Raquel Lyra é alvo de pedido de impeachment após denúncia sobre irregularidades na empresa de ônibus do pai dela

Governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), em imagem de arquivo Ricardo Stuckert/Presidência da República A governadora Raquel Lyra (PSD) foi alvo de um pedido de impeachment após a repercussão de denúncias de que a Logo Caruaruense, empresa de ônibus intermunicipal do pai dela, o ex-governador João Lyra (PSD), passou os últimos três anos atuando de forma irregular. O pedido foi protocolado nesta segunda-feira (19) pelo deputado estadual Romero Albuquerque (União Brasil). A Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) informou que a Mesa Diretora recebeu, formalmente, o documento. O g1 entrou em contato com o governo do estado, mas, até a última atualização desta reportagem, não obteve resposta. ✅ Receba as notícias do g1 PE no WhatsApp Segundo o deputado Rodrigo Farias (PSB), que ocupa interinamente a presidência da Casa durante viagem de Álvaro Porto (PSDB) à Europa, o pedido será analisado a partir de 2 de fevereiro, com a volta dos trabalhos legislativos após o recesso parlamentar. As irregularidades envolvendo a Logo Caruaruense constam de um relatório interno da Empresa Pernambucana de Transporte Coletivo Intermunicipal (EPTI). Conforme o documento, a rodoviária funcionava com vistorias vencidas e estava sem o Certificado de Registro Cadastral (CRC), que não era pago pelo menos desde 2020. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Conforme o relatório, desde 2022, nenhum dos 50 ônibus que compõem a frota da Logo Caruaruense passou pelas vistorias necessárias e alguns coletivos estavam com as licenças vencidas desde 2021. Diante da repercussão do caso, a governadora Raquel Lyra anunciou o encerramento das atividades da empresa (saiba mais abaixo). O pedido de impeachment apresentado por Romero Albuquerque aponta possíveis indícios de crime de responsabilidade por parte da governadora do estado. No documento, o deputado cita que, além de operar de forma irregular, a Logo Caruaruense foi contratada sem licitação pela gestão estadual. "Constatou-se também que a empresa da sua família — que já teve a própria governadora Sra. Raquel Lyra em seu quadro societário — foi contratada sem licitação e sem a formalização de qualquer procedimento licitatório pela gestão da atual governadora, entre os anos de 2023, 2024 e 2025, já tendo recebido R$ 100 mil dos cofres estaduais, por serviços que, inclusive, a empresa não poderia estar realizando em face das irregularidades citadas", afirma. De acordo com o pedido, a EPTI é obrigada por lei a fazer, a cada ano, inspeções nas frotas das empresas de transporte intermunicipal. No entanto, conforme o relatório do órgão, a Caruaruense não passava por fiscalização desde 2022, último ano antes de a governadora assumir o cargo. "Tal omissão, por ser absolutamente não usual, após o transcurso de mais de três anos, não deixa margem de dúvidas que tratou-se [de] omissão deliberada, dolosa, de verdadeira diretriz do governo", diz o documento. Também no pedido, o deputado afirma que 78% da frota da Logo Caruaruense tem mais de dez anos e deveria ter sido retirada de circulação. "A gravidade da situação levou a própria EPTI a instaurar procedimento administrativo para avaliar a possibilidade de renovação do CRC, com sucessivos despachos internos solicitando verificando de débitos fiscais, pendências administrativas e análise jurídica da viabilidade da concessão do registro. O processo encontra-se parado, aguardando a apresentação de documentos pela empresa desde 13 de fevereiro de 2025", informa. Relatório aponta irregularidades Ônibus da empresa Logo Caruaruense Reprodução/Instagram Fundada em 1959, a Logo Caruaruense opera, além do Recife, nas cidades de Bezerros, Caruaru, Gravatá, Santa Cruz do Capibaribe, São Caetano, Toritama e Vitória de Santo Antão. A empresa foi adquirida pelo avô de Raquel Lyra e, posteriormente, passada ao seu filho, João Lyra Neto, que assumiu o governo de Pernambuco em 2014, quando o então governador Eduardo Campos (PSB) renunciou ao cargo para concorrer à Presidência da República — ele morreu durante a campanha, em agosto daquele ano. A própria governadora já foi sócia da empresa e detinha o equivalente a R$ 22,5 mil dos R$ 3 milhões que a Caruaruense vale. No entanto, em 2018, quando era prefeita de Caruaru, renunciou sua parte em favor do pai. O relatório do EPTI foi produzido em meio ao processo de renovação do Certificado de Registro Cadastral da Logo Caruaruense. O documento é necessário para a atuação da empresa no setor e deve ser renovado anualmente. O processo teve início em 6 de fevereiro de 2025, mas foi paralisado sete dias depois, no dia 13 de fevereiro, após chegar ao gabinete do diretor de operações Eduardo Henrique de Senna Costa, coronel da Polícia Militar que assumiu o cargo em janeiro de 2025. No dia 6 de fevereiro de 2025, a Logo Transportes LTDA, razão social da Logo Caruaruense, solicitou a renovação do CRC à EPTI. O processo público foi gerado no dia 10 pelo diretor de operações Henrique Senna, coronel da Polícia Militar que assumiu o cargo em janeiro de 2025. Dois dias depois, o Departamento Financeiro da EPTI produziu o relatório em que consta a falta de vistorias e de pagamento do Certificado de Registro Cadastral. No documento, consta a relação das placas dos ônibus com os quais a Caruaruense opera, além do histórico de pagamentos da empresa. No relatório, o departamento conclui que todos os coletivos estão com vistorias vencidas, e que, nos pagamentos, não costa a quitação das taxas de CRC anuais no período de 2020 até 2022. Além disso, os ônibus da Caruaruense tinham categoria de uso "regular", mas, conforme o documento, três placas também constavam como veículos utilizados para fretamento. Encerramento das operações Raquel Lyra diz que empresa de ônibus do pai dela vai encerrar atividades Na sexta-feira (16), durante entrega das obras de restauração da Igreja Matriz de Santo Antônio, no Centro do Recife, a governadora Raquel Lyra foi questionada sobre a polêmica e anunciou o encerramento das atividades da empresa (veja vídeo acima). "Tomei conhecimento hoje pela manhã [na sexta-feira, 16] que a empresa entregou as suas linhas à EPTI, está encerrando as suas atividades. A EPTI vai trabalhar para que a gente não tenha prejuízo à população", declarou. O g1 procurou a EPTI para questionar sobre as vistorias e fiscalizações à Caruaruense e perguntou o porquê de o processo de renovação do CRC da empresa estar paralisado há quase um ano. A empresa não respondeu às perguntas e disse apenas que realiza, de forma contínua e permanente, fiscalização em terminais rodoviários, pontos de embarque e desembarque e outros locais estratégicos como entradas e saídas de cidades. A EPTI afirmou que a Caruaruense funciona há 66 anos e venceu uma licitação para operar no sistema em 2014, num consórcio formado com outras empresas de transporte intermunicipal. Entretanto, em 2015, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) e o Judiciário proibiram a assinatura dos contratos, e, por isso, as empresas continuaram operando no formato anterior ao consórcio. "Em 2022, o Tribunal de Justiça considerou a licitação regular e, desde então, a EPTI vem atuando junto ao setor e aos órgãos de controle para realizar necessárias adequações, num processo de transição, em função da passagem do tempo", diz a nota.