O som começa com o toque do berimbau. Depois vêm as palmas, a ladainha, o coro. No alto do Morro da Babilônia, no Leme, a roda se forma não apenas para celebrar a tradição da capoeira, mas para marcar uma conquista coletiva: a formatura de 20 jovens que, ao longo de um ano, se prepararam para atuar como educadores em seus próprios territórios. Onda gastronômica: Surfista Filipe Toledo inaugura primeira unidade do seu restaurante no Rio Para onde vai o lixo depois dos grandes eventos? Projeto na Zona Norte dá novo destino a cinco toneladas de recicláveis em três meses A cerimônia, realizada no último dia 8 pelo Instituto Brasileiro de Capoeira-Educação (IBCE), encerrou um ciclo que vai além da prática esportiva. A proposta do projeto é estruturar a capoeira como ferramenta de formação integral, unindo técnica corporal, cultura afro-brasileira, educação em valores, tecnologia e cidadania. Ao final do percurso, os jovens estão aptos a ministrar aulas para crianças e atuar como agentes culturais nas comunidades. O impacto é mensurável: mais de 300 crianças de favelas são atendidas mensalmente pelos educadores formados pela iniciativa. O que começou como aprendizado vira trabalho, referência e multiplicação de oportunidades. — A minha experiência foi maravilhosa! No IBCE eu encontrei uma nova família, um lugar onde eu posso ser eu mesma sem julgamentos. Aprendi diversas coisas que vão me ajudar muito no futuro — garante Maria Luiza Gomes da Silva, de 18 anos. IBCE. Projeto do instituto usa a capoeira como ferramenta social e forma jovens no Morro da Babilônia, no Leme: nova turma em março Divulgação/IBCE O modelo aposta na formação continuada. No dia 7 de março, o IBCE lança a quarta turma do curso de profissionalização em Capoeira-Educação. Vinte jovens receberão bolsa de R$ 250 para se dedicarem ao processo formativo, enquanto outros 20 ingressarão como alunos mirins. Desde 2020, o projeto já formou jovens que hoje atuam como educadores, monitores e lideranças culturais em seus territórios. Durante o curso, eles desenvolvem competências técnicas, pedagógicas e socioemocionais, com acompanhamento regular e prática supervisionada em ações comunitárias. A lógica é clara: investir na juventude local para fortalecer a própria comunidade. Saudável, mas capaz de causar problemas: conheça as consequências do descarte irregular do coco-verde A capoeira, patrimônio cultural brasileiro, assume no projeto um papel estratégico. Não apenas como esporte, mas como tecnologia social capaz de articular saberes tradicionais e demandas contemporâneas. Ao incorporar educação afrocentrada, cultura, tecnologia e cidadania, o curso amplia horizontes profissionais para jovens que, muitas vezes, enfrentam barreiras estruturais de acesso ao mercado de trabalho. Na roda, eles aprendem disciplina, escuta, liderança e respeito. Fora dela, exercitam planejamento, didática e responsabilidade social. A formação cria pontes entre identidade cultural e inserção produtiva, como destaca Mestre Ferradura, professor e idealizador do projeto: — A capoeira desenvolve os potenciais corporais, musicais, sociais e culturais dos jovens. Junto com isso, os conteúdos acadêmicos e a preparação para o mercado de trabalho permitem que eles sejam protagonistas de seus próprios futuros. Música. Alunos atendidos pelo IBCE aprendem a tocar instrumentos Divulgação/IBCE Segundo o IBCE, em um cenário urbano marcado por desigualdades históricas, iniciativas como essa oferecem alternativas concretas. O esporte deixa de ser atividade extracurricular e passa a ser eixo estruturante de políticas comunitárias. Se na Babilônia a transformação acontece ao som do berimbau, entre o Cantagalo e o Pavão-Pavãozinho ela ganha forma nas ondas. Fundado em 1998 por surfistas da comunidade, o Favela Surf Clube consolidou-se como um longeva iniciativa social do Rio ligada ao esporte. Criado por Alexandre da Silva Carvalho, o Pretão, o projeto nasceu da própria trajetória do fundador. Morador do Pavão-Pavãozinho-Cantagalo, ele descobriu o surfe ainda criança, improvisando pranchas de isopor. O mar, que para muitos parecia distante, tornou-se espaço de pertencimento. Nas ondas, ele descobriu um espaço de liberdade, paz e transformação. — O surfe é uma porta de entrada para escolhas melhores — diz Pretão, que hoje atua também como educador e palestrante. Para ele, cada aula é mais do que técnica: é construção de autoestima, disciplina e respeito ao meio ambiente. Pedro Angelito: Novo subprefeito da Zona Sul diz que população em situação de rua será o principal foco de sua gestão Ao longo de quase três décadas, o Favela Surf Clube já assistiu mais de dez mil crianças e adolescentes de diversas regiões da cidade. Além de revelar talentos como Rogério Silva, Denilson Thyola e Anderson Pikachu, o projeto promove inclusão social e combate à marginalização por meio do esporte. As aulas são ministradas na praia, mas o aprendizado extrapola a arrebentação. Resiliência, concentração e trabalho em equipe são valores incorporados à rotina dos participantes. O mar vira sala de