Lula aguarda reação internacional antes de responder a convite de Trump para integrar novo conselho de paz

O governo brasileiro acompanha os sinais dos líderes dos demais países convidados antes de qualquer decisão sobre o convite feito ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo mandatário americano, Donald Trump, para integrar um novo conselho internacional de paz. Segundo interlocutores que acompanham o tema em Brasília, a maior parte dos países tem adotado uma postura de espera, avaliando o conteúdo da proposta e observando como outros atores relevantes irão se posicionar. O conselho foi apresentado pela gestão Trump como um foro voltado à discussão de temas ligados à paz internacional, com foco em Gaza. A proposta prevê a reunião de líderes e representantes internacionais com o objetivo de supervisionar a reconstrução e a governança do território, hoje destruído após anos de conflito entre Israel e o grupo palestino Hamas. De acordo com diplomatas ouvidos pelo GLOBO, o texto encaminhado por Trump não foi apresentado como base para negociação, mas como uma proposta fechada, o que levou diferentes países a ganhar tempo para analisar seus termos, considerados complexos. Nos bastidores, a avaliação é que os principais convidados estão “testando” o cenário para entender se haverá espaço para mudanças no desenho original da iniciativa. A impressão é que, embora a proposta não tenha sido apresentada como negociável, isso não significa, segundo esses diplomatas, que ajustes estejam descartados ao longo do processo. Esses interlocutores citam a Argentina como um caso à parte, por avaliarem que o governo do presidente Javier Milei tem demonstrado disposição para aderir às iniciativas propostas por Washington, enquanto a maior parte dos demais países prefere aguardar e analisar o conteúdo do texto antes de se posicionar. Além de Lula e Milei, estão entre os convidados o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan; o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair; o secretário de Estado americano, Marco Rubio; o genro de Trump, Jared Kushner; o presidente do Banco Mundial, Ajay Banga; e o diplomata búlgaro Nickolay Mladenov, indicado para o cargo de diretor-geral do colegiado. A lista completa de convidados, assim como a composição final do conselho, ainda não está plenamente esclarecida. Faltam detalhes Auxiliares do presidente afirmam que a decisão ainda não foi tomada, diante da necessidade de analisar com profundidade os objetivos do grupo, os custos potenciais e a relação da proposta com as instituições multilaterais existentes, como a Organização das Nações Unidas, que tradicionalmente lidera esforços de paz e que, segundo críticos, estaria sendo em parte ofuscada pela iniciativa americana. O modelo de governança proposto, com forte concentração de poder sob a presidência vitalícia de Trump e mecanismos específicos de financiamento, tem suscitado cautela no Palácio do Planalto quanto às implicações políticas e diplomáticas. Outro ponto de preocupação na análise brasileira é a composição dos convidados e o papel de atores centrais no conflito. Embora a administração americana tenha estendido convites a diversos líderes e figuras internacionais — e tenha convidado formalmente Israel para participar do conselho, segundo autoridades israelenses — não há representantes palestinos entre os membros anunciados. Essa ausência tem sido apontada por observadores e críticos como uma lacuna relevante da proposta e alimenta dúvidas no Itamaraty sobre o alinhamento da iniciativa com os princípios do multilateralismo e da inclusão de todas as partes envolvidas. Dúvidas sobre o alcance do novo órgão também pesam na análise feita no Itamaraty. Ainda não está claro se a iniciativa foi concebida para tratar especificamente da situação na Faixa de Gaza ou se há a pretensão de criar uma instância internacional mais ampla, com atribuições que extrapolem esse conflito. Segundo integrantes do governo Lula, ainda faltam informações consideradas essenciais, como os procedimentos formais de adesão e a definição de prazos para resposta. Diante desse quadro, a avaliação é de que a decisão exige cautela e uma leitura atenta do movimento dos demais países. O desenho do conselho prevê mandatos de três anos, renováveis, e uma estrutura com forte concentração de poder na presidência do órgão, que ficaria com Trump. O texto, com quatro páginas, também menciona a possibilidade de participação permanente mediante o pagamento de US$ 1 bilhão, alternativa associada a mandatos vitalícios. A representação, nesses casos, seria dos países, e não de seus presidentes individualmente.