Kremlin diz que Putin foi convidado para Conselho da Paz de Trump, que amplia lista de países e provoca objeção de Israel

A iniciativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de criar um chamado “Conselho da Paz” ganhou novos contornos nos últimos dias, com o envio de convites a uma lista ampliada de países e a divulgação de regras que preveem uma contribuição financeira bilionária para quem quiser garantir assento permanente no órgão. Nesta segunda-feira, o Kremlin anunciou que o líder russo, Vladimir Putin, foi convidado a integrar a organização, acrescentando que a Rússia busca “esclarecer todas as nuances” da proposta antes de dar uma resposta. Plano americano: Trump convida Lula, Milei, Erdogan e líderes do Egito e Canadá a integrar ‘Conselho da Paz’ para Gaza Entenda: Conselho de paz de Gaza prevê mandato de três anos e cargos vitalícios por US$ 1 bilhão O convite a Putin marca uma ampliação significativa do escopo do conselho, que também estendeu convites à União Europeia, por meio da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, além de Belarus e Tailândia. Segundo autoridades europeias, Von der Leyen recebeu formalmente a carta e informou que discutirá a iniciativa com outros líderes do bloco antes de qualquer decisão. Não houve indicação sobre se ela aceitará ou não o convite, embora o porta-voz da comissão, Olof Gill, tenha dito que o órgão executivo da UE deseja “contribuir para um plano abrangente que ponha fim ao conflito em Gaza”. As primeiras nomeações para o Conselho da Paz, anunciadas na sexta, incluíram o próprio Trump como presidente, com um “conselho executivo fundador” formado pelo ex-premier britânico Tony Blair e pelo atual secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Também foram nomeados o enviado de Trump para missões especiais, Steve Witkoff; o genro do presidente, Jared Kushner; e o presidente do Banco Mundial, Ajay Banga. Depois, veio a público que Trump enviou convites a líderes de países como Argentina, Paraguai, Turquia, Egito e Brasil. Também nesta segunda-feira, o Palácio do Planalto e a diplomacia brasileira começaram a analisar o convite. A análise busca medir até que ponto a participação do Brasil pode ampliar o protagonismo internacional do país sem repetir os impasses que marcaram a tentativa de mediação no Oriente Médio há mais de uma década. Na época, Lula atuou ao lado da Turquia na tentativa de mediar o impasse entre o país persa e as potências ocidentais. Ambos negociaram diretamente com Teerã um acordo de troca de combustível nuclear que atendesse às exigências dos EUA. A iniciativa, porém, não foi acolhida por Washington, e a frente acabou esvaziada. Bastidores: Lula quer mais tempo para decidir sobre convite de Trump para Conselho da Paz em Gaza, dizem auxiliares Agora, auxiliares do petista afirmam que a proposta de Trump precisa ser examinada com cautela antes de qualquer decisão. Segundo esses interlocutores, não há como definir uma posição sem compreender com clareza as consequências políticas e diplomáticas da iniciativa, e a avaliação não pode ser feita de forma açodada, dada a sensibilidade do conflito e o papel dos Estados Unidos na condução do processo. A avaliação é semelhante no Egito, com o presidente Abdel-Fattah al-Sisi ainda avaliando se integrará o conselho, segundo a AFP. Belarus, por sua vez, anunciou que seu líder, Alexander Lukashenko, foi convidado e que recebeu o convite com satisfação. O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, teria sido procurado na semana passada com uma oferta de participação, mas aguardava um convite formal. O presidente da Argentina, Javier Milei, e o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, devem se tornar membros fundadores, conforme anunciaram no sábado. O líder da Hungria, Viktor Orbán, também aceitou o convite para integrar o conselho. A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, afirmou que o país foi convidado a participar. No domingo, ela disse acreditar que “pode desempenhar um papel de liderança” e que está pronta para contribuir “na construção do plano de paz”. O presidente francês, Emmanuel Macron, por outro lado, não pretende aceitar o convite, segundo uma pessoa próxima ao mandatário. Macron acredita que a ideia de Trump vai “além de Gaza”, disse a fonte, e levanta preocupações significativas, sobretudo em relação ao respeito aos princípios e ao arcabouço institucional das Nações Unidas, que a França considera inegociáveis. Crítica à ONU Os convites incluíam uma carta afirmando que o conselho buscaria “solidificar a paz no Oriente Médio” e, ao mesmo tempo, “iniciar uma nova e ousada abordagem para a resolução de conflitos globais”. Cada líder teria um mandato máximo de três anos no conselho, a menos que seu governo pagasse uma taxa de US$ 1 bilhão (R$ 5,3 bilhões) para se tornar membro permanente. O documento diz que “o conselho de paz é uma organização internacional que busca promover a estabilidade [e] restaurar uma governança confiável e legal”: “O conselho deve ter a coragem de se afastar de abordagens e instituições que, com frequência, falharam”, acrescenta o texto, em provável