aula. — Já tivemos alunos do Turano, do Salgueiro, de Campo Grande e de várias outras comunidades. Não restringimos ninguém, mas a criança precisa estar matriculada em uma escola e ter boas notas. Nossa maior preocupação é formar um cidadão do bem, e a educação é fundamental — explica Pretão. Favela Surf Clube. Crianças e adolescentes do projeto: mais de dez mil foram assistidos ao longo de quase 30 anos da iniciativa Divulgação/Favela Surf Club Exposição para angariar fundos A força desses projetos também mobiliza o setor cultural e ganha forma concreta. Como na exposição “Prancha parede”, cuja abertura será na próxima quinta-feira, das 18h às 20h, no Forum de Ipanema, onde poderá ser vista até 20 de março. A mostra celebra os 461 anos do Rio de Janeiro, comemorados em 1º de março, e os 44 anos da galeria. Cada artista convidado pintou duas pranchas, que serão comercializadas com valores a partir de R$ 4 mil. O fundador do Favela Surf Club está confiante no sucesso da iniciativa. — A ideia é que, com essa verba, consigamos reformar a nossa sede, que fica no Ciep de Ipanema, na Rua Humberto de Campos 12. Esse projeto nasceu há alguns anos, quando fui convidado a participar de algumas ações do Fórum e começamos a conversar sobre essa possibilidade. Finalmente, ele saiu do papel — diz Alexandre Pretão. Trânsito, ocupação da calçada, população de rua e falta de fiscalização: Em abaixo-assinados, moradores de Copacabana se mobilizam contra mazelas do bairro Com curadoria do artista plástico Jorge Barata, expoente do neoexpressionismo, a exposição reúne pranchas de surfe transformadas em suporte artístico por sete nomes das artes visuais: o próprio Barata, Marco Polo, Paulo Montandon, Kakati de Paiva, Marco Velasquez, Augusto Herkenhoff e Rick Werneck. Distribuídas pelos dois pisos do espaço, as obras propõem um diálogo direto entre arte contemporânea, identidade carioca e impacto social. — Usamos nosso talento para trazer essa pegada ecológica e transformar em obra de arte um objeto que iria para o lixo. Por meio da nossa arte, podemos contribuir com esse projeto tão essencial. Como bom carioca, já me aventurei no surfe. Aproveitei para unir essa experiência a outra paixão minha, as bicicletas. Um dos modelos tem a vibe de Ipanema; o outro traz as cores da nossa bandeira, mas sem cair no lugar-comum — adianta Velasquez. Jorge Barata. O artista e curador da mostra com duas das pranchas que estarão expostas e à venda no Forum de Ipanema Divulgação/Forum de Ipanema Além das peças, um catálogo especial integra a ação e terá a renda das vendas revertida ao Favela Surf Clube. A abertura da mostra reforça o clima de celebração tipicamente carioca: haverá pipoca do conhecido pipoqueiro do bairro Luís Gonçalo de Oliveira e Biscoito Globo, além do apoio de patrocinadores como Rio 40 Graus, Estapar, Açaí Asa e Guara Army. “Prancha parede” se apresenta como um gesto coletivo que conecta diferentes setores da cidade em torno do esporte e da cultura como ferramentas de transformação social. Para o presidente da Associação de Lojistas do Forum de Ipanema, Jamil Zeina, a iniciativa traduz o espírito do espaço. Segundo ele, a galeria tem o prazer de presentear a cidade com uma exposição única, que une arte e surfe em uma experiência singular pelas mãos de artistas que “embarcaram nessa onda”. — Há anos, o Forum desenvolve projetos com cunho social, sempre apoiando a comunidade do bairro de Ipanema. O Favela Surf Club é um parceiro já conhecido e muito respeitado por nós. Acreditamos que o surfe e Ipanema têm muitas convergências interessantes. Para nós, o esporte é de fundamental importância na formação dos jovens, não apenas no aspecto físico, mas também no emocional, no social e no moral, funcionando como uma ferramenta essencial para o desenvolvimento integral deles — diz Zeina. O curador Jorge Barata destaca o caráter afetivo do projeto, lembrando que acompanhou o nascimento do Favela Surf Clube no Arpoador e que participar da iniciativa ao lado de Pretão o enriquece como artista e como ser humano. Um celular levado a cada meia hora: Zona Sul do Rio é o epicentro dos furtos de aparelhos no estado Já o fundador do projeto social vê na parceria um exemplo de como o diálogo entre cultura, iniciativa privada e ação comunitária pode transformar vidas e fortalecer redes de apoio duradouras. — Todos os nossos professores são voluntários e se formaram dentro do próprio projeto. Atualmente, são seis. Eu também dou aulas no Favela Surf Club. Queremos continuar fazendo a diferença na vida de crianças e adolescentes, e é muito bacana ver artistas e o Forum nos apoiando. Hoje atendemos 70 crianças, mas, nas férias, esse número chega a 150. As aulas acontecem duas vezes por semana, das 8h às 10h — informa Pretão. Tanto na Babilônia quanto entre o Cantagalo e Ipanema, os projetos representam a consolidação de modelos que combinam técnica, identidade cultural e impacto social. Nos dois casos, o esporte deixa de ser apenas prática física e se torna instrumento de pertencimento, formação e geração de renda. Initial plugin text