro-ministro do Reino Unido Tony Blair o enviado especial dos EUA para a paz na Faixa de Gaza, Steve Witkoff Jared Kushner, genro de Trump o presidente do Banco Mundial, Ajay Banga Marc Rowan, magnata financista americano Robert Gabriel, fiel colaborador de Trump no Conselho de Segurança Nacional As responsabilidades de cada membro do conselho ainda não foram divulgadas. O presidente americano também designou o major-general americano Jasper Jeffers para dirigir a Força Internacional de Estabilização (ISF, na sigla em inglês) em Gaza. Quem mais foi convidado? Além desses, Trump também procurou líderes de vários países para integrar o órgão. São eles: Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil Vladimir Putin, presidente da Rússia Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia Javier Milei, presidente da Argentina - já aceitou o convite Santiago Peña, presidente do Paraguai Abdel Fattah al-Sisi, presidente do Egito Rei Abdullah II da Jordânia Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá Georgia Meloni, primeira-ministra da Itália Edi Rama, primeiro-ministro da Albânia Viktor Orban, primeiro-ministro da Hungria Nicusor Dan, presidente de Romênia Nikos Christodoulides, presidente do Chipre Por que o convite do Trump é uma saia justa para o Lula? Convidado para integrar o conselho no sábado (17), Lula ainda não aceitou o convite. Só deve avaliar se aceita ou não na próxima semana, segundo fontes com conhecimento sobre o assunto. A situação é uma saia justa para o presidente brasileiro, que, desde o início do conflito em Gaza, em outubro de 2023, tem reiterado críticas às operações militares de Israel no território palestino. O presidente brasileiro defende a criação de um Estado palestino, essa posição, registrada em discursos, entrevistas e manifestações em fóruns internacionais, se choca com o convite feito por Trump. Caso aceite integrar o conselho de paz, Lula poderá ser cobrado por coerência. Por outro lado, uma eventual recusa pode desagradar o presidente norte-americano e prejudicar a aproximação que ocorreu entre eles desde as negociações do tarifaço para produtos brasileiros exportados para os EUA. E os palestinos? Ate o momento, não está claro se os palestinos terão uma participação no conselho, o que levanta questões sobre a efetividade do novo órgão. “Um conselho que não tem em sua composição nenhum palestino para falar sobre Gaza [...] Deixa de muitas dúvidas no ar, e mais do que dúvidas: desconfianças sobre qual o interesse e qual é o papel dos maiores interessados nisso, os palestinos", avalia Marcelo Lins.