Capa do álbum 'Gal canta Caymmi' (1976), de Gal Costa Thereza Eugenia ♫ MEMÓRIA ♬ Álbum que completa 50 anos em 2026 sem perda da relevância e do viço, “Gal canta Caymmi” foi disco oportunista, mas nem por isso menos oportuno, belo e importante. É que, embora Gal Costa (26 de setembro de 1945 – 9 de novembro de 2022) viesse lançando grandes álbuns na primeira metade da década de 1970, como “Fa-Tal – Gal a todo vapor” (1971), “Índia” (1973) e o na época incompreendido “Cantar” (1974), o fato é que a artista tinha se transformado em cantora de nicho. Em bom português: Gal tinha prestígio, era cultuada pela crítica e por um público antenado, mas não desfrutava de sucesso na proporção da imensidão da voz cristalina que encantara até João Gilberto (1931 – 2019), muso inspirador da tímida Gracinha que viera de Salvador (BA) para o Rio de Janeiro (RJ) em 1965 em busca de oportunidades profissionais. Gal ampliaria o público a partir do álbum “Água viva” (1978), mas o primeiro ponto de virada rumo à popularidade nacional oi o convite da TV Globo em 1975 para Gal gravar “Modinha para Gabriela” para a trilha sonora original da novela “Gabriela”. Composição inédita de Dorival Caymmi (30 de abril de 1914 – 16 de agosto de 2008), feita para a novela exibida de abril a outubro de 1975, “Modinha para Gabriela” era ouvida diariamente como o tema da abertura da primorosa adaptação para a TV do romance “Gabriela, cravo e canela” (1958), do escritor baiano Jorge Amado (1912 – 2001). Se dependesse do diretor Daniel Filho, Gal também teria interpretado a própria personagem-título Gabriela, mas a cantora não se via como atriz e ficou somente com a música nova de Caymmi. Atenta ao sucesso da novela e da música, a gravadora Philips lançou single com a gravação de ”Modinha para Gabriela” por Gal com bom resultado de vendas. Foi aí que Roberto Menescal, então no posto de diretor artístico da companhia fonográfica (a mais importante do Brasil na época pelo elenco estelar), exercitou o tino comercial e o senso de oportunidade, convidando Gal para gravar um álbum com músicas de Caymmi. Um songbook, gênero de disco então incomum no mercado fonográfico brasileiro. Gravado ainda em 1975, sob direção musical do produtor e guitarrista Perinho Albuquerque (1946 – 2025), falecido aos 79 anos em agosto do ano passado, o tributo da cantora baiana ao compositor conterrâneo foi lançado no primeiro semestre de 1976, com capa que expunha Gal em close clicado pela fotógrafa Thereza Eugenia, e emplacou de cara um hit noveleiro. No rastro do sucesso de Gal na abertura de “Gabriela”, a TV Globo escolheu a gravação do samba-canção “Só louco” (1955) para a abertura da novela “O casarão”, estreada em junho de 1976. Com arranjos divididos entre Perinho Albuquerque e o pianista João Donato (1934 – 2023), que orquestrou a faixa “Só louco”, o álbum “Gal canta Caymmi” foi formatado com os toques de instrumentistas do naipe de Antonio Adolfo, Dominguinhos (1941 – 2013), Luizão Maia (1949 – 2005), Novelli, Paulinho Braga e Roberto Menescal. Esses grandes músicos armaram a cama perfeita para Gal Costa deitar e rolar no canto de dez músicas de Dorival Caymmi. São músicas que, embora já conhecidas em gravações lapidares do próprio compositor, ganharam a marca de Gal. O tempero da cantora no samba “Vatapá” (1942) salta aos ouvidos, por exemplo, no aceleramento do andamento no fim da gravação arranjada por João Donato. A potência do canto de Gal nos versos de “Pescaria (Canoeiro)” ”(1944) tem o vigor de um estivador na beira do cais e, no entanto, a intérprete não faz força. O canto sai naturalmente forte. Ao mesmo tempo, Gal soube imprimir toda a delicadeza exigida pelo samba-canção “Nem eu” (1952) em gravação feita com toque de bolero ao estilo leve do arranjador João Donato. Já os sambas “Rainha do mar” (1939), “Festa de rua” (1949) e “Dois de fevereiro” (1957) soam como prenúncios da Gal tropical que explodiria nas paradas dali a três anos, com show e disco de 1979. Ainda no terreiro do samba, ouvir Gal cantando “São Salvador” (1960) é testemunhar a artista celebrando a Bahia e a cidade na qual viera ao mundo há então 31 anos. Na praia das canções marítimas, gênero fundamental do cancioneiro de Caymmi, a gravação de “O vento” (1949) traz uma Gal puxando na voz a rede da ancestralidade afro-brasileira incrustada nessas pérolas negras lapidadas na forma de canções devotas de santos e orixás que regem o mar. Gal chama “O vento” com arranjo de Perinho Albuquerque enquanto “Peguei um ita no Norte” (1945) navega em mar sem tempestade, no balanço suave de João Donato. Enfim, Gal Costa cantou Dorival Caymmi com a sofisticação do compositor ourives, mas sem suntuosidade, em sintonia com o espírito de obra vocacionada para ser a trilha atemporal do povo da Bahia e, pelo alcance, também do Brasil. É por isso que o songbook do compositor na voz da imortal cantora chega aos 50 anos com a mesma relevância e frescor de 1976