crítica à ONU. O entendimento é compartilhado por autoridades europeias de alto escalão, que, em relatos à Bloomberg, disseram ver a iniciativa como uma tentativa de criar um rival ou substituto para a ONU, instituição da qual Trump é crítico de longa data. Segundo elas, o conselho vai muito além da reconstrução de Gaza, e Trump o enxerga como um instrumento para resolver e controlar eventos internacionais. Negociações: Trump nomeia secretário de Estado dos EUA e ex-premier britânico para Conselho de Paz de Gaza No convite compartilhado por Milei, Trump escreveu que o esforço “reunirá um grupo distinto de nações prontas para assumir a nobre responsabilidade de construir uma PAZ DURADOURA, uma honra reservada àqueles preparados para liderar pelo exemplo e investir brilhantemente em um futuro seguro e próspero para as próximas gerações”. Os parceiros devem se reunir “em um futuro próximo”, acrescentou, sem dar mais detalhes. A estrutura exata do órgão, porém, permanece incerta, e novos membros continuam sendo convidados. Reação israelense Trump tenta cumprir seu plano de 20 pontos para uma transformação ampla — e potencialmente de décadas — de Gaza, que foi em grande parte destruída por dois anos de guerra entre Israel e o Hamas. Ele anunciou a criação do conselho na quinta-feira, nas redes sociais, mas não revelou quem faria parte do órgão. Um dia depois, a Casa Branca anunciou o primeiro painel executivo — com a participação de Rubio, Witkoff, Kushner e Blair — e um segundo grupo, nomeado como uma “comissão executiva”, que deve realizar a maior parte do trabalho de reconstrução de Gaza. Ele inclui o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Hakan Fidan, e o diplomata Ali al-Thawadi, ministro de Assuntos Estratégicos do Catar. Esse segundo painel, no entanto, motivou a objeção do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que considera Catar e Turquia próximos demais do grupo terrorista Hamas. Ele ainda avalia que os dois países seriam pouco propensos a remodelar a área costeira da forma desejada pelo Estado judeu. Declarações do premier israelense e de membros linha-dura do seu governo marcaram um raro desacordo público com Trump, já que a liderança em Israel tem buscado consistentemente retratar sua relação com a Casa Branca como amigável. Netanyahu convocou uma reunião com seus principais assessores para discutir o Conselho da Paz, após afirmar que não foi incluído nas conversas sobre a composição da comissão executiva — e que a decisão “contraria a política” israelense. No sábado, a ministra Miri Regev, integrante do partido conservador Likud, de Netanyahu, declarou que Israel se opõe à participação do Catar e da Turquia, acrescentando que o premier “fará de tudo para mudar essa decisão”. Por sua vez, o líder da oposição, Yair Lapid, classificou o anúncio como um “fracasso diplomático para Israel”. Até o momento, o único israelense no Conselho Executivo de Gaza é Yakir Gabay, empresário atualmente radicado no Chipre. Não há palestinos em nenhum dos dois conselhos. — É hora de explicar ao presidente [Trump] que seu plano é ruim para o Estado de Israel e de cancelá-lo — disse nesta segunda-feira o ministro das Finanças de extrema direita de Israel, Bezalel Smotrich. — Gaza é nossa, seu futuro afetará o nosso futuro mais do que o de qualquer outro. Nós assumiremos a responsabilidade pelo que acontecer lá, imporemos uma administração militar e concluiremos a missão. Como o Hamas ainda controla quase metade de Gaza e se recusa a se desarmar, a perspectiva de uma paz duradoura e próspera é incerta. O grupo apoiado pelo Irã ainda não devolveu os restos mortais do último refém levado nos ataques de outubro de 2023 que desencadearam o conflito — um elemento central da primeira fase da proposta de Trump. Ainda assim, Trump anunciou o início da segunda fase de seu plano, incluindo a formação de um governo tecnocrata de 15 membros para substituir o domínio do Hamas em Gaza. A dor do outro: Organização une israelenses e palestinos em luto para buscar um caminho pela paz Uma Força Internacional de Estabilização, composta por soldados de diferentes países e também prevista no plano de Trump, deve ser criada em um momento posterior. Por enquanto, não está claro quais países contribuiriam nem em que termos, e os EUA já afirmaram que não enviarão tropas para Gaza. Israel, por sua vez, ameaçou retomar a guerra caso a força internacional não consiga persuadir ou obrigar o Hamas a depor as armas. O grupo não demonstrou nenhuma inclinação nesse sentido desde que o cessar-fogo foi acordado, em outubro. Enquanto isso, as Nações Unidas alertaram no sábado que a crise humanitária em Gaza está “longe de acabar”. A ONU estima que cerca de 80% dos edifícios em Gaza foram destruídos ou danificados, e famílias que sobreviveram à guerra agora enfrentam o inverno, além da falta de alimentos e abrigo. Olga Cherevko, do escritório da ONU para coordenação de ajuda humanitária, afirmou que a entrega de toneladas de ajuda e os reparos em estradas nos meses desde a entrada em vigor do cessar-fogo foram apenas um “curativo”, e não uma solução. (Com Bloomberg, AFP e New York Times)