Altas expectativas geram grandes frustrações. João Fonseca chegou ao Rio Open com status de um dos favoritos ao título, sobretudo quando o caminho foi se abrindo após desistências e quedas dos principais cabeças de chave à frente dele, e como a grande aposta do torneio carioca — seu rosto está estampado por todo o complexo do Jockey Club Brasileiro. É natural a cobrança sobre o jovem de 19 anos que galgou rapidamente posições no ranking da ATP em seus dois primeiros anos completos no circuito profissional. Ainda mais após a derrota anteontem nas oitavas de final para o pouco conhecido peruano Ignacio Buse, número 91, considerado promessa em seu país. Hoje, Fonseca busca a vaga na final da chave de duplas ao lado do compatriota Marcelo Melo, diante dos alemães Mark Wallnner e Jakob Schnaitter, às 14h30, na Quadra Guga Kuerten. Contudo, qualquer crítica precisa de contexto. E a má fase do prodígio brasileiro não pode ser analisada sob a ótica apaixonada do futebol — quando parece estar tudo errado, derruba-se o técnico. O tênis funciona sob outros paradigmas. É praticamente um dogma entre os tenistas que, ao longo da carreira, a derrota será uma companheira mais persistente que a vitória. — O tênis é assim. Tem semanas que você vai perder, e, na outra, você tem que mudar o mindset e arrumar soluções — disse Fonseca após a eliminação. É fato que João, neste início de ano, não tem apresentado o mesmo nível de 2025, quando venceu dois torneios ATP (o 250 de Buenos Aires e o 500 de Basel) e entrou no top 30 aos 19 anos, algo que nenhum outro brasileiro havia feito. A condição crônica na lombar que se agravou em outubro passado encerrou sua temporada mais cedo. Foram quase três meses longe das quadras. Oscilações fazem parte do tênis Um tempo que cobra ritmo, condicionamento físico e posições no ranking. E num corpo ainda em desenvolvimento, que precisa aliar a técnica e a recuperação rapidamente para se ajustar ao desgaste do calendário. Fora a pressão de ser o xodó da torcida no principal torneio da América do Sul. Mas esse é o habitual no tênis. São poucos os atletas que tão jovens alcançam e se mantêm no top 10. Apenas foras de série, como Rafael Nadal e Carlos Alcaraz, entre outros, conseguiram tal feito. As leves oscilações fazem parte da carreira. Jakub Mensik (16 do mundo), contemporâneo de João Fonseca, que derrubou o número 2 do mundo, Jannik Sinner no ATP 500 de Doha, nas quartas de final, já viveu seus altos e baixos. Ontem, ele perdeu para Arthur Fils a semifinal do torneio catari. Até mesmo o número 1 do mundo, Carlos Alcaraz, foi questionado na temporada retrasada, quando perdeu o topo do ranking para Sinner e conviveu com várias lesões leves ao longo do ano. — A cobrança sobre ele é exagerada. Ano passado, o Alexander Zverev esteve aqui e falou sobre isso, pediu calma. O que ele está passando agora com 19 anos, outros com 20, 30 já passaram — relembra Narck Rodrigues, comentarista do Sportv. João Fonseca encontra Andre Agassi, que veio ao Rio Open entregar o troféu ao campeão Divulgação/FOTOJUMP André Agassi, que veio ao Rio Open entregar o troféu ao campeão do ATP 500 — e vai participar de um torneio exibição no fim de março em São Paulo —, riu ao ser questionado sobre a ansiedade dos fãs em achar que um tenista é capaz de vencer todos os jogos. E deu um conselho: — Eu o encorajaria a perceber que viver de acordo com as expectativas dos outros não é responsabilidade dele. Melhorar sempre é responsabilidade dele. Às vezes, fica difícil porque você começa a dar valor demais a vencer ou perder e esquece o que precisa fazer para melhorar. Vencer é um subproduto de fazer mil coisas certas. Ele tem o luxo de ser jovem, mas tem o peso de tanta expectativa. Isso não exime João das análises do tênis apresentado nesta temporada. Foram apenas quatro partidas e uma vitória. Por causa do incômodo na lombar, ele desistiu de dois torneios preparatórios para o Australian Open, caiu na primeira rodada do Grand Slam e foi eliminado na estreia do ATP 250 de Buenos Aires, onde defendia o título do ano passado. — Temos que analisar jogo a jogo. Aqui, realmente, ele ficou devendo. Abriu mão da eficiência do jogo simples e entregou pontos importantes. Mas o importante para um tenista é a consistência. O cara que é bom, ele vai subindo gradativamente e se mantendo de maneira consistente para não bater lá em cima e cair rápido. Ele perdeu aqui. Agora, é trabalhar para ganhar jogos e aumentar a confiança. Tênis ele mostrou que tem — completa Narck Rodrigues.