Em tempos incertos, como o que a política norte-americana enfrenta com os abusos cometidos pelo governo Trump, a moda pode atravessar dois caminhos: o do escapismo e o do pé no chão. O que se viu nas coleções de outono-inverno 2026 na Semana de Moda de Nova York, que aconteceu de 11 a 16 deste mês, foi a opção mais conservadora. Alinhadas ao estilo pragmático do país, as propostas surgiram prontas para sair das passarelas para as ruas, sem escalas. Entre os destaques, alfaiataria líquida, minimalismo noturno e tailleur revisitado. A direção morna foi ressaltada pela crítica de moda Vanessa Friedman, do The New York Times. “O mundo vive momentos de tensão enquanto os estilistas focam em roupas sem uma mensagem por trás”, escreveu. Ralph Lauren Alfaiataria em alta no desfile de Ralph Lauren GettyImages Aos 86 anos, Ralph Lauren é um símbolo da moda americana. Nesta temporada de inverno 2026, revisitou os próprios clássicos. O luxo atemporal, embalado por arquétipos de mulheres aventureiras, apareceu em ternos, capas de tweed e vestidos metálicos. “A alfaiataria impecável marcou presença em quase todas as peças”, analisa a consultora de moda internacional Simone Jordão. “Ralph Lauren transcende tendências.” Marc Jacobs Menos performático do que em anos anteriores, Marc Jacobs veio “slim”. Saias retas em comprimentos diversos foram a tônica do desfile, chamado Memory Loss. Ele bebeu de diversas fontes: Saint Laurent dos anos 1960, Prada e de seu próprio trabalho, ao fazer releitura da coleção grunge para a marca Perry Ellis, de 1993. “Apostou numa silhueta linear, nada instagramável”, opina o consultor de branding de moda Fábio Monnerat. Minissaia de Marc Jacobs GettyImages PatBo Com evento intimista, a marca PatBo, a única brasileira no calendário oficial da Semana de Moda de Nova York, apresentou a coleção de inverno 2026, Brazilian Bohemian. Nela, Patricia Bonaldi imprimiu tintas nacionais ao estilo boho. “Além de conectar o passado com o presente, quis reafirmar uma identidade que não dilui para ser global”, diz a estilista. Coleção de inverno 2026 da marca PatBo Divulgação Carolina Herrera O diretor criativo Wes Gordon trocou modelos por pintoras e galeristas, como Amy Sherald e Hannah Traore. Casacos do tipo casulo e a estampa de onça fugiram do script habitual da marca. “Saiu da latinidade explícita da coleção anterior para o minimalismo novaiorquino”, observa a analista de moda Paula Acioli. Carolina Herrera: onça em destaque no inverno 2026 GettyImages Michael Kors comemorou o 45º aniversário da marca homônima reverenciando o que mais o inspira: a cidade de Nova York e o glamour urbano. Vestidos que deslizam sobre o corpo usados sob casacos de pele fake, blusas de gola alta e tons como fawn (bege acinzentado) e ruby roubaram a cena. “A silhueta despojada e chique ganhou toques de drama com luvas imponentes, que arremataram looks monocromáticos”, avalia Simone Jordão. “Ressaltou o estilo americano, relaxado e desejável”, emenda a consultora. Luvas imponentes no desfile de Michael Kors GettyImages Coach What we share (o que compartilhamos), foi o ponto de partida do inverno da Coach. A marca estabeleceu um alvo: a Geração Z. O diretor criativo da etiqueta, Stuart Vevers, colocou a estética emo, o estilo preppy e o xadrez grunge num caldeirão para criar jaquetas colegiais de lã de carneiro, blazer xadrez com costuras aparentes e vestidos de seda coordenados com tênis de skate. “Gostei da atmosfera superjovem. Misturou alfaiataria a códigos esportivos do streewear”, analisa o editor de moda Rogério S. Influência grunge no desfile da Coach GettyImages